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Reinaldo Polito


Lula perdeu a mão em seus discursos

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

03/12/2019 04h00

Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo
Eça de Queiroz

Um dos exercícios mais interessantes que proponho aos meus alunos do curso de pós-graduação em Marketing Político da ECA-USP é o de imaginarem uma estratégia para políticos famosos. Que tipo de aconselhamento eles dariam a determinado candidato que se encontra em situação delicada, para que pudesse vencer as eleições.

Uma boa reflexão seria, por exemplo, com Lula. Diante da situação atual em que ele se encontra, qual poderia ser a proposta para que o ex-presidente pudesse fortalecer sua imagem e tentar trazer o PT de volta ao poder? Conhecendo o perfil desses estudiosos da política, a quem ministro aulas há 20 anos, possivelmente, a conclusão seria a de que se trata de um desafio extremamente difícil, quase impossível.

Ao analisar o contexto atual, a conclusão é a de que, mesmo Lula tendo sido considerado um dos melhores oradores da política brasileira, por paradoxal que possa parecer, o seu defeito no momento está exatamente na comunicação. Sua maneira de falar, em vez de conquistar pessoas para a sua causa, poderá rechaçar a simpatia popular.

Há pouco tempo escrevi afirmando que a cadeia não havia tirado o poder de oratória de Lula. Fiz esse comentário depois de analisar o desempenho do ex-presidente em cima do palanque, ao fazer seu primeiro pronunciamento diante do público assim que deixou a prisão. Falou com voz firme, gesticulação aguerrida, pensamento concatenado. Enfim, ali estava o bom e velho orador de sempre.

Esse discurso entusiasmou seus seguidores. Afinal, o grande líder petista retornava com força total. Era a luz que precisavam para enfrentar o governo que lhes havia tomado o poder após 13 longos anos de "reinado". Seria o condutor de uma causa, de uma ideia, ainda que não pudesse mais concorrer às eleições. E não poderá mesmo, já que, se não bastasse a primeira condenação por um colegiado, o TRF 4 acaba de impingir a ele mais uma derrota. Assim, pela lei da ficha limpa deverá ficar fora das disputas.

Lula perdeu a mão

Com o passar dos dias, entretanto, aquele ímpeto demonstrado por Lula nos primeiros instantes parece ter arrefecido. Passou a se apresentar com discurso inconsistente, trocando informações e confundindo a lógica do raciocínio. Fala por falar, como se qualquer frase, desde que agressiva, pudesse fazer sentido.

Há poucos dias, diante de correligionários, proferiu frases que não fizeram sentido: "O problema não é falta de conhecimento científico, o problema é falta de canalhice das pessoas que governam o mundo (sic)". Isso depois de ter chorado e falado sobre escravidão em mensagem que não estava bem dentro do contexto do seu discurso.

Ignorando a opinião da maioria de que o país sofre hoje as consequências do que ocorreu durante o período em que o PT esteve no governo, critica a gestão atual pelo desemprego, pela fome, pelo comportamento antidemocrático. Conclamou a população para sair às ruas em protesto, exatamente como está acontecendo no Chile.

Esse tipo de discurso não anima os brasileiros, ao contrário, pode até assustar e afastar a população. Lula precisa ter em mente que, com as pessoas mais bem informadas pelas redes sociais, não basta apenas falar. Seria preciso demonstrar com dados e fatos as verdades de sua mensagem.

Em entrevista ao jornal El País, falou tudo o que lhe vinha à cabeça. Disse que pela forma como o país está sendo governado é um grande risco para o Brasil. Afirmou ainda que este governo não entende o que é democracia. Falou também que por diversas vezes comentaram sobre o fechamento da Suprema Corte, do Congresso, e que para o governo tudo se resolve com o povo armado nas ruas.

Lula sempre foi craque na oposição

Lula sabe como fazer oposição. Demonstrou essa competência ao longo de toda sua carreira política. Até mesmo quando era governo, não perdia a oportunidade de criticar seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, dizendo que o presidente anterior havia quebrado o país duas vezes. Com a popularidade acima dos 80% e surfando em uma economia que lhe era favorável, ninguém se dava ao trabalho de conferir se o que dizia estava correto ou não.

A história hoje é diferente. Com todas essas condenações nas costas, e outras que ainda estão por se concretizar, o discurso precisaria ser mais robusto e se apoiar em dados reais. Sua estratégia parece estar equivocada, pois esse tipo de mensagem que tem utilizado encontra eco apenas naqueles que o acompanham cegamente. Esses, entretanto, não serão suficientes para levar à presidência quem ele indicar.

Qual deveria ser a estratégia de Lula?

Nenhum governo consegue permanecer muito tempo sem cometer erros. Ao observar uma falha concreta na atual gestão, Lula teria à disposição o momento de agir com toda a energia. Da maneira como está procedendo, o risco é o de que se desgaste ainda mais e comprometa a credibilidade de vez.

Por enquanto deveria se ater a alguns pontos que fortaleceriam seu discurso. Como, por exemplo, os embates desnecessários do governo brasileiro com o presidente francês, as trocas de farpas sem objetivo com a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, a disparada do dólar, a tomada de posição equivocada de Bolsonaro ao torcer ostensivamente pelo candidato perdedor na Argentina.

Se Lula não acordar para essa nova situação, sua figura será apenas uma pálida sombra do grande orador que sacudia as massas e era venerado por onde passava, dentro e fora do país. Nesses novos tempos, assim como já fez no passado, se quiser ter chances, Lula precisa mudar o discurso.

Superdicas da semana

  • Um discurso para ser bem-sucedido precisa estar de acordo com o seu tempo
  • A mensagem deve cada vez mais estar respaldada em informações verídicas
  • É preciso ter paciência e estratégia para atacar no momento certo os adversários
  • O sucesso do passado, em qualquer atividade, não garante necessariamente sucesso no futuro

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL