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Sem emprego nem resposta: eles relatam angústia e paranoia quando o RH some

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

  • iStock

    Especialista em RH diz que falta de resposta afeta autoestima e confiança dos candidatos

    Especialista em RH diz que falta de resposta afeta autoestima e confiança dos candidatos

Na busca por um emprego, candidatos muitas vezes se sentem prejudicados por uma atitude dos contratantes. Ou melhor: por sua falta de atitude. Acontece quando, depois de algumas conversas e até de dinâmicas, as empresas ignoram aquela pessoa que pleiteava uma vaga. Deixam de lhe dar um retorno --como muitas vezes prometeram--, até o candidato concluir, por conta própria, que não foi daquela vez. O mais grave é esse silêncio que alimenta a ansiedade vir de uma área chamada RH (recursos humanos), destacada justamente para lidar com pessoas.

A queixa vem se tornando mais comum, neste momento em que 13,3 milhões de pessoas estão desempregadas no Brasil. "É comum os entrevistadores não darem retorno, então você fica no aguardo de uma resposta que muitas vezes não vem. Nós temos pressa, as empresas não", resumiu ao UOL um arquiteto sobre sua dificuldade em se recolocar.

Arquivo Pessoal
Depois de entrevistas, Luiz Gustavo foi deixado ''no vácuo'' por algumas empresas
Norberto Chadad, diretor-executivo da consultoria de gestão de carreira Thomas Case & Associados, considera a falta de uma política clara e eficiente de feedback (retorno) extremamente danosa para o profissional que se candidata: "Afeta sua autoestima, seu amor próprio e até a própria confiança em suas habilidades e competências".

Foi o que aconteceu com o administrador Luiz Gustavo Souza, 35, com dois cursos de pós-graduação, que ficou um ano e dois meses desempregado. Até agosto, quando encontrou uma vaga na área de seguros --como auxiliar de sinistros--, teve de lidar com o silêncio de algumas empresas onde tentou trabalhar. Ele, que mora em Bauru (SP), calcula ter feito cerca de 20 entrevistas, depois de enviar mais de 400 currículos para diversas partes do Brasil. Depois de algumas delas, como define, "ficou no vácuo".

A pessoa está lá, passando perrengue, muitas vezes se sentindo humilhada, e a resposta não vem. Isso aumenta a ansiedade, cria angústia e até paranoia. 'Será que eu falei algo errado? Será que meu currículo não é bom? Será que ligo para saber? Se ligar, vão achar que estou enchendo?'
Luiz Gustavo Souza, administrador

Por que os contratantes não respondem?

"Todo candidato deveria receber um feedback, mas nem sempre isso acontece", reconhece Lucas Oggiam, gerente da consultoria especializada em contratações Page Personnel.

Para ele, são três os principais motivos para isso. Primeiro, o fato de o contratante estar tão atarefado que não consegue tempo. Depois, a cultura brasileira, de pessoas não adeptas aos feedbacks --principalmente os retornos negativos, considerados mais difíceis. Terceiro, o fato de a empresa ainda não ter se decidido, e o processo demorar mais do que o planejado.

Nos últimos anos, quando enfrentou o desemprego, Vanessa* se deu conta deste terceiro fator --que classifica como descompasso entre a urgência demonstrada pelos contratantes (querem alguém "para ontem") e a demora até baterem o martelo. Ela, que já liderou o RH de uma grande empresa, hoje atua como consultora independente.

Segundo Vanessa, as companhias saem em disparada atrás de profissionais idealizados, ou "super-heróis". Como não os acham, o processo trava ou torna-se mais lento que o previsto --seja para discutir o caso com outras áreas, flexibilizar a lista de exigências, reavaliar a vaga, recomeçar a busca considerando outros perfis ou tentar um candidato interno, por exemplo.

A sensação para o candidato é péssima, porque ele fica sem notícias. Se a pessoa está esperando uma resposta, deve receber: mesmo avisando que ainda não há uma conclusão para aquele processo
Vanessa*, consultora

Além de defender a importância do feedback aos candidatos, Vanessa reforça que existe um jeito certo de fazer isso. Eis aqui um antiexemplo, como ela aprendeu na prática.

Depois de meses em um processo seletivo, recebeu uma ligação da recrutadora às 18h de uma sexta-feira, seu aniversário. A mulher lhe deu parabéns pela data, desejou tudo de bom. E emendou: "Você não passou".

"A resposta era importante, mas o problema foi fazer isso sabendo que era meu aniversário. Tanto que me parabenizou. Havia muita expectativa envolvida nesse processo, eu já havia passado por diversas etapas", avalia. "A maneira como se diz 'não' também importa. Foi um retorno infeliz."

Combine antes, pergunte depois

Segundo Lucas Oggiam, da Page Personnel, uma forma de evitar o silêncio e reduzir a ansiedade no processo de seleção é alinhar previamente com o entrevistador quando e como serão feitos os retornos (telefonema, WhatsApp ou e-mail, por exemplo).

O combinado não sai caro. No começo do processo, o candidato pode perguntar quais as etapas e quando haverá retorno sobre elas. Se depois do prazo combinado não tiver nenhuma resposta, pode cobrar essa informação
Lucas Oggiam, gerente da Page Personnel

Arquivo Pessoal
Quando não recebia retorno, Alessandra cobrava uma resposta das empresas
Alessandra Gomiero, 38, ficou desempregada por cinco meses em 2016. E conta que sempre cobrou retorno nos processos dos quais participou: "Se não respondessem no período combinado, eu ia atrás para saber".

Hoje gerente de operações logísticas na área de treinamento, a psicóloga acredita haver uma relação entre as chances de receber uma resposta e o tipo de cargo pleiteado. "Nos processos para uma posição de gerência, é mais difícil ficar sem informações. Mas em outras situações, quando eu era estagiária ou analista, era comum dizerem que entrariam em contato e não cumprirem", lembra.

Em sua busca no ano passado, conta, ficou sem resposta de apenas uma empresa. Um representante da companhia telefonou, dizendo que seu perfil se encaixava em uma vaga. Ligariam na semana seguinte, para passar mais detalhes sobre o processo, mas até hoje esse contato não aconteceu. "Fui atrás, mas não consegui falar: ele sumiu." 

* O nome foi alterado a pedido da entrevistada.

 

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