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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Amazon e iFood mostram que empresas temem, sim, trabalhadores organizados

12/04/2022 04h00

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Importada do inglês, a palavra "truísmo" se refere àquelas crenças que, por serem tão óbvias, já se tornaram até banais - ou, em alguns casos, clichê.

Um dos maiores truísmos do nosso tempo é a ideia de que a evolução da tecnologia tornou desnecessárias representações coletivas de trabalhadores.

Por esse raciocínio supostamente irrefutável, a digitalização da economia implodiu sindicatos ao permitir que as pessoas trabalhem por conta própria, de forma flexível, e que se comuniquem de maneira mais ágil com os responsáveis pela sua contratação. Intermediários, portanto, seriam dispensáveis.

Só que dois episódios recentes e emblemáticos mostram que essas verdades não são tão verdadeiras assim. Estamos falando da criação do primeiro sindicato de trabalhadores da Amazon, nos Estados Unidos, e da denúncia de que o iFood teria atuado para sabotar a mobilização de entregadores brasileiros por melhores condições de trabalho.

Amazon e as ações antissindicais

No caso da gigante do e-commerce comandada por Jeff Bezos, essa não foi a primeira vez que a fundação de uma entidade representativa de funcionários capturou a atenção da opinião pública e entrou na mira da companhia.

Um ano atrás, o movimento dos trabalhadores da planta de Bessemer, no Alabama, já havia ganhado as manchetes de jornais e o apoio de diversas personalidades do país, incluindo o presidente Joe Biden.

Na ocasião, a big tech foi acusada de constranger os trabalhadores na votação que, no fim das contas, decidiu contra a formação do sindicato. Segunda maior empregadora dos Estados Unidos, atrás apenas do Walmart, a Amazon festejou.

Mas era apenas uma questão de tempo mesmo para que os trabalhadores voltassem à carga. No começo de abril, mesmo com a pressão da companhia, os empregados de um depósito de Nova York votaram a favor do sindicato. Segundo Christian Smalls, líder do movimento, já há pedidos de assessoria para criação de entidades similares em outras partes do país.

iFood e a desmobilização virtual

No Brasil, a plataforma líder do mercado de delivery de comida foi acusada de agir para esvaziar manifestações de entregadores.

Uma reportagem da Agência Pública trouxe à tona evidências de uma máquina virtual de desmobilização. Por meio de perfis e memes criados por agências de marketing contratadas, o Ifood teria atuado para distrair o foco das reivindicações.

Em vez de aumento na remuneração, os posts centravam fogo, por exemplo, na vacinação prioritária contra a covid para entregadores. Em outras palavras, o objetivo era transferir o alvo das queixas: em vez da empresa, o Estado. O iFood nega as acusações.

Sociedade de classe média

Os exemplos da Amazon e do iFood mostram que grandes empresas têm receio, sim, de trabalhadores organizados. Não à toa, agem deliberadamente para dificultar a vida de sindicatos e associações afins.

O truísmo quer fazer crer que criar representações coletivas é insistir na retórica ultrapassada da "luta de classes". O futuro residiria nas negociações diretas entre empregados e empregadores, como chancelou a nossa reforma trabalhista de 2017.

Isso pode até parecer uma boa ideia para executivos selecionados a dedo por headhunters e que têm a oportunidade de negociar benefícios com os departamentos de RH - de bônus de boas-vindas a home office permanente.

Na vida real, os entregadores de aplicativo se relacionam no dia a dia com sistemas de inteligência artificial que mais parecem aqueles infernais atendimentos de telemarketing. Acreditar que existe alguma possibilidade de negociação direta entre as partes é, na melhor das hipóteses, cinismo.

Sim, é verdade que havia muitos sindicatos pelegos e picaretas - não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo. Por aqui, muitos deles sumiram do mapa com o fim do imposto sindical obrigatório. No entanto, tirá-los de cena sumariamente não é garantia de que mais e melhores empregos vão ser gerados. Pelo contrário.

Como ensina em artigo recente o professor Paul Krugman, Nobel de Economia, os Estados Unidos dos anos 1970 eram uma sociedade de classe média. O CEO de uma grande corporação ganhava 23 vezes mais do que seus funcionários. Hoje essa proporção é de 351 para 1. O declínio dos sindicatos ao longo dos últimos cinquenta anos ajuda a explicar a impressionante escalada da concentração de renda na maior economia do planeta.

O mundo pode até ter mudado. Mas um fato se mantém: enquanto não houver organizações de trabalhadores massivas, capazes de bater de frente com companhias gigantescas que praticamente monopolizam seus segmentos de mercado, melhorias trabalhistas reais dificilmente serão conquistadas.

Os estoquistas norteamericanos da Amazon já aprenderam a lição. Os entregadores brasileiros estão no mesmo caminho.