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CEOs e fundadores de grandes empresas analisam seu setor e o país


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'Ser empreendedor no país é tomar porrada de todo lado', diz CEO da Shopper

Editoria de Arte/Divulgação
Imagem: Editoria de Arte/Divulgação

Beth Matias

Colaboração para o UOL, em São Paulo

04/07/2022 14h40

Fabio Rodas, CEO da Shopper, supermercado 100% online, diz em entrevista exclusiva na série UOL Líderes que ser empreendedor no Brasil é tomar "porrada" de todos os lados. "É aguentar as porradas e continuar. É ter muita resiliência".

Segundo o cofundador da empresa, empreender é difícil em qualquer país, mas no Brasil "temos uma dificuldade extra (uma fonte extra de porradas) que é a complexidade das regras tributárias", porque elas consomem boa parte da receita das empresas apenas para calcular quanto de impostos devem pagar.

Criada em 2015, a Shopper cresce em média 200% ao ano, emprega mais de 1.600 pessoas e atua, por enquanto, apenas no estado de São Paulo.

Rodas acredita que os aplicativos de entrega são apenas modelos de terceirização e não de inovação, e que, nos últimos anos, essas empresas receberam muito capital e não repassaram os custos de entrega aos consumidores.

"Nos últimos meses, aconteceu o estouro de uma bolha no mundo das startups de tecnologia, e esse capital fácil e barato não está mais disponível. Nos próximos anos, a conta desses aplicativos terá de fechar, e é provável que estes custos sejam repassados ao cliente", diz o CEO.

Superando dias difíceis

Ouça a íntegra da entrevista com Fabio Rodas, CEO da Shopper, no podcast UOL Líderes. Você também pode assistir à entrevista em vídeo no canal do UOL no YouTube.

Leia a seguir trechos da entrevista:

Pancada de todo lado

UOL - O que é ser empreendedor no Brasil?

Fábio Rodas - É difícil. É tomar porrada de todo lado e continuar. Você tem mais chances de sucesso se tiver um bom sócio ao seu lado. É tanta porrada que, em alguns momentos, o seu entusiasmo vai embora e você pensa que não vale a pena.

Aumenta muito a chance de sucesso se tiver um bom sócio que te puxa nos momentos difíceis. E eles virão, não adianta. A maioria dos dias são difíceis e não são tão legais.

E de onde vêm essas porradas? Quem dá essas porradas?

As porradas vêm de todo lugar. A resiliência é uma das características necessárias para empreendedores de sucesso, independente do país.

Mas, no Brasil, temos uma dificuldade extra (uma fonte extra de porradas) que é a complexidade das regras tributárias, principalmente para empresas no lucro real (caso de quase todos os supermercados), que gastam boa parte da sua receita apenas para calcular impostos.

Como mudar tributos para facilitar a vida dos empreendedores?

O problema é a dificuldade de saber quanto é preciso pagar. Para garantir que não estamos cobrando errado, contratamos auditores e outras empresas, com consultoria e auditoria em tempo integral.

Se pagássemos a mesma quantidade de imposto, mas de uma forma simplificada, essas pessoas poderiam fazer outras coisas na empresa, o custo seria reduzido e entregaríamos um serviço ainda melhor.

Como nossos pais

UOL - De onde veio a ideia de criar um supermercado digital em 2015?

Fábio Rodas - No final de 2014, eu e minha sócia Bruna Vaz começamos a olhar para o setor supermercadista. Algo nos incomodava no fato de que nada tinha evoluído de forma significativa em gerações. Compramos de uma forma muito parecida com a que os nossos pais e avós compravam.

Todo mundo naquela época tinha um celular no bolso, a transformação digital era uma realidade para diversos setores, mas não no nosso.

Entre os vários problemas que vimos, um deles era a compra reativa. O consumidor esperava o item acabar para depois comprar. A compra não era antecipada para garantir um bom preço. Mas, com tecnologia, é possível antecipar com itens básicos que você vai consumir a vida inteira, como sabonete, produtos de limpeza.

E como vocês fizeram isso?

Movimentação é custo. Você pega um sabonete e movimenta do ponto A para o ponto B, depois C ou D. Quanto mais movimentações, mais custos. O produto é o mesmo, mas ficou mais caro.

Encurtamos essa cadeia, eliminando algumas movimentações, comprando direto da indústria.

E como manter o preço com inflação alta?

A nossa proposta de valor, com a compra programada, fica ainda maior no cenário atual. Temos preços de 10% a 12% menores do que os outros supermercados online e tentamos negociar o máximo possível com nossos fornecedores para atrasar os aumentos.

Aplicativos de entrega não são inovação

UOL - Ainda há espaço para inovar?

Fábio Rodas - Há muito espaço. Os supermercados que conhecemos hoje são da década de 50. Pouquíssimas coisas mudaram.

Mas o que tem acontecido é uma terceirização, e não inovação. A solução atual é pedir por aplicativo. Não é a mais eficiente e inteligente. Parte dessas aparentes inovações que surgiram são terceirizações da mesma atividade.

A solução é fazer um aqueduto, depois o encanamento — com a água saindo pela torneira. A grande inovação é tirar os espaços intermediários. O produto sai da indústria para o centro de distribuição e de lá para a casa do consumidor.

Qual o problema dos aplicativos? O modelo não se sustenta?

Não, porque todos os custos que existem para colocar o produto na gôndola continuam lá. E daí vem uma terceira empresa, os aplicativos de entrega, que também têm um custo.

Nos últimos meses, o que aconteceu foi o estouro de uma bolha no mundo das startups de tecnologia. Esse capital fácil e barato não está mais disponível.

Shopper - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Concorrentes devem jogar limpo

UOL - Como vocês lidam com a concorrência dos grandes players do mercado varejista?

Fabio Rodas - Quando os concorrentes são justos, pagam seus impostos e jogam um jogo limpo, eles nos fazem aprender e correr atrás.

Penso que há um desafio operacional para qualquer empresa que queira entrar no setor supermercadista. Tudo o que usamos de tecnologia na Shopper foi desenvolvido internamente. O site e o aplicativo são a ponta do iceberg; debaixo daquilo tem todo um arcabouço tecnológico que demora anos para construir.

As empresas geralmente colocam um sistema pronto. Sempre partimos da necessidade do cliente. Desenhamos o processo, depois sistematizamos.

Você diz que a compra programada barra os impulsos e gera economia para o cliente, mas o objetivo da empresa não é vender mais?

Se você perguntar para um gerente de supermercado qual é o objetivo dele, vai dizer que é vender mais. Ele não está muito preocupado em saber se o vender mais é bom para o cliente.

Vamos no oposto. Aquela coisa de leve 4 e pague 2, nós não temos. Você compra o quanto precisa. Quer comprar o pacote? O preço é o mesmo do unitário porque não queremos desperdício. Quando o cliente não usa o produto, vai perceber que está sendo manipulado.

As empresas querem maximizar a receita e esquecem que o chefe é o cliente. Se ele for desencantado, gasta o dinheiro em outra empresa. Ele demite qualquer um na empresa simplesmente gastando o dinheiro em outro lugar.

Entrega por aplicativos é polêmica

UOL - As condições de trabalho para os entregadores não deveriam ser melhores?

Fabio Rodas - Nós temos um modelo diferente dos aplicativos de entrega. Trabalhamos com micro transportadoras. São pessoas que têm um ou mais veículos, geralmente caminhõezinhos de pequeno porte.

Essas pessoas sempre fazem a entrega em dupla e têm uma demanda de trabalho garantida pela programação mensal.

Mas a questão da entrega por aplicativos é polêmica. É um assunto que está sendo debatido em outros países e que terá de ser debatido no Brasil em algum momento porque a qualidade [de trabalho] dos entregadores, sabemos, que está longe do ideal.

Neste formato de entrega, qual é a preocupação com a qualidade de trabalho dos entregadores?

As condições de trabalho são totalmente diferentes quando comparadas às dos entregadores de moto ou bicicleta dos aplicativos. Tanto nosso entregador quanto o ajudante estão em um veículo fechado, têm capa de chuva, carrinho para fazer entrega e demanda garantida.

A relação não é entre o usuário e ele. É entre a Shopper e o micro transportador. Nós é que contratamos, treinamos e garantimos as condições necessárias para que essa pessoa preste um bom serviço.

Diferente do que acontece com o aplicativo de entrega, que deixa o pedido pronto ali na portaria, em 80% dos casos os nossos parceiros vão dentro da casa das pessoas. Eles são o nosso ponto de contato com o cliente final.

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