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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que Biden quer criar programa de US$ 400 bi para cuidadores de idosos

Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

04/05/2021 04h00

Na semana passada, o governo do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, atravessou a simbólica marca dos cem dias. A efeméride fez pipocarem inúmeras análises sobre o cavalo de pau que o novo mandatário engatou na maior economia do mundo quando comparado a seu antecessor, Donald Trump.

O pacotão de infraestrutura de US$ 2 trilhões anunciado pelo atual chefe da Casa Branca - que vai do recapeamento de estradas, passando pela modernização de aeroportos e escolas públicas, até a universalização do acesso à internet de banda larga - vem motivando uma série de comparações com o New Deal. O icônico programa de obras públicas, capitaneado por Franklin Delano Roosevelt, içou o país da lama após o tombo da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Só que a mega reforma da infraestrutura dos Estados Unidos encampada por Biden não se limita a um showroom de obras de engenharia. Uma das propostas mais inovadoras e ambiciosas é a criação de um sistema de Home Care (assistência em casa, numa tradução livre) para famílias que necessitam de cuidadores para idosos e pessoas com doenças incapacitantes. O orçamento é estimado em US$ 400 bilhões.

O dilatado conceito de infraestrutura, contido no Plano de Empregos para a América, vem gerando celeuma. A oposição, do Partido Republicano, bate na tecla de que investir em cuidados para cidadãos com problemas de saúde não vai deixar a economia mais produtiva —e de que tudo não passa de uma desculpa para aumentar impostos. Isso porque o governo garante que a conta pode ser paga em 15 anos pela elevação da carga tributária para os ricos e para as empresas de grande porte, o oposto do que fez Trump em termos de política econômica.

O sistema de Home Care desenhado pela gestão Biden tem dois objetivos primordiais. O primeiro deles é desafogar as famílias da base da pirâmide de renda. "Eu não conseguiria trabalhar se eu precisasse tomar conta dos meus pais", afirmou em entrevista ao New York Times a diretora do Conselho Econômico da Casa Branca, Cecilia Rouse. "Como isso não pode ser considerado infraestrutura?", provocou. Se o questionamento soa verossímil para uma funcionária do primeiro escalão da administração federal, imagine para milhões de famílias pobres espalhadas pelo país.

A segunda meta é impulsionar o mercado de trabalho, criando postos de trabalho de cuidadores e, principalmente, valorizando a atividade. O plano de Biden pretende capacitar profissionais e incrementar salários - hoje, a remuneração média é de US$ 12 por hora, uma das mais baixas da economia americana. De acordo com dados do governo, a cada seis pessoas que ganham a vida prestando serviços de cuidador, ao menos uma vive abaixo da linha da pobreza. Por sinal, a ocupação é bastante comum entre mulheres negras.

Mas se engana quem enxerga o sistema de Home Care como apenas mais um programa assistencial concebido para combater a desigualdade e proteger grupos vulneráveis - o que, claro, já seria altamente louvável. Ele também é uma resposta às mudanças da demografia da população mundial, com grandes impactos sobre a economia e o mercado de trabalho.

Indo direto ao ponto: o planeta está envelhecendo. Em 2018, pela primeira vez na história da humanidade, o número de pessoas acima dos 65 superou o de crianças com menos de 5 anos. Nos Estados Unidos, atualmente, um sexto da população já é de idosos. Nas próximas duas décadas, a proporção deve saltar para um quarto.

Não à toa, o conceito de "economia prateada" - uma alusão aos cabelos grisalhos - figura entre as tendências da moda no mundo corporativo. O segmento de fraldas, por exemplo, já se move em direção a produtos para idosos, e não para bebês. Tampouco é coincidência que a atividade de cuidador encabece as listas de consultores de RH sobre as tais profissões do futuro, aquelas que não correm o risco de serem substituídas por robôs.

O sistema de Home Care proposto pelo governo Biden mira em um amanhã que, na realidade, já chegou. A proposta ainda precisa passar pelo crivo do Congresso, onde vai enfrentar ferrenha oposição. Se aprovada, ela pode não só trazer alívio para milhões de famílias que não têm condições de pagar por assistência, mas também reverter a precarização de um mercado de trabalho que só vai crescer daqui para frente.

Ainda que não saia do papel da forma como foi idealizada, a ideia já faz jus às duas primeiras linhas do release oficial do Plano de Empregos para a América: "Não é tempo para construir as coisas como elas foram um dia. Este é o momento de reimaginar e reconstruir uma nova economia".

Enquanto as autoridades americanas se preparam para o imenso desafio de prover qualidade de vida à sua crescente população de idosos, no Brasil, o ministro da economia Paulo Guedes se queixa (não tão) às escondidas de que "todo mundo quer viver 100, 120, 130 anos" e de que "não há capacidade instalada no setor público para isso".

Cada qual com suas prioridades.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL