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'Percepção em relação ao Brasil é de desconfiança', diz chefe do Morgan Stanley

Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante evento no Palácio do Planalto - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante evento no Palácio do Planalto Imagem: ADRIANO MACHADO

Fernanda Guimarães

02/03/2021 08h02

O Brasil poderá perder ainda mais espaço entre os investidores estrangeiros caso não coloque ritmo em sua campanha de vacinação contra a covid-19, única alternativa para levar o país a uma trajetória de crescimento econômico.

E, para que os recursos estrangeiros possam, de fato, retomar o fluxo rumo ao Brasil, além da vacinação, o país precisa avançar no compromisso fiscal, proteção ao meio ambiente e início de reformas administrativas, de acordo com o presidente do banco Morgan Stanley no Brasil, Alessandro Zema. A seguir os principais trechos da entrevista.

Qual o efeito, para a economia, da interferência do presidente Bolsonaro na Petrobras?

Em um passado não muito distante, o Brasil cometeu todo tipo de erro no que diz respeito à política macroeconômica, com intervencionismo, que gerou juros altos, recessão e desemprego. Eu espero que a gente tenha aprendido a lição de que utilizar a Petrobras como instrumento de política macroeconômica é uma má ideia. Naquela época, que não traz saudade nenhuma, a Petrobras conseguiu um feito incrível de inverter a lógica de mercado e ser a única petroleira no mundo que perdia dinheiro toda vez que acontecia um aumento do preço do petróleo. E, desde o governo Temer (MDB), a Petrobras passou por diversas mudanças que tornaram a empresa mais competitiva. Eu espero que a nova gestão (o general da reserva Joaquim Silva e Luna deve assumir a empresa no lugar do atual presidente, Roberto Castello Branco) reforce a intenção de dar continuidade a essa trajetória de desalavancagem da empresa, de continuação do programa de desinvestimentos, com foco na maior eficiência e na governança.

E como os estrangeiros analisam o Brasil neste momento?

Se eu puder resumir, são quatro grandes preocupações em relação ao Brasil. A primeira, a situação fiscal e a possibilidade de se retroceder em avanços importantes, como o teto de gastos. Nós precisamos retomar a trajetória de controle dos gastos públicos. O segundo aspecto é o ritmo da campanha de vacinação no País - isso vai determinar o ritmo da velocidade da recuperação da economia. Sem uma campanha de vacinação efetiva, vai ser muito mais demorado para a economia voltar ao normal. O setor de serviços no Brasil foi o mais atingido na pandemia e representa cerca de 60% do PIB. Sem uma campanha eficiente, não há recuperação rápida dos setores de serviços, e isso acaba gerando impacto no emprego, na renda e no PIB. O terceiro aspecto que eu escuto muito é em relação às reformas. Precisamos urgentemente retomar a agenda de reformas para remover os entraves e permitir o crescimento sustentável. Chega de alguma forma a ser desalentador pensar que, como sociedade, ainda não temos consenso sobre temas que já deveriam ter deixado de ser controversos há muito tempo, como reforma administrativa, tributária e privatizações. Por fim, a quarta grande preocupação é sustentabilidade e meio ambiente. A criação do Conselho da Amazônia foi um passo importante, mas a percepção global em relação ao Brasil ainda é de desconfiança, e isso tem gerado uma visão de que o País enfraqueceu a fiscalização. Nós precisamos reconquistar essa confiança do mercado com medidas concretas para mudar essa percepção.

Especificamente sobre a vacinação, qual o nível de atenção dos investidores?

O investidor está muito atento ao ritmo e à velocidade da campanha de vacinação contra a covid-19. Quanto mais cedo conseguirmos avançar, mais cedo veremos uma recuperação da economia e, por consequência, mais cedo veremos um maior fluxo e capital vindo ao Brasil. Quanto mais a gente demora para ter uma campanha de vacinação efetiva e para uma recuperação da economia, mais inclinado a gente fica para gastar mais, e o governo já está com uma situação fiscal extremamente delicada. Quanto mais demorarmos nesse processo, mais esforço fiscal será necessário e pior ainda ficam as finanças públicas. Uma retomada mais rápida faz uma enorme diferença para a reorganização da economia.

As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".