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Rock in Rio é caso empreendedor de sucesso brasileiro

Rose Mary Lopes

Rose Mary Lopes

Colunista do UOL

Que o brasileiro gosta de música, de festa, de entretenimento, acho que quase ninguém duvida. Aliás, estas vocações são e devem ser melhor exploradas por empreendedores brasileiros. Tem muita afinidade com nosso modo de ser e de nos portar no mundo.

Que o brasileiro não inventou o rock, todo mundo sabe. Mas posso apostar que poucos jovens saberiam dizer o nome do empreendedor brasileiro que ousou criar o Rock in Rio, um festival de música que desde sua primeira edição não se restringiu ao rock.

Hoje, 30 anos depois da primeira edição em 1985, no mundo da internet, da comunicação online, de televisão por satélite, de vídeo streaming, parece tudo mais fácil, milhões de pessoas podem seguir os festivais por meios digitais. Além dos milhares que o frequentam ao vivo.

Podem adquirir seus ingressos em site. Podem se associar ao clube Rock In Rio e obter benefícios, por exemplo, de adquirir antecipadamente os ingressos para os shows mais desejados e concorridos.

Realmente é muito difícil para a galerinha atual avaliar o quanto foi audacioso e difícil para Roberto Medina criar o primeiro Rock in Rio. Num Brasil que saía de uma ditadura. Um país fechado, com economia pequena. Com dificuldades incríveis de comunicação por telefone.

Imagine o que deve ter sido complicado descobrir com quem conversar e negociar para trazer ao Brasil as bandas e artistas que se apresentaram naquela edição. Enormes barreiras tiveram que ser superadas. Os artistas e as bandas desconheciam o país.

Mais do que isto, não tínhamos infraestrutura para grandes shows e, nas raras vezes em que bandas foram trazidas ao país, os resultados mancharam nossa reputação. As bandas The Police e Van Halen não receberam pelos shows que fizeram aqui em 1982 e 1983, respectivamente.

Suplantar as barreiras só foi possível devido à capacidade de convencimento do próprio Medina e porque podia provar que trouxera Frank Sinatra, em 1980, para um show que foi marcante na vida do próprio Sinatra. E, que entrou no livro Guiness de recordes: mais de 170 mil pessoas lotaram o Maracanã.

Graças a esse trunfo, ficou um pouquinho melhor para Medina conseguir ser ouvido e conversar com Iron Maiden, Queen e muitas outras atrações internacionais, pois o próprio empresário do Sinatra, o Lee Solters fez as pontes. Mas, até o último momento, mesmo após negociações acertadas e presenças confirmadas, houve cancelamentos de grupos como The Pretenders e Men at Work.

E, se as coisas não foram fáceis no flanco externo, nem por isto, no flanco interno elas deixaram de ser complicadas e estressantes. Montar uma estrutura numa área de Jacarepaguá conhecida como Ilha Pura, uma área que foi elevada em 1,5 metros graças a 77 mil caminhões de terra para a construção da cidade do Rock.

Uma tarefa quase tão hercúlea quanto contornar as idiossincrasias do governador Leonel Brizola que quase veta o evento porque a agência de comunicação de Medina tinha trabalhado para a campanha política de Moreira Franco. Brizola cedeu mediante a intervenção/imposição de Tancredo Neves.

Na época a venda dos bilhetes, mesmo sendo baratos, não despertou o furor de hoje. Devido ao empobrecimento da população e à descrença de que um festival com este porte pudesse ser realizado. E, para aqueles que compraram ingressos e pretendiam viajar de carro de outras cidades e estados distantes, não havia combustível disponível nos postos das estradas nos finais de semana!

Emplacar a segunda edição também foi árdua tarefa: Medina sofreu um sequestro em 1990, o país teve o Plano Collor com confisco e drástica redução do dinheiro em circulação e a cidade do Rock tinha sido demolida por ordem do mesmo Leonel Brizola. Assim, só em 1991, e no Maracanã é que foi feita a segunda edição, com 700 mil pessoas.

Hoje, assistimos à 16ª edição deste festival que é dos maiores do mundo, e somente perde para o Tomorrowland. Rock in Rio se tornou uma marca valiosíssima e internacional. Outras cidades já receberam o festival - Lisboa, Madrid (onde a responsabilidade é da filha Roberta Medina) e, em maio deste ano, fincou sua marca na capital do entretenimento Las Vegas.

Estabelecendo uma parceria internacional com MGM Resorts International, Cirque du Soleil e as companhias Yucaipa de Ron Burkle que construíram a cidade do Rock numa área de 33 acres, estimada em US$ 75 milhões. Já fecharam acordo para realização do festival lá até 2019.

A organização local é da empresa sócia (em 50%) - a SFX Entertainment - fundada por Robert F.X. Sillerman, responsável por eventos e festivais musicais como Voodoo Experience, Stereosonic, Electric Zoo e Tomorrowland.

Portanto, já está na hora de enfatizar, sobretudo para os nossos jovens que desejam empreender, de que temos sim modelos de empreendedores de muito sucesso, cujos feitos transbordaram as fronteiras do país.

Rose Mary Lopes

Professora e coordenadora do núcleo de empreendedorismo da ESPM.

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