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Crise deixa rastro de fábricas fechadas, desemprego e desalento no ABC

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

  • Amanda Perobelli/UOL

    Carlos é uma das mais novas vítimas do desemprego: a fábrica onde trabalhou por 23 anos e onde perdeu parte de 3 dedos da mão direita vai fechar as portas

    Carlos é uma das mais novas vítimas do desemprego: a fábrica onde trabalhou por 23 anos e onde perdeu parte de 3 dedos da mão direita vai fechar as portas

A primeira semana de trabalho em setembro foi arrastada e melancólica nas linhas de montagem da Panex, fábrica de panelas e utilidades domésticas em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, com 39 anos de história no mesmo local. São poucos os que ainda têm o que fazer e o clima é de fim de festa, com cada vez menos gente.

Tem sido assim desde fevereiro, quando os franceses do Grupo Seb, dono da empresa desde 2005, anunciaram o fechamento da fábrica histórica e a transferência de todas as atividades para a unidade de Itatiaia, no interior do Rio de Janeiro.

A redução no número de funcionários acontecia já não era de hoje e este desfecho era questão de tempo, mas o anúncio pegou muita gente de surpresa. Como o torneiro mecânico Carlos Antonio de Carvalho, que tem 51 anos de idade e trabalha na fábrica há 23 deles. A poucos anos de distância da aposentadoria por tempo de serviço, ele diz que ficou bastante chateado. "Dei entrada no processo, vou pagar uma diferença e ganhar menos, mas acho que consigo um benefício, vamos ver", afirma.

"É uma vida inteira, né", diz o trabalhador. Até dezembro, quando a fábrica for fechada de vez, Carvalho engrossará as estatísticas do desemprego no Brasil, que no segundo trimestre deste ano recuou

São 13,3 milhões de desempregados no Brasil, segundo o IBGE, mas o órgão não informa dados específicos sobre a região do ABC. Segundo outra pesquisa, do Seade/Dieese, a região tinha cerca de 250 mil pessoas paradas em fevereiro (dado mais recente).

Neste cenário, Carvalho não tem esperança de arrumar um emprego com carteira assinada na região onde vive, menos ainda na metalurgia. "[O problema] Não é só minha idade, é que não existe mais vaga em indústria, não tem mais emprego para operário aqui. Todo ano é fábrica fechando, conhecido sendo mandado embora, não tem alento", diz.

Outra dificuldade, no caso dele, foi o preço cobrado pelo torno que operou a vida toda. Quase 20 anos atrás, teve três dedos decepados pela máquina, no formato da curva da tampa de panela que dobrava. 

Crise acelerou mudanças de empresas

Ao longo de todos estes anos, o operário viu o número de colegas empregados no local cair de pouco mais de mil para os cerca de 300 que ali estavam quando veio o anúncio final. A pá de cal foi a crise econômica dos últimos três anos. De acordo com o Grupo Seb, na ocasião do anúncio, a desativação da fábrica começou em julho e vai até o fim do ano.

A decisão de transferir a linha, diz a empresa, visa elevar sua competitividade em um momento difícil para a economia nacional. No início de 2016, a empresa já havia feito a mesma coisa com a fábrica da Mooca, na zona leste de São Paulo, onde eram produzidos os eletrodomésticos. Estava naquele local havia cerca de 70 anos.

O exemplo da Panex ilustra uma situação que é tendência em toda a região do ABC: um processo de desindustrialização e perda de empregos que se desenvolve ao longo de décadas --por motivos variados-- e que tem sido acelerado com a crise econômica de meados de 2014 para cá.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC --de onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu no começo dos anos 1980 para despontar como liderança da esquerda nacional--, eram 111 mil trabalhadores ativos na base em 2011, o auge histórico no número de filiados. De 2011 até 2014, foram perdidos cerca de 10 mil empregos. Do segundo semestre de 2014 até agora, o ritmo de cortes acelerou: foram quase 28 mil mandados embora.

"Que alternativa eu tenho? Vou fazer 'bicos'"

"Existem dois tipos de desemprego aqui na região do ABC", afirma Wagner Santana, atual presidente do sindicato dos metalúrgicos. "Um é o desemprego conjuntural, que tem a ver com a crise econômica e volta conforme a economia aquece novamente. O outro é um desemprego mais estrutural, do fechamento da fábrica, da modernização das linhas de montagem, da transferência das empresas para outros lugares", diz o sindicalista.

"A vocação do ABC ainda é industrial, é o que move a economia por aqui. Porém, ainda não começamos a desenvolver um plano a longo prazo e, se não começarmos logo, o tipo de indústria que temos aqui não vai sobreviver e veremos cada vez o ABC perdendo a vida própria e virando cidades-dormitórios."

Neste cenário, depois de uma viagem de descanso com a mulher até a Argentina, o operário Carvalho quer virar autônomo. "Que alternativa eu tenho? Vou fazer 'bicos' de encanador e eletricista", afirma. Será mais um dos milhares de brasileiros que puxaram a "recuperação" nos índices de emprego na base da troca de uma vaga com carteira assinada por uma atividade precarizada.

