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Reinaldo Polito

OPINIÃO

Lula faz live para se comunicar com o povo, mas patina na largada

Presidente Lula em transmissão de live ao vivo - Reprodução
Presidente Lula em transmissão de live ao vivo Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

20/06/2023 04h00

É preciso ser ignorante que nem um mestre-escola / Para se gabar de dizer uma palavra que seja / Que alguém na terra não tenha dito antes de nós.
Musset

Lula adere às "lives". Na verdade, pelo formato adotado, ao vídeo podcast. Quem pensa que o presidente está apenas tentando imitar Bolsonaro talvez tenha se esquecido do que ocorreu nos governos anteriores.

Desde Getúlio Vargas, os chefes do Executivo usam os meios de comunicação para falar dos feitos de sua gestão. Foi no período Vargas que nasceu a "Voz do Brasil", um programa diário de rádio que atravessou décadas até chegar a nós.

Figueiredo, Sarney e FHC

João Baptista Figueiredo também adotou a estratégia e, durante um ano, de 1982 a 1983, fez pela Globo, logo após o término do Fantástico aos domingos, "O povo e o presidente".

Ele respondia às perguntas feitas pelo jornalista Ney Gonçalves Dias. Ney deixava a bola quicando na área e Figueiredo só empurrava para o gol.

Na época em que governou o país, de 1985 a 1990, José Sarney marcou presença, todas as sextas-feiras, comandando o "Conversa ao pé do rádio". Fernando Henrique Cardoso também aderiu à onda e fez o seu "Palavra do presidente". Só que, neste caso, às terças-feiras.

Não era fogo de palha

O mais bem-sucedido de todos, entretanto, foi Bolsonaro. Aproveitou os novos tempos da tecnologia e partiu para as "lives" semanais, todas as quintas-feiras.

Muitos disseram que era fogo de palha, que ele não conseguiria se apresentar com frequência semanal. Contrariando o ceticismo dos opositores, não falhou.

Até o final do seu mandato, todas as semanas, lá estava o presidente prestando contas das suas ações, fazendo contraponto às críticas que recebia da imprensa e dos opositores. Sempre com grande audiência.

Lula tentou mudar

Talvez por isso Lula tenha acatado a ideia da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) para manter esse contato com a população, prestando conta de suas realizações e mostrando os planos que tem intenção de concretizar.

O formato escolhido por Lula é um pouco diferente do utilizado por Bolsonaro. Escalou Marcos Uchoa para fazer as perguntas no denominado "Conversa com o presidente". Poderia até ser uma estratégia louvável se as questões do entrevistador não fossem tão chapa-branca.

Não deu para esconder o fracasso

O resultado foi pífio, apenas 6 mil visualizações simultâneas. Um fracasso quando comparado com os números de Bolsonaro — média de 150 mil ao vivo. O próprio interlocutor do presidente tentou valorizar a audiência, mas precisou se desdizer.

Ele havia dito que chegaram a 1,5 milhão de ouvintes. Confrontado pela jornalista Fabíola Cidral, do UOL, confessou que ouvira dizer, mas não havia visto nenhum registro oficial. De 6 mil para 1,5 milhão?! Haja "ouvi dizer"!

Bolsonaro pegou o jeito

O PT não é mesmo muito bom nesse mundo digital, pois está sempre perdendo de goleada do governo passado. Bolsonaro, por outro lado, pegou o jeito. Sem muito aparato técnico consegue fazer apresentações que facilmente chegam à população.

O ex-presidente, embora tosco e truculento em certos momentos, é visto como autêntico pelos ouvintes. Suas falas vão diretamente ao ponto, sem rodeios. Lula, ao contrário, não é o mesmo dos palanques. Parece meio "engomadinho" e não encanta nessas transmissões.

Não há espaço para falhas

Como hoje é tudo em tempo real, cada afirmação é imediatamente checada para ratificar ou não o conteúdo da mensagem. Qualquer deslize é desnudado antes mesmo de o programa encerrar. Se alguma informação equivocada for proferida, no mesmo instante as mídias sociais estarão trombeteando a falha.

A grande imprensa também conta com suas notícias digitais circulando 24 horas por dia. Ou seja, cada palavra, cada afirmação, cada promessa precisa ser muito bem ponderada para que não haja prejuízo da confiança.

A estreia não foi boa. Se nem a novidade empolgou, os próximos episódios terão ainda mais dificuldade para conquistar audiência.

Não deu outra. Na segunda tentativa, nesta segunda-feira (19), o resultado também foi decepcionante, 7.400 visualizações simultâneas. Vai ser duro emplacar.

Superdicas da semana

  • Dinheiro, estrutura e material humano são importantes para conquistar audiência, mas não bastam
  • As pessoas se cansaram de conversa mole para boi dormir
  • Mentiras, enganos, falhas e equívocos não passam mais despercebidos
  • O sucesso de ontem, com as novas circunstâncias de hoje, talvez não se repita

O conteúdo desse tema é estudado no curso de pós-graduação em "Gestão de Comunicação e Marketing" que ministro na ECA-USP. Livros de minha autoria que abordam esses conceitos: "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante.