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Reinaldo Polito


Você quer sempre ter razão e fala como se desse aula? Então é um chato

Raiva, briga, discussão - istock
Raiva, briga, discussão Imagem: istock
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

21/01/2020 04h00

Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre tempo bom.
Mario Quintana

Por que será que alguns conseguem ser interessantes e sedutores nas conversas, mantendo a atenção das pessoas por tempo prolongado, enquanto outros, por mais que se esforcem, são verdadeiros espalha rodas, dispersando os grupos assim que se aproximam da turma? Esse magnetismo pessoal independe de beleza física, de status social, ou de condições financeiras. Pessoas envolventes sabem conversar e ser agradáveis.

Observe que esses bons de papo são habilidosos já na escolha dos assuntos que abordam. Se tratam de temas polêmicos, como, por exemplo, política ou religião, nunca batem de frente com ninguém. Conseguem perambular por esses assuntos como se concordassem com todos, independentemente das preferências de cada um.

Jamais querem ter razão ou levar vantagem nas discussões. Entendem o ponto de vista daqueles que pensam de forma diversa da sua, identificam suas convergências, e, se a conversa debandar para discussões inconvenientes, imediatamente encontram um jeito habilidoso para mudar o rumo do tema. Não que deixem de discutir, mas sabem o limite que não deve ser ultrapassado para não estabelecer animosidades ou confrontos desnecessários.

Quem conversa como se desse aula é um chato

Os bons conversadores não se preocupam sempre em tratar as matérias com profundidade; ainda que o tema seja atraente, de maneira geral, procuram abordá-lo na superfície. Mesmo que conheçam muito bem o conteúdo, têm consciência de que, se tentarem esmiuçá-lo com detalhes, correm o risco de se tornar chatos.

Falam de maneira mais ou menos periférica de comida e bebida, viagens, lazer, moda, beleza, arte, design e tantos outros assuntos que despertem curiosidade e promovam uma boa troca de ideias. Usam a sensibilidade para medir o interesse das pessoas e, assim, identificar a profundidade adequada com que o tema deva ser abordado.

Sempre que podem, conversam contando pequenas histórias. Elas são mais cativantes.

Quem é bom de conversa evita falar muito a respeito de viagens que realizaram, da sua atividade profissional, de doenças, de questões familiares, especialmente de empregadas e filhos, transtornos com reformas, compras vantajosas, desavenças com colegas de trabalho e parentes, etc. E fazem de tudo para não tomar o tempo das pessoas contando histórias longas, mostrando álbuns de fotografias ou vídeos pessoais.

Saber quais os assuntos que estão na moda exige só um pouco de dedicação. As revistas, jornais e, principalmente, os portais na internet são excelentes fontes de pesquisa. De maneira geral, trazem cadernos ou seções especializadas sobre diferentes temas. Uma rápida olhada poderá ser suficiente para se inteirar de tudo o que merece ser discutido.

Durante a conversa, é conveniente não querer dar uma de professor, tentando ministrar aulinhas, pois a maioria das pessoas não gosta muito de quem se comporta como um sabe tudo, dono da situação, aproveitando as oportunidades para defender teses cansativas. Essa é uma verdade para quase todas as situações, pois são raros os casos daqueles que querem saber de pormenores sobre determinado assunto.

Na verdade, o bom conversador se limita a levantar um bom tema para iniciar a conversa e depois só participa fazendo perguntas que estimulam o bate-papo e dá algumas opiniões. É como se fosse um ciclista que dá pedaladas para manter a marcha. Faz parte das características de quem sabe conversar usar a emoção na medida certa. De forma geral, a conversa deve ser animada.

A boa conversa é uma via de mão dupla. Segundo o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, na sua obra "A ontologia da realidade": "para que nós, seres humanos, possamos interagir nas conversações, é necessário que haja uma convergência de quereres, de desejos, que eles sejam estimulados e instigantes, a tal ponto que nos levem a permanecer em 'interações recorrentes', até que a emoção acabe e com ela também o linguajar".

