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Venda de "quentinha" vira sustento de desempregados: "Agora pago luz e gás"

Carolina Farias

Colaboração para o UOL, no Rio

  • Marco Antonio Teixeira/UOL

    Juliana Puglezio em sua cozinha industrial para fazer marmitas; seu negócio, em expansão, já conta com dez empregados

    Juliana Puglezio em sua cozinha industrial para fazer marmitas; seu negócio, em expansão, já conta com dez empregados

Vender marmitas ou "quentinhas" virou uma saída para algumas pessoas que ficaram sem emprego ou viram as dívidas se acumularem por causa da crise que atinge o país e, em especial, o Estado do Rio de Janeiro.

O mercado de trabalho no Brasil mostrou recuperação no primeiro semestre, mas o Rio ficou de fora desse movimento, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). O Estado perdeu 65.582 vagas com carteira assinada nos seis primeiros meses do ano.

O preço de uma refeição completa --comida, bebida, sobremesa e um cafezinho-- no Rio de Janeiro podem variar de R$ 36,94 a R$ 64,66, de acordo com pesquisa de 2016 da AssertBrasil (Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador).

As quentinhas têm preço médio entre R$ 10 e R$ 15 nos pontos visitados pela reportagem. Quando custam acima de R$ 10, geralmente vêm acompanhadas de uma bebida como guaraná natural ou refrigerante.

Na zona sul e na Barra da Tijuca, algumas vias são conhecidas como "ruas das quentinhas", tamanha a quantidade de carros estacionados para vender as marmitas. Como ainda estão no mercado informal, os entrevistados pediram para não identificar nem fotografar o local exato das vendas.

Nos lugares visitados na zona sul, os preços variam de R$ 13 a R$ 15, e o movimento começa antes do almoço, por volta das 10h30. Os fregueses incluem motoristas de táxi e aplicativos, seguranças, secretárias, motoristas de caminhões da prefeitura, moradores locais, operários de obras e até executivos de empresas da região. Os vendedores aceitam cartões de débito e vale-refeição.

"Somos o carro do feijão que vem separado"

De olho nessa clientela e sentindo os efeitos da crise batendo à sua porta, o casal Juliana Puglezio, 24, e Pedro Casaes, 37, resolveu apostar no negócio da alimentação. Desde novembro, estacionam o carro na rua e trabalham no ramo das marmitas.

Marco Antonio Teixeira/UOL
Casal fez pesquisa para entender o que os clientes não gostavam e oferecer opções
"Eu tinha uma compra e venda de carros novos e seminovos e, com a crise, as vendas caíram. Não queríamos baixar nosso poder aquisitivo e comecei a me planejar", explica Casaes. Puglezio era recém-formada em jornalismo.

Antes da estreia, o casal fez uma "pesquisa de mercado" para ter algum diferencial. "Ficamos um mês e meio perguntando o que as pessoas não gostavam nas quentinhas. As respostas eram quase unânimes: o feijão junto à comida. É uma coisa simples e sacamos isso. Vendemos a quentinha com o feijão em embalagem separada. Viramos 'o carro do feijão separado'", diz.

Outra característica única entre os seis carros de quentinha em uma rua da zona sul é que o casal sempre tem uma opção fit no cardápio de 12 pratos diários.

"Vimos que nenhum deles tinha e fizemos. Todo dia tem uma opção com arroz integral e tilápia ou patinho moído, além de legumes e batata-doce. Assim ganhamos muitos clientes", conta Puglezio.

No primeiro dia, das 20 quentinhas que levaram, venderam sete. Hoje, com uma estrutura de dez empregados, entre pessoal de cozinha e entrega, vendem em média 300 refeições por dia --150 no carro estacionado e as demais em contratos de entrega para grupos e empresas pré-combinados.

Marco Antonio Teixeira/UOL
Marmitas chegam de motoboy ao Leme, na zona sul do Rio

"Consigo manter meus filhos na escola particular"

Quem também é novato na "rua das quentinhas" é Francisco Cleiton Bezerra da Silva, que trabalhava como funcionário comissionado na Prefeitura de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e começou a ter os salários atrasados em 2016. Há pouco menos de um ano, ele se aventura na venda das quentinhas e se diz satisfeito.

"Vendemos 50 por dia em média. Em dias fracos são 40, mas graças a Deus quase nunca sobra. A situação está estável, está dando para levar. A crise afeta na dimensão do lazer e a gente tem que adequar as prioridades, entre a escola das crianças e as contas. Mas consigo manter meus dois filhos na escola particular", disse Silva.

Ele emprega quatro pessoas no pequeno negócio, como a estudante Gabriela Moreira, que ficou dois anos desempregada. "Este trabalho deu para acertar as contas", disse a jovem.

