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Reinaldo Polito

Alguns políticos contam com a amnésia dos eleitores

Lula e Alckmin  - ALOISIO MAURICIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Lula e Alckmin Imagem: ALOISIO MAURICIO/ESTADÃO CONTEÚDO
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

19/04/2022 04h00

Para suportar a própria história, cada um lhe acrescenta um pouco de lenda.
Marcel Jouhandeau

Políticos como Bolsonaro, Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin, só para citar alguns, deram verdadeiros rodopios em seus discursos e mudaram totalmente as teses que costumavam defender.

Seguimos ou deixamos de seguir determinado político pela forma como ele age, mas também, e principalmente, pelo que ele fala. Quase ninguém consegue, por exemplo, acompanhar as ações dos parlamentares no Congresso.

Poucos se lembram em quem votaram

Se perguntarmos às pessoas quais foram os projetos propostos pelo deputado ou senador em quem votaram, dificilmente encontraremos uma que saiba a resposta. Em muitos casos, nem se lembrarão a quem deram seu voto.

Até dos políticos mais conhecidos, talvez se recordem apenas vagamente do que disseram em campanha, ou do que defenderam ao longo da vida, ainda que suas teses tenham sido repetidas à exaustão durante os programas eleitorais. É nessa espécie de amnésia do eleitorado que certos políticos se apoiam para não respeitar as causas pelas quais um dia juraram estar comprometidos.

Muitas vezes, eles não se dão conta de que a imprensa e as mídias sociais não deixam a memória se apagar, pois divulgam com bastante alarde o que disseram e o que fizeram ao longo da carreira política.

Há mudanças e há traições

Nada contra uma pessoa mudar de opinião. A vida oferece oportunidades para que possamos ponderar a respeito de nossas convicções e, em certas circunstâncias, mostrar que estávamos equivocados. São mudanças que podem ocorrer até com nossos posicionamentos ideológicos e religiosos.

Nós nos sentimos traídos, todavia, quando um político defende com unhas e dentes determinadas causas, nos envolve com suas ideias, e, de uma hora para outra, aparece fazendo pregações totalmente distintas daquelas em que dizia acreditar. Os casos são tão frequentes que os eleitores dificilmente acreditam no que dizem os candidatos.

Sem contar que muitos se desdizem alegando simplesmente que seus discursos eram motivados apenas por questões eleitoreiras. Ou seja, confessam que o que disseram não correspondia à sua forma de pensar, pois tinham como objetivo apenas a conquista dos votos. Como se os fins pudessem justificar os meios.

Esqueçam o que escrevi

Há uma frase atribuída a FHC que se tornou histórica, embora ele negue sua autoria: "Esqueçam o que escrevi". O fato é bastante curioso. Os acontecimentos foram relatados por dois jornalistas da Folha de S.Paulo, José Carlos de Oliveira e Antonio Carlos Seidl, em meados de 1993.

O então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, teria dito a seguinte frase durante um almoço com um grupo de empresários:

Esqueçam o que escrevemos no passado, porque o mundo mudou e a realidade hoje é outra.

Essas palavras não foram registradas em gravação e nenhum dos empresários presentes, entre eles, Olacyr de Moraes, disse ter se lembrado de ouvi-las. Por isso, até hoje existe controvérsia.

Esqueçam o que falei

Considerando-se o contexto da época, entretanto, a frase deve mesmo ter sido dita, ainda que não com essas mesmas palavras. Depois da experiência traumática com as ações do ex-presidente Fernando Collor, com plano econômico que confiscou o dinheiro da população, a classe empresarial temia que os fatos pudessem se repetir. Como conheciam as teses defendidas por Fernando Henrique queriam ouvir dele que agora pensava diferente.

Dentro dessa perspectiva e por extensão de análise, por tudo o que Fernando Henrique disse sobre o seu tradicional adversário, o ex-presidente Lula, e tendo em vista a maneira como tem dado apoio ao antigo rival, bem que a frase agora poderia ser adaptada para: "esqueçam o que falei".

De criminoso a grande líder

Outro que deu redemoinho em seus discursos foi Geraldo Alckmin. No passado ele disse:

Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder. Ou seja, meus amigos, ele quer voltar à cena do crime.

Agora, como pré-candidato a vice, pega o petista pelo braço e, sem nenhum constrangimento, afirma aos sindicalistas:

A luta de vocês, a luta sindical, deu ao Brasil o maior líder popular deste país: Lula. Viva Lula! Viva os trabalhadores do Brasil.

Bolsonaro também mudou

O próprio presidente Jair Bolsonaro mudou seu discurso. Quem acompanhou a sua vida na Câmara dos Deputados, e se lembra das posições defendidas pelo parlamentar, sabe que ele foi durante um bom tempo nacionalista estatizante. Quando confrontado, Bolsonaro diz que mudou, que hoje pensa de forma diferente. Passou a adotar as ideias liberais.

Por isso, todo cuidado é pouco com as crenças que adotamos em consonância com os políticos que seguimos. Em determinado momento, como nos ensina a história com infindáveis exemplos, podemos ser abandonados no meio do caminho.

Sem drama, pois outras surpresas nos esperam.

Superdicas da semana

  • Todos nós podemos mudar nossas convicções
  • Precisamos observar se nossas mudanças não traem as causas que sempre defendemos
  • A palavra empenhada deve ser mantida
  • É difícil conquistar a confiança, perdê-la nem tanto

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.