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'100% combinado', diz ministro sobre entrevista em que Guedes foi retirado

Do UOL, em São Paulo

29/09/2020 11h38

O ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD-RN), afirmou hoje que o episódio em que Paulo Guedes foi retirado de uma entrevista coletiva, na semana passada, "foi 100% combinado". Na ocasião, o ministro da Economia foi pressionado por Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, e pelo general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, a encerrar uma entrevista quando jornalistas começaram a questioná-lo.

"Houve uma polêmica, porque depois que o Guedes falou, chamaram para as perguntas, e ele falou 'agora tem articulação política'", disse Faria em entrevista ao UOL conduzida pelos colunistas Carla Araújo e Mauricio Stycer.

Em imagens da CNN Brasil, Guedes aparece durante todo o tempo que falou com a imprensa acompanhado de perto pelos dois, que ficaram um de cada lado do ministro. Nos últimos momentos da fala, é possível observar o incômodo de Ramos e Barros com a continuidade da entrevista.

Barros é visto falando "tá bom" algumas vezes e depois repete por várias vezes "vamos lá" enquanto caminha com Guedes para longe dos microfones. Já Ramos coloca a mão no ombro do ministro para retirá-lo do local.

Nova estratégia de comunicação

Farias afirmou que essa é uma nova estratégia de comunicação do governo, de não permitir perguntas por parte da imprensa em entrevistas coletivas e também após reuniões importantes. O modelo também já foi adotado ontem, quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou a intenção de criar o Renda Cidadã, programa social que substituiria o Bolsa Família.

"Ontem fiz questão de mostrarmos aquele encerramento, porque, quando terminavam as reuniões, começavam os offs. Reunião com cinco pessoas são seis, cinco offs. Offs são informações que nem sempre são em on para a imprensa, que muitas vezes desvirtua o tema", disse Faria, já citando o anúncio de ontem, que terminou sem perguntas da imprensa.

No jargão jornalístico, "off" é uma informação apurada por jornalistas com fontes que preferem não ser identificadas na reportagem.

Apesar de o novo formato de comunicação não permitir questionamentos dos veículos, Faria disse que essa é uma forma "muito mais transparente" de lidar com a imprensa. "Quando abre para perguntas e respostas fica algo incontrolável, fica difícil quando tem muita gente", disse o ministro.

Faria disse acreditar que a própria imprensa pode se confundir com informações passadas durante as perguntas, ainda que as informações sejam divulgadas oficialmente por membros do próprio governo.

"É ruim para o país, para o governo e para a população quando, após uma reunião, saem várias informações desencontradas. Isso prejudica muito, o mercado não sabe quem está falando a verdade. E o jornalista muitas vezes está vendido, porque às vezes ele cai numa possível pegadinha da fonte. A fonte quer dar uma informação que não é verídica e aquilo acaba virando lide", comentou o ministro.

Mudança ocorreu após declarações de secretário de Guedes

A nova estratégia de comunicação foi adotada nas últimas semanas, após membros da equipe econômica darem entrevistas à imprensa detalhando medidas estudadas pelo governo para financiar o programa social que substituirá o Bolsa Família.

O secretário executivo de Fazenda, Waldery Rodrigues, por exemplo, disse ao G1 que o governo estudava congelar aposentadorias e pensões. Com a repercussão negativa da entrevista, o presidente Bolsonaro se irritou e foi a público para desautorizar o secretário e dizer que estava "proibido" citar o Renda Brasil, como se chamaria o programa repaginado.

No dia seguinte, porém, o relator do Orçamento, senador Márcio Bittar, afirmou que Bolsonaro o autorizou a incluir no seu relatório a criação do novo programa social.

Ontem, Bolsonaro, Bittar, membros do governo e líderes partidários anunciaram a criação do Renda Cidadã, usando recursos do Fundeb e de precatórios. O anúncio foi mal visto pelo mercado financeiro, que enxergou na medida uma tentativa de pedalada e de driblar o teto de gastos.