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Vídeo: reformas agradam, mas falta de plano e palavrões assustam investidor

Bolsonaro no dia 22 de abril, quando teve reunião cujo vídeo pode vir a público - Marcos Corrêa/Presidência da República
Bolsonaro no dia 22 de abril, quando teve reunião cujo vídeo pode vir a público Imagem: Marcos Corrêa/Presidência da República

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

25/05/2020 16h43

Resumo da notícia

  • Vídeo da reunião ministerial afeta visão de investidor estrangeiro sobre Brasil, dizem economistas
  • Falas a favor de privatização e atração de capital privado são vistas como positivas
  • Mas a falta de estratégias organizadas para implementar planos preocupa mercado
  • Tom autoritário e chulo do presidente também incomoda investidores

A Bolsa de Valores teve forte alta nesta segunda-feira (25) no primeiro pregão após a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril. Segundo economistas ouvidos pelo UOL, a reação dos agentes de mercado mostra que a visão desses investidores não foi alterada pelos novos fatos. Porém, o conteúdo deve pesar nas decisões de investidores estrangeiros que olham o Brasil como opção para colocar dinheiro em projetos de médio e longo prazos.

Por um lado, as falas do ministro da Economia, Paulo Guedes, e de outras autoridades foram bem recebidas por reforçar o compromisso do governo com a plataforma de campanha voltada para atrair capital privado, reduzir gastos públicos e o tamanho do Estado na economia. Por outro lado, o tom chulo e autoritário do presidente, juntamente com a forma desorganizada com que os projetos foram expostos, deixam dúvidas sobre a capacidade de esse governo avançar nos planos.

Essa é a visão, por exemplo, do economista Celso Grisi, professor e pesquisador da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP).

Entre os mais conservadores, a manifestação do presidente pela vontade de avançar com as reformas e em direção à recuperação da economia, do nível de emprego, deve gerar um aumento na confiança no seu governo.
Celso Grisi, economista da FEA-USP

Por outro lado, diz ele, o vocabulário deve ser recebido como vulgaridade nada apreciada no primeiro mundo, onde está o dinheiro.

O tom autocrático nas advertências também não inspira sentimentos de admiração em sociedades mais cultas.
Celso Grisi, economista da FEA-USP

Falta de coordenação e vocabulário incomodam

Para investidores estrangeiros de perfil de mais longo prazo, a reunião revelou a ausência de um plano concreto, com começo, meio e fim, para a implementação dos projetos, dizem os economistas ouvidos pela reportagem.

Na visão do economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor-doutor e diretor da Faculdade de Economia, Administração, Contábeis e Atuariais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), a visão do investidor de longo prazo pode, sim, ser influenciada negativamente pelo que se viu na reunião.

Para além das ilegalidades cometidas e de palavreado chulo e de baixo calão, a imagem passada é de uma enorme falta de coordenação e de governança. Não só no âmbito do governo federal, mas junto aos entes subnacionais e demais poderes. O Brasil é foco da pandemia, mas o tema não foi tratado. Não se discutiu estratégia.
Antônio Corrêa de Lacerda, economista da PUC/SP

Segundo Corrêa de Lacerda, esses fatores representam riscos para os investidores, uma vez que a retomada da economia depende de uma boa gestão no enfrentamento da pandemia.

Compromisso com privatizações anima

De qualquer forma, dizem economistas, os temas defendidos pelo governo naquela reunião —ainda que de forma desorganizada— são considerados importantes para a decisão do investidor estrangeiro na hora de escolher um lugar para colocar dinheiro. São os casos do compromisso com as privatizações, direcionamento de recursos para empresas e simplificação da legislação ambiental.

Esses temas, do ponto de vista de quem acredita em uma economia liberal, pareceram-me bastante positivos.
Rodrigo De Losso, economista da FEA/USP

"Quando o ministro Paulo Guedes menciona que não é dinheiro público a fonte primária de recursos para a retomada do crescimento, isso claramente sinaliza o compromisso do governo com a política econômica que vem sendo feita, em busca de mais eficiência", afirmou o economista Ph.D. em economia pela University of Chicago e professor titular da FEA/USP.

Tom belicoso atrapalha relação entre poderes

Segundo De Losso, há problemas na forma com que os planos foram expostos. Em especial, por exemplo, a forma com que a simplificação da legislação ambiental foi defendida. "Um jeito questionável, creio eu", disse De Losso.

O problema do discurso belicoso do presidente, dizem economistas, é que esse é o tipo de tom que alimenta mais oposição e atrapalha a construção de um consenso.

Há motivos para preocupação à medida que se revela um plano de governo e alimenta-se a oposição às iniciativas. Isso só pode ser neutralizado se os agentes acreditarem nas intenções do governo.
Rodrigo De Losso, economista da FEA/USP

"O discurso por si só não vai atrair capital. Isso depende de medidas concretas que não foram tomadas e que dependem dos demais poderes, em grande parte", afirmou o economista Celso Grisi.

Economia