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Meu primeiro desemprego: jovens penam em busca de um trabalho

Guilherme Azevedo

Do UOL, em São Paulo e em Embu das Artes (SP)

  • Reinaldo Canato/UOL

    Giuliana vive o dia todo com o celular na mão atrás de uma vaga

    Giuliana vive o dia todo com o celular na mão atrás de uma vaga

No centro ou na periferia, a busca pelo primeiro emprego tem sido um desafio para jovens em meio à crise. Giuliana, 19, está em 15 grupos no WhatsApp que compartilham vagas para recepcionistas. Rubens, 19, não quer cursar faculdade, mas cursos técnicos --que, segundo ele, ajudam a "arranjar trampo mais rápido". Ana, 23, faz faculdade, tem alguns "frilas" e conta com a ajuda dos pais. 

De cada quatro brasileiros, um tem entre 14 e 29 anos. É um batalhão com cerca de 50 milhões de pessoas. "É a maior juventude que o Brasil já teve e jamais terá", diz o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da FGV (Fundação Getulio Vargas) e ex-ministro no governo de Dilma Rousseff (2013-2015).

Para esses iniciantes, a situação do desemprego é pior do que para a média dos trabalhadores. No segundo trimestre, a taxa de desocupação para quem tinha de 14 a 17 anos era de 43%, e para quem tinha de 18 a 24 anos, era de 27,3%. A média nacional foi de 13%, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

"Os jovens são os principais perdedores dessa recessão", diz Neri. "Ao não cuidar do seu jovem, o Brasil, 'o país do futuro', está colocando o seu futuro em risco."

Vagas pelo WhatsApp e pelo Facebook

Reinaldo Canato/UOL
Para Giuliana, a busca por um trabalho começa logo pela manhã

Giuliana da Silva Borges, 19, mora com os pais e o irmão na Vila Carmosina, em Itaquera, zona leste da capital paulista. Para ela, o celular é tudo: é como fica sabendo de vagas como recepcionista em eventos, exposições e feiras. 

Fico o dia inteiro no celular. Da hora em que acordo até a hora em que vou dormir. Nunca deixo a bateria do meu celular acabar. Nunca. É o único meio de falar comigo, de me avisar de trabalho, de mudança de horário, de um cancelamento. Meus pais às vezes reclamam um pouco: 'Poxa, você fica o tempo todo no celular'. Mas é assim o meu trabalho

Giuliana da Silva Borges, 19

Reinaldo Canato/UOL
Da Vila Carmosina, em Itaquera, a caminho de mais um evento

"Work / Panelinha" e "Mona Jobs" são alguns dos grupos do WhatsApp dos quais participa. Eles funcionam, em geral, de forma colaborativa, e uma menina avisa as outras sobre uma vaga. Também fica de olho nas agências de empregos pelo Facebook.

Há pouco mais de um ano no mercado, ela diz ter aprendido a tomar cuidado com alguns anúncios porque há, entre outros riscos, o de levar um calote --como ela mesma sofreu no começo. "Eu entrei de cabeça e caí numas ciladas, mas a gente vai aprendendo a identificar as vagas falsas. Na dúvida, consulte quem já está há mais tempo no mercado."

Reinaldo Canato/UOL
A coleção de crachás

É preciso desconfiar de vagas que pagam acima do valor de mercado, checar se a agência é bem cotada entre as recepcionistas e, na hora de fechar o trabalho, ver se a conversa é condizente com a de outros contratantes, diz a jovem.

Outra prática que incorporou ao dia a dia como recepcionista foi a de tirar fotos de cada trabalho que faz, porque isso serve de portfólio --e de seguro. "Esse é o meu currículo. As fotos mostram minha experiência para as agências. Afinal, como vou provar que tenho experiência, se [os empregadores] não dão contrato de trabalho nem certificado? Também se forem me dar calote, tenho as fotos como prova."