Amanda Perobelli/UOL
Trabalhadores da Ford deixam fábrica em São Bernardo do Campo, na Grande SP

"Chegamos ao fundo do poço, e nele estamos"

Os números da indústria automotiva --principal geradora de empregos na região-- dão sinais de recuperação, mas ainda seguem muito abaixo do que eram três anos atrás. De acordo com balanço divulgado no início do mês pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), a produção de veículos aumentou pelo segundo mês consecutivo em julho, depois de sucessivas quedas nos últimos anos.

De acordo com estimativas de executivos do setor, se a tendência de recuperação continuar, o Brasil pode produzir até cerca de 2 milhões de veículos até o final do ano. Hoje a previsão oficial está em pouco mais de 1 milhão de unidades. Em 2014 (a partir de quando se acentuam as demissões), foram cerca de 3,5 milhões de veículos colocados nos mercados nacional e internacional.

Os "lay-offs", quando a montadora deixa os trabalhadores em casa com salários reduzidos para não demitir, estão quase no fim, de acordo com o sindicato. "A empresa que tem mais funcionários parados hoje é a Volkswagen, com uns mil em 'lay-off', mas está retomando aos poucos", diz Wagner. No 'lay-off', as montadoras aderem ao PPE (Programa de Proteção ao Emprego), criado ainda no governo Dilma, e o governo federal paga parte do salário em troca de a empresa não mandar o trabalhador embora.

"Mas ainda é muito cedo para comemorar. Chegamos ao fundo do poço e nele estamos, ainda sem sinal de sair", diz o sindicalista. "A Mercedes-Benz tem aproveitado o momento para fazer uma grande reestruturação nos últimos anos e vem diminuindo o quadro de funcionários."

No ano passado, a montadora mandou embora entre 300 e 400 funcionários. Em agosto deste ano, a Ford dispensou 364 funcionários. A Volkswagen anunciou investimento de R$ 2,6 bilhões na fábrica de São Bernardo do Campo, mas isso não significa mais empregos. "É modernização, o que vai acontecer é que vão parar de demitir, pelo menos por um tempo", diz o presidente do sindicato dos metalúrgicos.

"O resumo é que, de todos esses empregos que sumiram de 2014 para cá, ainda não sabemos quantos voltam e quantos foram embora de vez", diz o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. "Precisamos esperar a atividade econômica voltar ao normal para aí ver o que foi perdido", afirma.

Amanda Perobelli/UOL
Trabalhador carrega caminhão com equipamentos da linha de montagem da Panex, em São Bernardo do Campo: empresa fechou as portas no ABC e mudou-se para o RJ

"Depois de 22 anos aqui, vai ser estranho sair"

Sem emprego, alguns perdem o chão. "Não sei nem o que dizer, o que pensar direito", afirma Siresio Vieira da Silva, 41. "Esse foi meu primeiro e único emprego na vida. Entrei aqui com 19 anos como auxiliar de produção e hoje sou supervisor", contou em uma tarde no início de setembro. Havia acabado de ser demitido.

"Eu mesmo trabalhava em metalúrgica e fiquei desempregado faz quase dois anos", comenta um trabalhador que prefere não ser identificado e foi contratado para fazer um "bico" desmontando os equipamentos da Panex para fazer a mudança para o Rio de Janeiro. É mais um exemplo vivo da precarização dos postos de trabalho para quem sai do desemprego. Aos poucos, ele e os colegas vão enchendo os caminhões e levando embora o que sobrou da fábrica.

"A gente fica triste, mas é assim mesmo, é vida que segue", diz Neilson Ferreira Gomes, 49. "Depois de 22 anos na mesma fábrica, vai ser estranho sair", diz. Ele ainda não sabe quando será desligado, mas sabe que de dezembro não passa.

Amanda Perobelli/UOL
Neilson foi surpreendido com o anúncio de fechamento da fábrica onde trabalha em São Bernardo do Campo, na Grande SP: ele está na empresa há 22 anos

A avenida Álvaro Guimarães, onde fica a Panex em São Bernardo do Campo, é um bom exemplo do processo de desindustrialização vivido na região do ABC ao longo da última década e que foi acelerado pela crise nos últimos anos. Do outro lado da rua, fica a fábrica de peças e manutenção de motores de avião da Rolls-Royce, desativada no início do ano. Alguns quilômetros para a frente, está localizada a fábrica da Karmann-Ghia, que foi à falência no final do ano passado.

Ali perto ainda há as instalações da P&G (do ramo de limpeza e higiene pessoal), vazias desde que a matriz norte-americana decidiu encerrar as operações no local. Em volta destes locais enormes e desertos, o comércio definha sem fregueses e vai fechando as portas aos poucos. Não há comerciante na região que não reclame da queda no movimento. Para eles, não há sinais da recuperação econômica comemorada pelo governo federal.

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