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Reinaldo Polito

O que Tarcísio ganha batendo de frente com Bolsonaro?

Tarcísio cumprimenta Bolsonaro - Ricardo Botelho/MInfra
Tarcísio cumprimenta Bolsonaro Imagem: Ricardo Botelho/MInfra

Colunista do UOL

11/07/2023 04h00

Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?
Amós, 3.3.

Quem é Tarcísio Gomes de Freitas? Hoje sabemos. Foi ministro da Infraestrutura na última gestão presidencial e se elegeu governador de São Paulo. Saiu das sombras para a luz. Tudo graças a Bolsonaro. Ele mesmo disse diversas vezes que, se não fosse pelo seu padrinho, não existiria na política.

Tarcísio é tido como profissional competente. Formado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras e Engenharia Civil pelo Instituto Militar de Engenharia. Além dessa sólida formação acadêmica, consta no seu currículo que obteve a maior média histórica no curso do IME, e que ali também concluiu mestrado em Engenharia de Transporte.

Bateram no rabo

Ou seja, é preparo para ninguém botar defeito. Essa formação toda, entretanto, não seria suficiente para alçá-lo ao protagonismo político que conquistou. Para chegar onde chegou era preciso uma mão amiga poderosa, que inegavelmente ainda hoje mostra seu valor.

Embora os adversários insistam em afirmar que Bolsonaro se tornou um zero à esquerda na política, já que não tem cargo e não pode pleitear nada nos próximos 8 anos por causa da sua inelegibilidade, a verdade é que ele não sai um dia sequer das manchetes dos principais jornais do país. Parafraseando o filósofo Lula: "Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo".

Segredo para blindar

Assim que se tornou inelegível, começaram os rumores para descobrir quem Bolsonaro indicaria para concorrer ao Palácio do Planalto em 2026. Por ser muito experiente, ele sabe que se revelar agora o nome do seu apadrinhado, irá antecipar desnecessariamente o flanco para que os adversários comecem a atacá-lo.

Talvez até com o intuito de blindá-lo, há pouco tempo, quando perguntado se Tarcísio seria o candidato, desconversou com uma resposta evasiva: não sei se ele seria o nome mais indicado. E deixou a entender que poderia continuar exercendo o cargo que ocupa hoje em São Paulo. Mesmo que os interlocutores não acreditassem em suas palavras, evitou assim que o governador fosse alvo de ataques com tanta antecedência.

Tarcísio bateu de frente

Na semana passada, todavia, ocorreu uma situação inusitada. Para surpresa e perplexidade da maioria, Tarcísio resolveu ir de encontro a Bolsonaro em público nas discussões sobre a Reforma Tributária.

Expressou sua opinião, como parte de um processo político que, segundo suas convicções, é necessário para o bem do país. E bateu de frente com o ex-presidente, que considera ser indispensável uma discussão mais ampla e detalhada da reforma.

Houve reação

A atitude inesperada provocou reações fortes. Para muitos, foi arriscado demais dizer o que disse naquela hora e lugar. Tanto que seus próprios eleitores se revoltaram com ele pelas redes sociais. Houve até quem, levado pela emoção extrema, o tachasse de traíra. Foi repreendido por Bolsonaro e recebeu críticas de políticos como Ricardo Salles.

Tarcísio mexeu num vespeiro. As diferenças ideológicas estão excessivamente polarizadas. Alguém precisaria dar o primeiro passo para o bem do país. O governador, talvez até por inexperiência política, como afirmou Bolsonaro, ousou pôr o sino no pescoço do gato. Saiu arranhado.

Explodiu as pontes?

Ninguém pode dizer hoje com certeza quais serão as consequências dessa iniciativa. Para uma corrente o governador sai fortalecido por demonstrar coragem e opinião descolada de ingerências ideológicas. Outros, entretanto, julgam que, ao contrariar em público Bolsonaro e os conservadores, usando uma linguagem própria de sua expertise, explodiu as pontes que o levariam ao Palácio do Planalto.

Quem fizer um diagnóstico neste momento, poderá se equivocar. Há muitas variáveis em jogo. E ao que tudo indica, dificilmente Tarcísio ponderou cada uma delas.

Há uma boa parcela do eleitorado de Bolsonaro que votou no ex-presidente apenas para não votar em Lula. Da mesma forma, há muita gente que fez o L por detestar Bolsonaro. Nas últimas eleições não surgiu uma terceira via que convencesse. Faltavam a esses candidatos experiência e credibilidade para merecer o voto.

Não interessa nem a Bolsonaro nem a Tarcísio manter essa contenda. Todos perdem. Por isso, o ex-presidente se apressou em publicar uma foto onde aparece sorrindo e abraçado com o governador. Tarcísio, que parece estar aprendendo rápido as "malandragens" políticas, não perdeu tempo e declarou o que disse inúmeras vezes: "Sempre serei leal e terei gratidão a ele. Se estou aqui, devo a ele".

Pode ser o nome

Se, por acaso, esses eleitores virem na figura de Tarcísio o nome que poderia se afastar dos polos extremos, talvez encontrem nele o candidato que há muito estavam procurando. De qualquer forma, para se cacifar ao cargo, precisará fazer um ótimo governo em São Paulo e não ter Bolsonaro como adversário.

Essa estratégia exigirá mais que conhecimento de precisão matemática, deverá contar com habilidade política, mau desempenho do atual governo federal, economia externa sofrível e uma boa dose de sorte. São muitos caminhos no labirinto para saber hoje se dará certo ou não.

Superdicas da semana

  • É possível ser leal, mesmo discordando
  • Há hora e lugar para alguém dizer o que pensa fora do senso comum
  • As decisões de hoje são as sementes da colheita de amanhã
  • As pessoas desconfiam de quem muda de opinião sem motivo relevante

O conteúdo desse tema é estudado no curso de pós-graduação em "Gestão de Comunicação e Marketing" que ministro na ECA-USP. Livros de minha autoria que abordam esses conceitos: "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante.