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Na 4ª série, mãe de seis e desempregada: "Como vou conseguir trabalho?"

Gabriela Fujita

Do UOL, em São Paulo

  • Keiny Andrade/UOL

    Maria Cláudia Nunes Caetano, 44, moradora de Guaianazes (zona leste de São Paulo)

    Maria Cláudia Nunes Caetano, 44, moradora de Guaianazes (zona leste de São Paulo)

O medo de passar vergonha impediu, por muito tempo, que Maria Cláudia Nunes Caetano, 44, procurasse um emprego. Preencher a ficha para se candidatar à vaga é sempre motivo de apreensão porque ela mal sabe ler e escrever.

"Na maioria das vezes, pedem que a pessoa tenha ensino médio completo ou fundamental, e eu não tenho nem isso. Estou fazendo a quarta série e tenho muita dificuldade. Leio muito pouco, frases pequenas eu consigo, mas, dependendo do que está escrito, eu já não posso", ela diz.

Cláudia nasceu em uma família muito pobre de Sobral (CE). Já em São Paulo, morou na rua quando era criança e chegou a catar restos de alimentos para ter o que comer. Foi matriculada na escola com 8 anos e só fez a primeira série. Aos 13, engravidou pela primeira vez.

Ela passou a adolescência, a juventude e a vida adulta criando os seis filhos, frutos de dois casamentos. Sua trajetória, neste ponto, é semelhante à de muitas brasileiras: a experiência conjugal começou bem antes da profissional, e o marido é quem sai para trabalhar, enquanto a mulher cuida da casa.

"Meu segundo esposo, no começo do casamento, não queria que eu trabalhasse. Ele dizia: 'Enquanto eu puder colocar comida dentro de casa, você não precisa trabalhar'. E assim a gente foi vivendo", ela conta.

Não dava para voltar a estudar, não tinha com quem deixar meus filhos para estudar à noite

Maria Cláudia Nunes Caetano, desempregada

O primeiro emprego veio só em 2013, na área de limpeza geral, já aos 40 anos de idade. Durou oito meses. Até junho deste ano, ela havia conseguido mais dois registros (não simultâneos) na carteira de trabalho, mas um corte de funcionários interrompeu seus planos.

Sem qualificação e quase nenhuma escolaridade, ela agora está desempregada, assim como 13,3 milhões de pessoas no Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registrou entre os meses de maio e julho deste ano.

O marido de Cláudia estudou até a oitava série e é dono de uma oficina de consertos eletrônicos. A renda varia conforme o fluxo de clientes, e o movimento vem caindo nestes últimos anos. Quando pesou demais pagar as contas, ela resolveu procurar trabalho. Foi incentivada por muitos conhecidos a retomar os estudos, para ter mais chances, e se inscreveu em um programa de educação para adultos --seu filho mais novo estava então com cinco anos.

Keiny Andrade/UOL
Maria Cláudia e os filhos perto do córrego em frente à sua casa, em Guaianazes

No país, de acordo com dados do IBGE, no segundo trimestre do ano (abril a junho), 13% da população estava desocupada (termo que representa as pessoas que procuraram emprego e não conseguiram, na época da pesquisa). No mesmo período em 2016, o índice foi de 11,3%.

Entre as pessoas desocupadas, 25,3% não tinham concluído o ensino fundamental (a exemplo de Cláudia); 52,1% tinham concluído apenas o ensino médio; e apenas 8,5% apresentavam nível superior completo.

"O desemprego pega todas as faixas de trabalhadores, mas quem tem instrução e qualificação tem mais chance, uma gama maior de oportunidades para se candidatar", afirma a consultora Luciana Tegon, head hunter e coach em São Paulo. Apesar de não haver garantias, "escolaridade é o que vai levar a pessoa para a frente."

Por nível de instrução, a taxa de desocupação ficou assim no segundo trimestre do ano:

  • Com ensino médio incompleto: 21,8% desocupados
  • Com nível superior incompleto: 14% desocupados
  • Com nível superior completo: 6,4% desocupados

"Quem tem baixa instrução pode tentar vagas nas frentes de trabalho, nas iniciativas públicas de emprego, nos postos de atendimento ao trabalhador", diz Tegon. "É importante estar atento aos programas de apoio aos desempregados e às vagas que não exigem qualificação, principalmente na região onde o candidato mora. E tem que completar o estudo. O mínimo que se exige é o ensino médio completo, para não cair no subemprego."