Cortar as compras para ter dinheiro para sair

Natural de Maceió, mas há quatro anos em Belo Horizonte, a universitária Ana Nascimento, 23, conta com a ajuda dos pais enquanto busca o primeiro emprego fixo. A família vive em Goiânia. Ana divide apartamento com duas amigas.

Alexandre Mota/UOL
A estudante Ana Nascimento, que estuda design de produto na UEMG

Ela conta que já morou em oito cidades, mas se mudou para a capital mineira quando passou no primeiro vestibular (para a carreira de estatística, que acabou abandonando "por falta de identificação"). Hoje, estuda design de produto da UEMG (Universidade do Estado de Minas Gerais). Como muitos jovens, diz que valoriza a flexibilidade.

Gosto dessa liberdade de trabalhar de onde quiser, em horários alternativos, viajar e mesmo assim cumprir o prazo. Hoje há tanta tecnologia que a gente não precisa ficar tão presa ao escritório. Tem muita coisa que se resolve por e-mail e pronto

Ana Nascimento, 23

"Conto com a ajuda dos meus pais. As despesas de lazer, como ir a barzinhos, sou eu que pago com meus trabalhos 'frilas' [temporários], mas têm rareado. Por isso, tenho diminuído as compras de mercado para sobrar algum dinheiro para sair."

"Cursos para arranjar trampo mais rápido"

As histórias de jovens da periferia de São Paulo se parecem. Rubens Tomé Galdino Filho, 19, Cássio Henrique Reis de Almeida, 20, Vinicius Batista de Moura, 22, e Gabriel Batista Moura, 20, moram no Jardim Irapiranga, no município de Embu das Artes, na Grande São Paulo.

Reinaldo Canato/UOL
Os garotos na escola onde estudaram: à frente, Vinicius (esq.) e Tomé; atrás, Cássio (esq.) e Gabriel

São vizinhos e amigos desde a infância. Com exceção de Gabriel, cresceram sem a presença do pai. Vinicius não sabe nem o nome do dele, e o pai de Cássio morreu quando ele tinha apenas 1 ano. Segundo eles, a ausência do pai teve um aspecto positivo: precisaram se virar logo cedo.

Contam que já tiveram muitos "subempregos", como atendente em supermercado e lanchonete, desde os 14 anos. Hoje estão desempregados. Têm o ensino médio completo (exceto Gabriel, que se atrasou e deve terminar neste ano). Para eles, fazer faculdade não é o objetivo. Preferem cursos livres e técnicos.

Reinaldo Canato/UOL
Ponto de encontro dos quatro amigos é em casa alugada

Cursos para arrumar um trampo mais rápido. Penso em a gente estudar e ganhar os projetos [de incentivo à cultura] para a quebrada

Rubens Tomé Galdino Filho, 19

Sonham em desenvolver projetos culturais na periferia onde vivem. Pensam em organizar e produzir eventos culturais que têm pululado nas periferias nos últimos anos, como saraus, batalhas de rima e shows de reggae e de samba na rua. Existe uma oportunidade, dizem, e querem pegá-la.

Um dos exemplos que seguem é do rapper Róber, o Roberval, vocalista do grupo Made in Favela, que mora por ali, na viela Clementina. Os meninos sempre são convidados e "colam" com ele, com participação especial nos videoclipes da banda, por exemplo. 

Reinaldo Canato/UOL
Tomé quer produzir a "cultura da quebrada"

Tomé acabou de ganhar seu primeiro projeto: com incentivo da Prefeitura de São Paulo, vai criar um estúdio musical comunitário. Serão R$ 40 mil, divididos em duas parcelas. Estão comprando o equipamento já.

"A pessoa precisa conhecer a história da periferia e começar a correr atrás das coisas que a quebrada tem a oferecer. Noto muito comodismo da gente", identifica Vinicius. "Só depende da pessoa para ser feliz. Correr atrás do que se sonha. Você planta, você colhe. Conhecimento é fundamental", diz Cássio.

Veja mais histórias da série sobre vítimas do desemprego

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