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Carlos Juliano Barros

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Algoritmos de RH escondem trabalhadores talentosos, diz estudo de Harvard

Com processos seletivos baseados em IA virando tendência, um leque cada vez mais vasto de trabalhadores corre o risco de ser invisibilizado.  - Freepik
Com processos seletivos baseados em IA virando tendência, um leque cada vez mais vasto de trabalhadores corre o risco de ser invisibilizado. Imagem: Freepik
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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

14/09/2021 04h00

Imagine os seguintes candidatos preenchendo um formulário digital para concorrer a uma vaga de emprego oferecida por uma empresa bastante respeitada no mercado:

Uma mulher que passou por uma gravidez de risco e enfrentou complicações de saúde.

Um senhor de meia-idade que foi demitido e resolveu se dedicar apenas aos estudos para se requalificar.

Uma jovem que tirou um ano sabático para repensar a vida e caiu na estrada.

Um homem que tinha um emprego fixo e precisou largar tudo temporariamente para cuidar de um parente vítima de acidente grave.

Todas essas pessoas têm apenas duas coisas em comum. A primeira diz respeito ao passado: antes de apertar o botão "enviar" do formulário, elas estavam há pelo menos um semestre sem trabalhar.

Já a segunda se refere ao futuro: depois de os dados serem processados, elas serão automaticamente eliminadas da disputa pelo emprego, mesmo que todas as outras informações caiam como uma luva para o perfil da vaga.

O motivo é justamente a lacuna de seis meses no currículo, detectada automaticamente pelo sistema de inteligência artificial (IA) usado para o recrutamento de funcionários.

As situações descritas acima não são fruto da imaginação fértil do roteirista de uma série distópica da Netflix sobre robôs malvadões explorando seres humanos.

Na verdade, elas materializam um alerta real feito por um relatório que acaba de sair do forno. Intitulado "Hidden workers: untapped talent" ("Trabalhadores escondidos: talentos não aproveitados", numa tradução livre), a publicação é uma parceria da consultoria Accenture com a universidade de Harvard.

Com processos seletivos baseados em IA virando tendência global, um leque cada vez mais vasto de trabalhadores corre o risco de ser completamente invisibilizado pelas empresas mais produtivas e inovadoras.

Isso pode acontecer porque os candidatos não atendem a pré-requisitos objetivos, como apresentar uma ficha criminal limpa ou um diploma de faculdade prestigiada. Mas também pode ocorrer porque eles não apresentam credenciais muitas vezes subjetivas e polêmicas, como manter-se permanentemente empregado.

"A pesquisa indica que os empregadores acreditam que os candidatos com experiências mais recentes têm mais probabilidade de possuírem melhores habilidades profissionais", afirma um trecho do estudo. Por essa razão, "o recrutador jamais vai ver a ficha do candidato [que está sem trabalhar há seis meses], mesmo que ele atenda às necessidades do empregador", continua a publicação.

Entre as 500 maiores companhias do mundo, 99% utilizam sistemas de contratação de funcionários baseados em inteligência artificial - cifra que não chega a ser uma surpresa. O que impressiona é a velocidade com que essa onda vem gotejando do topo para a base da pirâmide.

Segundo a pesquisa, dois terços de todas as empresas da Alemanha, dos Estados Unidos e do Reino Unido - partindo daquelas com um quadro de apenas 50 funcionários - já contam com processos seletivos automatizados.

É só questão de tempo para que esses números explodam por aqui também.

Os autores do estudo não defendem que se retorne à idade da pedra e que se aposentem os robôs concebidos para auxiliar na seleção de recursos humanos.

Porém, eles advertem para consequências de grande impacto social: da forma como estão desenhados, os algoritmos têm potencial para agravar problemas como falta de diversidade e concentração de renda. Isso porque apenas um punhado bastante restrito de pessoas é capaz de passar incólume pela peneira dos sistemas de inteligência artificial.

Em outras palavras, o risco não é apenas o de manter fechadas as portas para os trabalhadores tradicionalmente escondidos - caso de imigrantes, ex-presidiários e portadores de problemas de saúde.

Na ânsia de garantir celeridade e eficiência à seleção de funcionários a partir de programas automatizados, as empresas acabam desperdiçando a oportunidade de avaliar bons candidatos. Em nome de critérios aparentemente técnicos, porém, absolutamente questionáveis, mais trabalhadores podem ser escanteados.





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