IPCA
0.11 Ago.2019
Topo

Mercado questiona capacidade do Fed de defender economia e estimular inflação

22/08/2019 17h02

Por Trevor Hunnicutt

JACKSON HOLE, EUA (Reuters) - O Federal Reserve queria duas coisas quando no mês passado cortou os juros pela primeira vez em uma década: apoiar a economia e estimular as expectativas de inflação.

Do ponto de vista do mercado, nenhum desses objetivos parece estar indo muito bem. As condições do mercado ficaram mais restritas e os dados apontam para uma inflação mais baixa.

Os formuladores de política monetária do Fed, economistas e outras autoridades se reúnem nesta semana em Jackson Hole, Wyoming, tendo um pano de fundo bucólico para uma difícil discussão sobre se os bancos centrais podem adiar a próxima recessão.

Cortes nas taxas de juros podem levar meses para estimular o crescimento. Ainda assim, o compromisso verbal dos formuladores de política de sustentar a mais longa expansão econômica já registrada nos EUA, apoiada pelo recente corte de juros, provavelmente barateou os custos de empréstimos para empresas e os consumidores neste ano.

O que ainda não está claro é se os cortes de juros podem acalmar os receios de recessão dos mercados, que aumentaram em meio à recente escalada da guerra comercial EUA-China, e convencer investidores de que a meta de inflação é viável.

"Há uma percepção não declarada de pelo menos a maioria dos participantes do mercado de que os cortes de juros --ou mesmo se o Fed decidir embarcar em QE ('quantitative easing')-- não serão uma força compensatória adequada às tarifas", disse Kristina Hooper, estrategista-chefe de mercados globais da Invesco.

O QE ou afrouxamento quantitativo se refere a compras de títulos pelo Fed para apoiar a economia, conforme feito pelo BC após a crise financeira global de 2008.

"Minha maior preocupação é a eficácia dos cortes de juros ou das taxas mais baixas", disse Jason Brady, presidente-executivo da Thornburg Investment Management. "O Fed tem um cenário econômico muito variável, que é menos favorável à inflação de 2% ou a um grande crescimento real."

PREOCUPAÇÕES COM INFLAÇÃO

    O Fed também espera que um corte dos juros ajude a cumprir a meta de inflação de 2%, mas que tem ficado abaixo desse patamar.

Em recentes reuniões de política monetária, algumas autoridades do Fed têm demonstrado receios de que as pessoas possam estar começando a pensar que a inflação está caindo, o que, em tese, poderia estagnar os preços.

A inflação fraca poderia conter o crescimento salarial e os gastos e também forçar a queda das taxas de juros para zero. Isso deixaria as autoridades com poucas ferramentas para estimular crescimento e restaurar a economia durante a próxima desaceleração.

O presidente do Fed da Filadélfia, Patrick Harker, disse a repórteres no começo do ano que, se a inflação ficar abaixo de 2% "por um longo tempo e continuar caindo, provavelmente as expectativas também vão cair". Mas ele afirmou também que a relação exata entre essas expectativas e inflação futura não é totalmente compreendida. "Existem muitas teorias diferentes. Nós realmente não sabemos."

A inflação média esperada para cinco anos iniciados em 2024 caiu para uma mínima em dois anos, de 1,71%, após o recente corte de juros pelo Fed, de acordo com uma medida baseada em preços de mercado.

Investidores avessos ao risco compraram tantos Treasuries de 30 anos nos últimos dias que empurraram os rendimentos para uma mínima recorde de 1,916%.

"O que o mercado está precificando em termos de expectativa de inflação futura é simplesmente baixo demais", disse Leslie Falconio, estrategista sênior da UBS Global Wealth Management. "Você verá uma mudança maior no sentido de aumento da inflação por causa de tarifas e de mais flexibilização do Fed."

"Há confiança no mercado de que o Fomc continuará a baixar os juros e oferecer uma política monetária acomodatícia, mas não há convicção de que isso levará a uma pressão inflacionária real", disseram analistas da BMO Capital Markets em recente nota.

((Tradução Redação São Paulo, 55 11 56447757)) REUTERS JCG IV

Mais Economia