Algumas habilidades do bom conversador

Quem sabe conversar, em suas intervenções é competente nas tiradas espirituosas, para contar histórias curtas, instigantes, totalmente contextualizadas com o assunto da conversa. Fica atento para observar se todos estão participando e, se nota alguém meio deslocado, com perguntas simples, procura trazê-lo para o centro da conversa. Quem deixaria de gostar de uma pessoa que se comporta assim?

Está certo. Ficou claro que podemos encontrar assuntos interessantes até com certa facilidade, mas como saber se o tema irá mesmo cativar as pessoas? Não é difícil deduzir que alguns temas que possam nos interessar, nem sempre irão ao encontro do que as pessoas desejam tratar. Um bom recurso para tirar essa dúvida é prestar atenção nas conversas e verificar quais os fatos que animam mais, e procurar abordá-los.

Assuntos que realmente interessam

Há pouco tempo um estudo feito pelo Facebook revelou quais os assuntos mais discutidos no mundo. Ali foram mencionados temas de toda sorte, desde arte até comidas e bebidas. O Brasil também foi contemplado com dois dos temas mais discutidos nas redes sociais entre 2018 e 2019: "faça você mesmo" e "anos 80". Embora eu tenha observado aqui e ali algumas discussões sobre esses assuntos, fiquei surpreso com o resultado. Não imaginava que pudessem despertar tanto interesse.

Aí está uma boa fonte de pesquisa para desenvolver conversas interessantes. Sabendo que esses temas são atrativos, são boas também as chances de manter a atenção das pessoas tocando nesses assuntos. Se, entretanto, perceber que determinado grupo não está muito disposto a falar dessas matérias, nada impede que encerre o que estiver dizendo e mude para algo que seja mais atraente.

Não há regra imutável para ter uma conversa estimulante. Em certas situações, falar de futebol, do tempo e até de experiências pessoais pode despertar grande interesse. É provável que você até encontre alguém que goste de ver álbuns de fotografia, ou assistir a vídeos familiares. Não é comum, mas pode ocorrer. Por isso, é preciso ficar sempre muito atento para descobrir as preferências das pessoas com as quais conversamos.

Talvez não exista nada mais importante na comunicação que aprender a conversar bem. Só o fato de você saber que essa habilidade é relevante para manter um bom relacionamento com as pessoas já é meio caminho andado para acertar. É bom ter sempre em mente que além de futebol, política e atividade profissional há uma infinidade de assuntos que poderão manter uma conversa atraente.

Também deve ser considerado o silêncio na boa conversa. Saber ouvir em silêncio quando alguém se expressa, além de sinal de respeito, é sobretudo indicativo de boa educação e inteligência. Não se deve, contudo, exagerar nessa prática. Aprendemos no Eclesiastes: há tempo de calar e tempo de falar.

Essa sabedoria vem de longa data entre aqueles que se dedicaram à arte da conversação. José Guerreiro Murta, na sua obra "Como se aprende a conversar", publicada em 1925, conta esta curiosa anedota:

"Um pai recomendou ao seu filho tolo quando ia casar, que no banquete das bodas não falasse para não se dar a conhecer. Um dos convidados, vendo-o em tanto silêncio, disse em voz baixa a outro: este moço deve ser tolo porque nada fala; e o jovem noivo ao ouvir isto disse ao pai: meu pai, agora posso falar, porque já me conheceram".

Pesquise os assuntos que estão à nossa volta. Procure saber um pouco sobre arte, cinema, música, viagens, lazer, moda, literatura. O aprendizado sobre esses temas não deve se transformar em sacrifício para você. Selecione aqueles que possam ser agradáveis também para o seu caso. Na verdade, se você não sentir prazer em falar sobre um assunto, pode ter certeza de que as outras pessoas também não se interessarão por ele.

Superdicas da semana

  • Aprenda a contar histórias curtas e interessantes
  • Desenvolva a habilidade para se valer de tiradas espirituosas
  • Fala bem quem sabe ouvir bem
  • Evite falar como se estivesse dando aula
  • Quem procura levar vantagem nas discussões já começa perdendo

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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