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É seguro ou não investir durante a pandemia?

Juliana Mello

Juliana Mello

É administradora de empresas e sócia-diretora de Novos Negócios e Distribuição da Fortesec

Especial para o UOL

18/06/2020 04h00

A mudança estrutural do patamar da taxa básica de juros e o acesso mais fácil a produtos de investimentos têm gerado uma verdadeira revolução na forma como o brasileiro cuida do seu próprio dinheiro nos últimos anos. A crise do coronavírus, no entanto, levanta uma série de incertezas.

A primeira é se devemos continuar investindo em ativos estruturados, ações e fundos, ou se o melhor é permanecer com o recurso em conta corrente ou em ativos cuja percepção de risco é menor, como títulos do governo, poupança ou CDB, como alguns exemplos.

Para responder a essa pergunta, é importante analisarmos alguns dados. Por exemplo, de acordo com o último Boletim Focus divulgado, a expectativa do juro real está muito próxima a zero, isto é, uma inflação (IPCA) de 1,55% ao ano e a meta da taxa Selic (taxa de juros nominal) a 2,25% a.a..

Esse relatório é emitido pelo BC e é uma importante fonte de informação pois traz a expectativa do mercado com relação a diversos índices. Ao analisarmos todos esses fatores, podemos perceber que, se o dinheiro for investido em ativos do Tesouro não atrelados à inflação e com vencimento próximo, que rendem perto de 100% do CDI e ainda possuem custos como custódia e corretagem, a rentabilidade real fica próxima a zero.

O mesmo acontece com CDBs e Letras Financeiras que rendem próximos a 100% do CDI e com recursos aplicados na poupança, cuja regra diz que quando a SELIC está abaixo de 8,5% a.a., a remuneração é de 70% da SELIC, ou seja, muito próxima à expectativa de inflação.

Agora, se o dinheiro ficar parado na conta corrente, não teremos compensação nem dos efeitos da inflação e o resultado é a perda de valor. Lembre-se: não será uma perda do tipo "de 1000 passou a ser 900", mas o poder de compra será diminuído.

A segunda incerteza é, então, onde investir. Desconsiderando as opções mais conservadoras já descritas aqui, podemos pensar no mercado de ações, fundos de investimento (ações multimercado ou renda fixa) ou diretamente em ativos de renda fixa mais estruturados.

Recentemente, uma pesquisa da Brain mostrou que os investidores aumentaram o seu interesse por renda fixa em 5% na comparação entre maio e março deste ano, período da crise no Brasil. Para o mercado de ações e fundos multimercados, por outro lado, esse interesse se manteve praticamente estável, mostrando a preferência pela tradicional renda fixa em momentos de incerteza.

O que corrobora para este estudo é que muitos Fundos de Investimento Imobiliários já estão se movimentando para fazerem novas captações. Sim, mesmo com a pandemia. Essas captações visam aproveitar oportunidades de investimento que apareceram em meio à crise.

Os cotistas que aproveitarem o momento podem comprar ótimos ativos com altos descontos, desde que o foco esteja no médio e longo prazo, quando os efeitos da pandemia tendem a ser minimizados.

Os fundos imobiliários de tijolos, aqueles que aplicam o dinheiro diretamente em empreendimentos, estão olhando para ativos que tiveram forte queda em seus preços. Segundo o índice FipeZap, os aluguéis de imóveis comerciais oscilam em torno da estabilidade em abril e o preço médio de venda acumula queda nominal de 2,44% nos últimos 12 meses.

Os fundos imobiliários de papel, aqueles com objetivo de comprar títulos de dívida lastreados em crédito imobiliário, estão aproveitando o aumento dos spreads em contraponto à queda constante do CDI. O aumento desses "prêmios" está, a princípio, ligado à relação de risco e retorno.

A terceira incerteza que quero listar é como entender o risco e ter segurança para investir. Em um cenário adverso como este, a mensuração de risco, que já é algo difícil de quantificar dadas as inúmeras variáveis que podem impactar um negócio, fica ainda mais complexa e nos leva a algumas reflexões. Nem sempre os títulos avaliados como de menor risco e, consequentemente, menor retorno, têm melhor desempenho na crise. Como assim?

Vimos ativos com boa avaliação de crédito, com rating AAA ou high grade, como são conhecidos no mercado, que sofreram neste período e tiveram que passar por renegociações.

Ao mesmo tempo, outros ativos considerados mais arriscados, ou high yield, tinham mecanismos de segurança que os fizeram passar intactos pela crise até o momento, sem qualquer inadimplência ou renegociação. Vale destacar que os papéis "high yield" podem render mais de quatro vezes que os "high grade".

Crises como a atual impõem um cenário completamente diferente ao que estamos acostumados e uma série de incertezas. A possibilidade de alocar recursos em bons ativos, no entanto, não precisa ser uma delas. É possível encontrar boas opções de investimento que equilibrem um risco adequado para o perfil de cada investidor e que ofereça retorno positivo que vá além dos títulos mais tradicionais de renda fixa.

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