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Bactérias ajudam milho a 'sentir' menos calor e a resistir mais sem água

Pesquisa tenta aumentar resistência do milho ao calor - Divulgação/Jaderson Armanhi
Pesquisa tenta aumentar resistência do milho ao calor Imagem: Divulgação/Jaderson Armanhi

Viviane Taguchi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

30/10/2021 04h00

Cientistas do Centro de Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC), Embrapa e Universidade de Campinas (Unicamp) descobriram que alguns microrganismos, como bactérias, fungos e arqueas (um tipo de ser unicelular semelhante à bactérias, mas distintos bioquimicamente), são capazes de reduzir em até 4°C a temperatura de plantas expostas ao forte calor.

A pesquisa, inédita, foi publicada na revista científica Frontiers in Microbiology e pode, no futuro, evitar que secas severas, como a que ocorreu na safra 2020/2021 e prejudicou a produção nacional de milho, causem tantos estragos no campo.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram pés de milho acoplados a sensores e uma plataforma de coleta de dados em tempo real. Com isso, foi possível observar que esses microrganismos ajudaram a planta a controlar o seu fluxo hídrico, nas folhas, e aumentam suas chances de sobreviver em condições de seca extrema.

De acordo com Jaderson Armanhi, pesquisador do GCCRC, com esse sistema, foi possível entender como esses microrganismos, vivendo em comunidade, afetavam o dia-a-dia da planta.

Até então, segundo Armanhi, nenhum estudo havia conseguido monitorar as plantas de forma ininterrupta. Agora, eles conseguiram o feito porque construíram a plataforma de sensores capazes de medir temperatura, fluxo de água, fotossíntese e outros parâmetros da planta e do ambiente em tempo real.

"Usamos múltiplos sensores não invasivos acoplados às plantas, sensores ambientais e câmeras fotográficas", contou Armanhi.

A pesquisa usou dois grupos de plantas de milho, um com inoculação de microrganismos previamente selecionados e outro grupo, sem nada. Os dois grupos foram monitorados por quatro meses sem interrupção e, no final, foi constatado que o grupo com microrganismos teve a sua temperatura foliar reduzida em 4°C.

"Isso porque as plantas inoculadas conseguiram otimizar o fluxo hídrico e a transpiração das folhas", explicou.

De acordo com o cientista Paulo Arruda, da Unicamp, o aquecimento excessivo [como no caso da estiagem] leva a planta a disfunções de suas proteínas e moléculas, prejudicando seu crescimento. "Os microrganismos funcionam como antitérmico de planta", disse.

Arruda detalhou, também, que os dois grupos de plantas tiveram produtividades semelhantes em condições de irrigação, mas quando foram expostas à estiagem, as plantas 'refrescadas' produziram três vezes mais. "No caso de uma seca extrema, microrganismos podem ser um seguro para a planta".

No primeiro semestre deste ano, a estiagem que atingiu o país prejudicou fortemente a produção de milho no Brasil. A projeção inicial da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra de milho era de 87,7 milhões de toneladas, mas a seca prejudicou as lavouras e reduziu em 15,5% a produção.

Para suprir a demanda do mercado interno, o Brasil precisou importar, até outubro, 1,4 milhão de toneladas, principalmente da Argentina.

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