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Gás está caro, mas pesa menos no salário mínimo do que há 20 anos

Preço do gás de cozinha aumentou quase 14% entre janeiro e junho de 2021 - Caetano Barreira/Reuter
Preço do gás de cozinha aumentou quase 14% entre janeiro e junho de 2021 Imagem: Caetano Barreira/Reuter

Isaac de Oliveira

Do UOL, em São Paulo

08/07/2021 04h00

A alta do gás de cozinha (GLP) virou mais um item na lista de preocupações dos brasileiros em 2021. De janeiro a junho, o preço médio do botijão de 13 quilos já avançou 13,75%, levando famílias a usar lenha para cozinhar. Ainda assim, o atual nível de preço do combustível é menor do que o de 20 anos atrás, quando se compara com o salário mínimo.

Em dezembro de 2001, o GLP custava em média R$ 18,69, o que equivale a 10,38% dos R$ 180 de salário mínimo da época. Vinte anos depois, esse percentual equivale atualmente a 7,95%, com o GLP a R$ 87,43 (média de junho) e o salário mínimo a R$ 1.100.

Os dados dessa comparação constam da série de preços de GLP ao consumidor, consolidados pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). São valores médios, e há variações para cima e para baixo conforme as regiões.

Em 2002, o gás de cozinha comprometia quase 13% do salário mínimo daquele ano, o maior valor verificado no período analisado.

O percentual mais baixo é o de 2015, quando o GLP a R$ 45,92 equivalia a 5,83% do salário mínimo vigente (R$ 788).

Veja os detalhes da evolução de preços nos gráficos abaixo.

Custo do botijão -  -

Evolução do preço do gás de cozinha -  -

Preço de 2001 corrigido pela inflação seria de R$ 60

A análise não considera a inflação, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Entre dezembro de 2001 e maio deste ano, o indicador registra alta de 218,7%, segundo o IBGE.

Desse modo, os R$ 18,69 necessários para comprar um botijão de gás no final de 2001 equivaleriam hoje a R$ 59,56 - cerca de 32% a menos que os atuais R$ 87,43.

Mas há que se considerar que o preço do gás de cozinha não varia apenas com a inflação, uma vez que a composição do preço repassado ao consumidor inclui também tributos estaduais (ICMS) e federais (PIS/PASEP e Cofins).

Veja como é a composição do preço do GLP:

  • Remuneração da Petrobras: 50.6%
  • Distribuição e Revenda: 35%
  • ICMS: 14,4%
  • PIS/PASEP e Cofins: 0%

Disparada do gás de cozinha em 2021

Se os brasileiros tiveram um pequeno alívio no bolso no primeiro semestre do ano passado, com a ligeira queda de 0,23% no preço do gás de cozinha, o sentimento neste ano é de preocupação. Isso porque, entre janeiro e junho, o preço médio do botijão de 13 quilos já aumentou 13,75%.

Se considerar algumas regiões isoladamente, o cenário é ainda mais grave. No Centro-Oeste, por exemplo, o produto chegou a ser encontrado por R$ 130 no final do mês passado.

Em Cuiabá (MT), onde os termômetros chegaram a marcar 7 ºC em 30 de junho, algumas famílias já usavam lenha para esquentar água e tomar banho.

Veja como variou o preço médio do gás de cozinha entre 2020 e 2021:

  • Janeiro de 2020: R$ 69,74
  • Junho de 2020: R$ 69,58
  • Dezembro de 2020: R$ 74,75
  • Janeiro de 2021: R$ 76,86
  • Junho de 2021: R$ 87,43

R$ 87 ainda é caro para os brasileiros

Entre 2001 e 2021, o salário mínimo avançou 511%. Esse aumento melhorou as condições de vida dos brasileiros, embora ainda esteja muito abaixo do que algumas instituições calculam como necessário.

De acordo com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ter sido de R$ 5.421,84 em junho. Esse valor é 4,93 vezes o valor atual (R$ 1.100).

Salário mínimo teve melhora significativa, diz professor

"O salário mínimo teve correções e uma melhoria significativa em termos nominais nestes últimos anos. Mas é importante destacar que em qualquer família que depende de um salário mínimo, o gás a quase R$ 90 não é pouco", afirma Walter Franco, professor de Economia do Ibmec-SP.

Embora o percentual que o combustível tome do salário mínimo seja menor que o de 20 atrás, o economista diz que as condições de vida das famílias são delicadas, principalmente na pandemia de covid-19.

"Em um momento de desemprego, nem todo mundo ganha R$ 1.100. Além disso, com as pessoas dentro de casa, o consumo do botijão ficou mais pressionado. Antes, as pessoas estavam trabalhando, tinham alimentação na empresa, e hoje não têm", diz Franco.

Com isso, a ida ao fogão tem sido mais frequente, o que pressiona a demanda pelo produto, afirma o professor do Ibmec. Nos casos de famílias mais numerosas, a durabilidade do combustível acaba diminuindo também, por conta dessa situação.

"O GLP não é um item de luxo, mas nas classes menos favorecidas ele chega a ser inacessível em alguns momentos, em função do seu preço. Muitas famílias, se forem escolher entre o alimento e o botijão, vão optar pelo alimento, e cozinhar de outra maneira, por exemplo com lenha"
Walter Franco, professor de Economia do Ibmec-SP.