"Eu me sentia útil, porque estava ajudando"

A família vive há cerca de 20 anos no extremo da zona leste de São Paulo, em Guaianazes, próximo ao limite com o bairro de Cidade Tiradentes (a 30 km do centro). A casa é de três cômodos e a construção ainda não foi terminada.

Os quatro filhos mais novos (de 8, 16, 18 e 19 anos) dormem em beliches em um quarto. O casal fica no segundo quarto do imóvel, que ainda tem um banheiro e uma cozinha. Já adultos, os dois filhos do primeiro casamento moram em outro endereço.

Keiny Andrade/UOL
Elizeu (à esq.), 18, Eliel, 8, e Camila, 16, no quarto onde dormem

O terreno em Guaianazes fica de frente para um córrego, que recebe o esgoto sem tratamento da casa deles e de outras várias, porque não existe rede de coleta neste trecho do bairro.

Entre 2013 e 2014, Cláudia conseguiu emprego e um salário que fazia a diferença em casa. Trabalhou como auxiliar de limpeza em estações de metrô e cuidadora de idosos em uma clínica. A renda da família chegou a superar R$ 4.000. Hoje, com ela desempregada e a crise, está em cerca de R$ 1.000. 

"Para nós, esse dinheiro representou muita coisa. Você está vendo que a casa ainda não está terminada, né? Aqui não tinha piso, era cimento, a casa não era rebocada. Eu comprei o piso da cozinha, o piso do quarto dos meninos, cada mês eu fazia uma coisa", ela se orgulha ao falar sobre suas conquistas.

Dois filhos passaram por problemas graves de saúde, em momentos diferentes, e precisaram ficar no hospital e de repouso em casa. Um por conta de acidentes de trânsito e outro por problemas respiratórios. Cláudia se viu sem outra saída que não fosse abandonar o serviço, no fim de 2014.

Quando a situação voltou ao normal, seis meses depois, ela começou a procurar emprego. Resgatou os estudos, mas a oportunidade não veio. Em maio de 2017, foi aceita como servente de limpeza em uma estação de trem, mas foi dispensada após um mês e meio, "porque teve um corte de funcionários, pelo que entendi".

Segundo um estudo divulgado em janeiro deste ano pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), a região onde a família mora é uma das mais afetadas pela piora no mercado de trabalho em São Paulo. Em 2016, foi a que teve maior redução no número de moradores ocupados: 61 mil pessoas a menos. E os postos com carteira assinada na região empregam apenas 23% de seus residentes.

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Três dos seis filhos de Maria Cláudia no quarto dos pais, em Guaianazes

"O dinheiro que entra só dá para comprar a comida"

"A gente não sai para passear, não temos condições de fazer uma compra para o mês todo, não estamos comprando roupa nem sapato. Também não dá para pagar a conta de luz, que está atrasada há dois anos. Estou devendo mais ou menos uns R$ 2.000", Cláudia lamenta.

Entre compra de material de construção e supermercado, a dívida avança mais R$ 1.400, em dois cartões de loja, que não há como pagar. Foram dívidas feitas em época de melhores condições.

Sem dinheiro para a condução, pedi R$ 10 para meu vizinho para ir atrás de emprego

Maria Cláudia Nunes Caetano, desempregada

Dos quatro filhos que moram com ela, dois são maiores de idade, com 19 e 18 anos, mas ainda não terminaram a oitava série. O mais velho desistiu da escola aos 15 anos, e o irmão teve problemas de saúde e acabou sendo reprovado na escola.

Três anos atrás, os dois jovens tinham emprego de montadores de sofá em uma loja de móveis e colaboravam com o orçamento do lar, mas a empresa fechou e eles nunca mais conseguiram trabalhar. "O de 18 anos faz alguns 'bicos' entregando panfleto, como cobrador de perua, mas sempre tem esse problema de estar na oitava série...", ela comenta sobre a dificuldade do filho para ser contratado.

Keiny Andrade/UOL
Maria Cláudia e os filhos na cozinha de casa, que ainda não foi terminada

"Meu sonho era terminar de colocar o azulejo na parede aqui na cozinha, mas a gente, pelo visto, vai passar mais um ano com a casa assim."

Ela espera concluir o ensino fundamental em até mais um ano e insiste para que os filhos não abram mão dos estudos.

"O que eles [os empregadores] não entendem é que, além de estudar, a pessoa precisa trabalhar para poder comer. Vai ter a chance de emprego só quem estudou", Cláudia desabafa. "Não é porque a pessoa tem pouco estudo, pouca leitura, que ela não tem vontade de trabalhar."

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