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Era gerente, tentou ser vendedor, mas ouviu de entrevistadora: Cargo é meu

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Arquiteto se queixa da falta de retorno nas entrevistas: 'Temos pressa, as empresas não' Imagem: iStock

Juliana Carpanez

Do UOL, em São Paulo

2017-09-10T04:01:00

10/09/2017 04h01

O arquiteto Leandro*, 40, ficou desempregado pela primeira vez em 2013, quando considera que o cenário no Brasil era totalmente diferente. “Havia menos pessoas tão capacitadas disponíveis no mercado, não existia tanta oferta para as empresas escolherem”, resume. Procurou por seis meses e foi contratado pela empresa de revestimento onde trabalhou como gerente de vendas até o primeiro semestre de 2016.

Três anos depois de seu primeiro desemprego, tudo mudou: “Achei que seria difícil, mas não deste jeito”.

Formado e com curso de MBA (Master in Business Administration) quase concluído, ele não consegue recolocação em uma vaga equivalente àquela que ocupava: diz que os concorrentes para este cargo chegam a falar quatro línguas e têm pós-graduação no exterior. Mas, ao encarar uma entrevista para um posto abaixo de seu --vendedor em uma multinacional de materiais para construção--, teve uma surpresa.

“Eles pagavam bem, tinha comissão. A entrevistadora pontuou que eu havia sido gerente e aquela era uma vaga para vendedor. Eu disse estar ciente, mas que topava. E ela respondeu que não, que a vaga de gerente era dela. Que levou seis anos para chegar até ali e eu não pegaria seu lugar”, conta, se lembrando do evento ocorrido há mais de um ano. Houve ainda uma tentativa de conversa, porém logo percebeu que ali não seria contratado.

O impacto da crise e da Lava Jato

O Sindicato de Arquitetos de São Paulo, cidade onde Leandro mora, afirma que o número de demissões quadruplicou desde que começaram a operação Lava Jato e a crise política e econômica no país. A porcentagem --principalmente de consultorias e grandes construtoras-- é baseada no número de homologações (confirmações de término de contratos), mas não se trata de um valor preciso: a maioria dos contratos nesta área são de terceirizados ou PJ (pessoa jurídica).

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Arquiteto conta que entrevistadora se sentiu ameaçada, pois ele já havia ocupado um cargo semelhante ao dela Imagem: iStock
A baixa de créditos imobiliários e as altas taxas de juros também desaqueceram o mercado da construção e afetaram as possibilidades de pequenos serviços residenciais e comerciais.

“Como somos uma categoria formada por mais de 70% de autônomos, fica difícil mensurar o desemprego. Estima-se, no entanto, que aproximadamente 30% dos arquitetos do Estado de São Paulo estejam desempregados ou realizando serviços adjacentes [paralelos] à arquitetura e ao urbanismo”, afirma Maurílio Chiaretti, presidente do sindicato.

"Nós temos pressa e as empresas não"

Enquanto não volta oficialmente ao mercado, Leandro diz ter “colocado o rabinho entre as pernas”. Trabalha como motorista do Uber e de outros aplicativos, vende cosméticos e recentemente virou representante de uma empresa de material de construção (sem nenhum contrato: só ganha aquilo que vender). “Detesto o trabalho de motorista pela insegurança. Você pode ser assaltado, ser morto, nunca sabe quem vai entrar no seu carro. Mas faço quando preciso de dinheiro rápido para pagar algo de R$ 50, R$ 100”, conta.

Também já trabalhou na produtora de um amigo, durante a filmagem de uma propaganda. Carregou muito equipamento, segurou o guarda-chuva para as pessoas não se molharem e, no final, embolsou R$ 500. “Tive de rever tudo, me sujeitei a coisas que nunca imaginei”, afirma ele, segundo quem as vagas para as quais concorre não oferecem nem metade daquilo que ganhava antes. 

No trimestre de maio a julho, a taxa de desemprego caiu graças a essas vagas sem carteira assinada, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): foi de 13,6% no trimestre anterior para 12,8%, ou 13,3 milhões de pessoas. Se comparado com o mesmo período de 2016, no entanto, houve aumento de 12,5% na quantidade de desempregados (1,5 milhão a mais).

Para não desanimar, diz que não para em casa: passa o dia fora com um ou outro "bico". “O problema é a sensação de fazer tudo e não fazer nada ao mesmo tempo”, conta ele, que destaca também a instabilidade. “Não sei se minha filha vai continuar na escola particular, se vou precisar vender meu apartamento, quanto vou tirar no fim do mês. E é comum os entrevistadores não darem retorno, então você fica no aguardo de uma resposta que muitas vezes não vem. Nós temos pressa, as empresas não.” 

* O nome foi trocado para preservar a identidade.

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