Marco Antonio Teixeira/UOL
As quentinhas em produção na cozinha industrial de Juliana Puglezio

Segundo Silva, o segredo para manter a clientela cativa é um bom tempero e pratos rotineiros em seu cardápio, que tem de sete a oito opções diárias. "Tem que ter parmegiana e bife com batatas fritas todos os dias. E não pode faltar a feijoada na sexta", contou o vendedor.

O office boy Fabrício Ferrari opina que o sabor dos pratos de Silva é bom. O rapaz compra quentinhas porque, segundo ele, os restaurantes da área são caros. Além disso, ele conta com uma camaradagem na hora de almoçar.

"Trabalho em uma imobiliária aqui perto e não tem refeitório para levar a quentinha e comer lá. Então o Silva me deixa comer no carro", afirma Ferrari.

"Todo mundo que precisa eu deixo comer dentro do carro. Tenho bancos em que as pessoas podem se sentar, mas tem gente que não gosta de comer na rua", diz Silva.

Também na zona sul, Aloisio Rocha, 49, tem dois "pontos de vendas". Para se comunicar com o filho no carro que fica no final da rua, usam radiocomunicadores. "É mais prático", disse Rocha, que afirma que não foi afetado pela crise. "Ao menos não diretamente. Só dia de chuva me prejudica", contou à reportagem.

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Equipe da cozinha prepara as marmitas para entregar no Rio

"Agora conseguimos pagar a luz e o gás"

De janeiro a junho deste ano, 60 restaurantes fecharam as portas no Rio e cerca de 2.300 pessoas perderam seus empregos, de acordo com o SindiRio (Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio). 

Com 13 anos de venda de quentinhas atrás de um grande shopping em Botafogo, na zona sul, José Edson dos Santos, 43, viu suas vendas caírem.

"Vendo entre 60 e 70 quentinhas, mas têm sido comuns os dias em que vendo 40. Antes da crise vendia de 150 a 180. Comecei a enfrentar a concorrência da marmita que as pessoas trazem de casa. Ontem quase demiti um funcionário, mas entrou um contrato de entrega e desisti da dispensa", afirmou o vendedor.

Já o casal de vendedores de doces Luciano Ezequiel e Renata Pessanha se viu obrigado a diversificar o negócio. Há um ano, passaram a vender quentinhas no Leme, também na zona sul, a R$ 10. 

"Com as quentinhas conseguimos pagar a luz e o gás. As coisas estão melhorando", disse Pessanha. 

Segundo Ezequiel, eles chegaram a tentar vender as marmitas a R$ 12, mas a concorrência os obrigou a baixar para R$ 10. "Em Copacabana [bairro vizinho ao Leme], tem gente vendendo a R$ 5. Tivemos que mudar o preço", afirmou.

"Acordo às 6h30 e durmo tarde da noite"

Marco Antonio Teixeira/UOL
Mayne Iglesias vende suas quentinhas no bairro do Leme, no Rio
Já a ex-estudante de teatro Mayne Iglesias viu na crise uma chance de ganhar o próprio dinheiro e ainda ajudar o namorado a fazer uma viagem dos sonhos a Tailândia, Dubai e Indonésia.

"Ele trabalha com turismo e a mãe dele é cozinheira. Ele teve a ideia de montar o negócio e me colocar para vender porque trabalhei em lojas, sou boa vendedora", disse a jovem de 26 anos, natural de Catanduva, interior de São Paulo, que deixou a cidade para estudar teatro, mas as dificuldades econômicas a levaram a outros caminhos.

"Cheguei a estudar teatro em duas companhias, mas tive dificuldades. É um setor muito instável e difícil. Aí fui trabalhar em lojas em shoppings. O teatro me ajudou a me libertar da timidez e usei isso nas vendas", disse a jovem que vende cerca de 30 quentinhas a R$ 10 desde que levou seu banquinho com os isopores para uma rua no Leme, há dois meses.

Marco Antonio Teixeira/UOL
Mayne Iglesias passou do teatro para as marmitas: "Sou boa vendedora"

O segredo do baixo valor das refeições é, segundo ela, muita pesquisa e trabalhar duro. "Vou a cinco supermercados todos os dias pesquisar preços e conseguir as melhores ofertas. Acordo às 6h30 todos os dias, ajudo a cozinhar e vou dormir tarde da noite por causa das compras", afirmou a jovem.

Mayne já tem clientela cativa e até amigos no bairro. É elogiada pelo sabor da comida e pela iniciativa.

"Eu também já trabalhei com venda de alimentos, vendia doces e sei como é. A economia nos dá esses dois lados. Na crise tem que se reinventar", disse a atriz e palhaça Anneli Olljum, vizinha do ponto de vendas de Mayne.

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