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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você já trabalhou e, em vez de receber em dinheiro, foi pago em esperança?

Arianna Huffington: jornal Huffington Post era alimentado por uma extensa rede de colaboradores sub-remunerados - AFP
Arianna Huffington: jornal Huffington Post era alimentado por uma extensa rede de colaboradores sub-remunerados Imagem: AFP
Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

20/04/2021 04h00

"Adoramos o seu trabalho, mas infelizmente não temos como pagar."

Se você ganha a vida na chamada "economia criativa" - um nome pomposo para a mistureba de artes, comunicação, tecnologia e entretenimento - já escutou a frase acima ao menos uma vez. E provavelmente fez o serviço, com um sentimento de revolta e frustração, sem receber um centavo sequer. Afinal, quem nunca precisou pagar pedágio para abrir portas, não é mesmo?

Antes de prosseguir, é necessário fazer uma ressalva: trabalhar de graça (ou quase), na esperança de que o esforço seja recompensado futuramente, não é exclusividade das profissões ditas criativas. Não nos deixam mentir, por exemplo, os milhares de estagiários - de consultórios de saúde a escritórios de advocacia - engolindo sapos diariamente na expectativa de serem efetivados.

Sim, o "trabalho por esperança" sempre existiu. Mas também é verdade que ele ganhou uma potência estratosférica com a economia criativa, principalmente com a explosão de plataformas digitais que se alimentam de uma massa cada vez mais impressionante de trabalho gratuito.

A ciência por trás do conceito

A ideia de trabalho por esperança - ou de Hope Labor, em inglês - na realidade é um conceito científico desenvolvido em um artigo de dois pesquisadores americanos, Kathleen Kuehn e Thomas Corrigan. A priori, aplica-se a pessoas comuns, e não a profissionais. Mas há, claro, inevitáveis pontos de intersecção.

Para fazer o estudo, os acadêmicos entrevistaram dezenas de colaboradores do Yelp, um site com dicas de bares e restaurantes, e do SB Nation - uma rede de blogs de esportes bastante popular nos Estados Unidos. Trabalho de graça feito por gente a fim de se expressar na internet, reitere-se.

Resumidamente, os entrevistados escreviam recorrentemente para essas plataformas por dois motivos primordiais. O primeiro é óbvio: eles gostavam do que faziam. O que estava em jogo era a realização pessoal. Em outras palavras, era um prazer ver seus textos sendo lidos e comentados - uma relação positiva que eles nem sempre tinham com o trabalho do dia-a-dia para pagar as contas.

Já a segunda explicação é justamente o que batiza o conceito criado por Kuehn e Corrigan: esperança. Em geral, as pessoas ouvidas pela pesquisa alimentavam o sonho de um dia - quem sabe, talvez - viverem daquele trabalho que faziam sem qualquer pagamento, por mera diversão. Se elas fossem focadas e talentosas o suficiente, por que não?

Só que essa promessa com ares de conto de fadas não coloca em perspectiva a relação pouco simétrica entre as partes. De um lado, um punhado de plataformas cada vez mais valiosas e poderosas. Pense nas 500 horas de vídeos subidas no Youtube ou nas 147 mil fotos publicadas no Facebook a cada minuto, para citar duas das maiores.

De outro, uma massa de "produtores de conteúdo" trabalhando de graça (ou quase), em sua imensa maioria, na esperança de erguer a cabeça acima da manada. E sem qualquer abertura para discutir as regras estabelecidas unilateralmente pelas empresas de tecnologia.

Um exemplo milionário

Um caso bastante conhecido de Hope Labor é o do jornal Huffington Post. Criado em 2005 por Arianna Huffington, e alimentado por uma extensa rede de colaboradores sub-remunerados, o site se tornaria em pouco tempo um dos portais noticiosos mais acessados dos Estados Unidos.

Seis anos depois de seu lançamento, o jornal foi vendido a um gigantesco grupo de mídia - a AOL - por US$ 315 milhões. Na época, autores que escreviam para o Huffington Post fizeram um movimento para reivindicar, sem sucesso, um pedaço do bolo. Um manifesto publicado nas redes sociais afirmava que o negócio milionário havia sido "construído nas costas de escritores que deram duro e nunca viram um centavo pelo seu trabalho". E um slogan bem humorado foi criado para provocar a fundadora: "Hey Arianna, Can You Spare a Dime?" - algo como "Ei, Arianna, me dá um trocado?"

O exemplo do Huffington Post revela como a engrenagem do Hope Labor pode deixar para trás os "amadores", na melhor acepção do termo. Mas essa máquina acaba arrastando também os profissionais - aquela gente que gastou tempo, dinheiro e esforço emocional para se preparar para o mercado de trabalho. E se engana quem acredita que a esperança é a moeda com que se pagam apenas os que ainda estão engatinhando na carreira.

No ano passado, o premiado jornalista e escritor Chico Felitti, com passagens por grandes redações e livros lançados por editoras importantes, fez um corajoso desabafo sobre um típico episódio de Hope Labor. Convidado a escrever um conto para uma edição especial de uma conhecida revista de moda, ele acreditou que trabalhar para projetar seu nome, sem receber nada, soaria como aquela "música que todo mundo dança", em suas próprias palavras. O escritor só se daria conta da cilada quando a suposta edição especial, patrocinada de cabo a rabo por uma marca de xampu, foi enfim publicada.

Felitti reflete sobre os argumentos que sustentam as promessas do Hope Labor. "Ou é a falácia da exposição: as pessoas vão ver seu trabalho. Ou é a falácia do currículo: você vai ter portfólio - se você trabalhar aqui, você vai conseguir outros trabalhos", explica. "Mas é sempre um ouro de tolo para conseguir explorar o trabalho de alguém oferecendo uma quimera em troca, oferecendo uma ilusão. Foi exatamente o que aconteceu comigo", complementa o escritor.

É possível recusar trabalhar de graça?

Ninguém é obrigado a trabalhar de graça, alguém poderia objetar. Mas é realmente possível recusar o esquema do Hope Labor? Em um mercado cada vez mais acirrado, em que empresas tradicionais e plataformas disruptivas se digladiam por receita publicitária, e em que profissionais e amadores competem por espaço e remuneração, trabalhar por esperança é instinto de sobrevivência. A sensação é de que o sarrafo está cada vez mais baixo - e o que resta é consentir.

"As pessoas ficam com medo de falar as coisas abertamente, de serem punidas e as portas se fecharem. '[Se eu reclamar] Aí não vão me chamar nem para colaborar de graça, não vão me chamar quando tiver uma verba, ou não vão me chamar nunca mais, sabe?'", diz Felitti. O Hope Labor é a consagração do "salve-se quem puder". Mas mantenha a esperança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL