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Com dívida de R$ 2 bi, Itapemirim é autorizada a vender passagens e voar

Itapemirim concluiu todas as etapas de certificação e recebe a autorização para começar a voar - Divulgação/Itapemirim
Itapemirim concluiu todas as etapas de certificação e recebe a autorização para começar a voar Imagem: Divulgação/Itapemirim

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

20/05/2021 18h41

A Itapemirim, companhia aérea pertencente ao grupo de mesmo nome, foi autorizada a iniciar suas operações ao público, e deve iniciar a venda de passagens nos próximos dias. A outorga, que é a última etapa da certificação para a empresa voar, foi concedida após reunião da diretoria da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) realizada nesta quinta-feira (20).

É o fim de um ciclo de pouco mais de um ano desde o anúncio da criação da empresa até o começo das operações. Com a autorização aprovada hoje, Itapemirim poderá explorar a aviação regular e não regular de passageiros e de carga, tanto em rotas domésticas quanto internacionais. A medida deve ser publicada no Diário Oficial da União nos próximos dias.

O site da empresa foi atualizado com um uma contagem regressiva para o início da venda de passagens, que está programado para ocorrer a partir desta sexta-feira (21), segundo a companhia. Anteriormente, a Itapemirim havia anunciado que a venda dos bilhetes começaria no dia 14 de maio, mas, sem a outorga da Anac, isso não foi possível.

Primeiro voo será em junho

A empresa tem seu primeiro voo programado para ocorrer no dia 30 de junho. Na estreia, voará para os seguintes destinos:

  • Belo Horizonte (Aeroporto de Confins)
  • Brasília (DF)
  • Curitiba (PR)
  • Porto Alegre (RS)
  • Porto Seguro (BA)
  • Rio de Janeiro (Aeroporto do Galeão)
  • Salvador (BA)
  • São Paulo (Aeroporto de Guarulhos - Cumbica)

A partir de agosto, deverá passar a atender, também, as cidades de Florianópolis (SC), Fortaleza (CE), Maceió (AL), Natal (RN) e Recife (PE). Até junho de 2022, a empresa quer chegar a 35 destinos e ter 40 aviões modelo Airbus A320 e 10 aviões A319, um pouco menor.

Hoje, a Itapemirim tem dois A320 configurados para transportar até 162 passageiros, e pretende chegar a 10 até o início das operações, em junho. Esse número de assentos disponíveis é inferior ao de outras empresas concorrentes que voam o mesmo modelo, com capacidade para até 185 pessoas.

Outra movimentação da empresa que segue um caminho diferente das concorrentes é o despacho gratuito de bagagens. Segundo o presidente do grupo, na classe econômica dos voos não haverá cobrança da primeira bagagem de até 23 quilos. Já na ITA Class, será possível levar até duas bagagens grátis.

A Itapemirim ainda tem como meta integrar seus voos com as rotas rodoviárias do grupo, que estão presentes em 2,7 mil cidades. O objetivo é que, em um site único, o passageiro possa comprar um bilhete único para viajar de ônibus e avião, ou só de uma das modalidades.

Itapemirim já teve aérea de carga

Na década de 1990, a Itapemirim teve uma companhia aérea própria, que deixou de existir no início dos anos 2000. Operava prioritariamente aviões de carga, setor que já explorava na modalidade rodoviária. Passageiros eram transportados em aviões Cessna Grand Caravan, com capacidade máxima de nove lugares.

Em 2017, a Itapemirim anunciou a compra da Passaredo, que passava por um processo de recuperação há anos. Em agosto daquele ano, porém, a Justiça decretou o fim da recuperação judicial da Passaredo, e a empresa voltou atrás na negociação com a Itapemirim. Segundo a aérea, a companhia de transporte rodoviário descumpriu condições estabelecidas em contrato, o que teria feito o negócio não evoluir.

Recuperação judicial e dívidas

A decisão de criar uma aérea também causou incômodo e desconfiança no mercado, porque o grupo Itapemirim está em recuperação judicial. O grupo, que controla a companhia aérea, deve mais de R$ 2 bilhões só em impostos, segundo relatório da administradora judicial responsável pelo processo, a EXM Partners, ao qual o UOL obteve acesso. Além disso, devia R$ 167 milhões a credores em fevereiro.

Apesar das dívidas, a empresa gastou mais de R$ 29,6 milhões entre setembro de 2020 e março de 2021, com a criação da nova companhia aérea, ainda de acordo com a administradora judicial. Um valor semelhante (R$ 27,7 milhões) já foi pago aos credores até fevereiro, informou a Itapemirim.

No ano de 2020, em ação questionando o ingresso da Itapemirim no mercado de aviação, a Justiça decidiu que a empresa tem liberdade para conduzir seus negócios, desde que respeite a recuperação judicial.

A Itapemirim afirma que está cumprindo regularmente seu plano de recuperação e prevê que a Justiça poderá encerrá-lo ainda em maio, quando um juiz irá avaliar o caso. Além disso, diz que tem em torno de R$ 400 milhões em imóveis e outros ativos, que podem ser empenhados em caso de descumprimento de determinações judiciais.

Em fevereiro de 2020, o presidente do grupo anunciou um aporte de US$ 500 milhões de um fundo dos Emirados Árabes Unidos. Até hoje, porém, não foi confirmado se esse dinheiro chegou à empresa, já que os termos do acordo são confidenciais.