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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Série sobre CEO excêntrico do WeWork escancara "infantilização" do trabalho

A espetacular ascensão e a vertiginosa queda de Adam Neumann conduzem a narrativa de WeCrashed - Divulgação
A espetacular ascensão e a vertiginosa queda de Adam Neumann conduzem a narrativa de WeCrashed Imagem: Divulgação
Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

24/05/2022 04h00

A história de Adam Neumann, o folclórico fundador da rede de escritórios compartilhados WeWork, talvez seja o exemplo mais bem acabado dos pecados capitais do glamouroso "ecossistema" das startups.

Contada ao longo de oito capítulos na série WeCrashed, em cartaz na Apple TV+, a jornada de Neumann mostra como o CEO de uma empresa com um modelo de negócios absolutamente questionável ganha passe livre para torrar dinheiro adoidado, sem a menor perspectiva de torná-la lucrativa. Por sinal, uma fábula comum entre outras companhias renomadas desse mercado.

Com pinta de ícone da contracultura dos anos 1970, Neumann se definia como um "empreendedor em série" - uma máquina de conceber ideias supostamente disruptivas, alimentada por chavões motivacionais como "faça o que você ama" e "graças a Deus hoje é segunda-feira".

Assistindo a WeCrashed, fica claro que o objetivo de Neumann nunca foi o de criar uma comunidade vibrante para repaginar o futuro do trabalho e "elevar a consciência mundial". Acredite: era com essa pretensão toda que a empresa, avaliada em US$ 47 bilhões antes de sua primeira e malsucedida tentativa de abertura de capital em 2019, definia sua missão.

Na prática, o plano de dominar o mercado de escritórios compartilhados dependia de uma promessa de rentabilidade de longo prazo vendida a investidores cheios da nota, mas pouco compromissados com pautas, digamos, humanitárias. É o caso dos gestores de fundos de um dos países mais autoritários e antidemocráticos do mundo - a Arábia Saudita.

Como se sabe, Neumann acabou defenestrado pela diretoria da empresa criada por ele próprio, depois de se mostrar incapaz de salvar a companhia da falência. Em 2021, já sem o seu excêntrico e perdulário fundador no comando, o WeWork se reestruturou e finalmente abriu seu capital, valendo seis vezes menos do que o ex-CEO inicialmente estimava.

Ainda que a espetacular ascensão e a vertiginosa queda de Neumann conduzam a narrativa de WeCrashed, é na construção do ambiente de trabalho formatado pelo criador da gigante do coworking que a série se mostra mais instigante.

Não estamos falando apenas dos detalhes pitorescos, como a decoração descolada do QG da empresa em Nova York, com direito a gongo dourado, mesas de jogos e neons de frases de efeito. Tampouco estamos nos referindo às festas regadas a muita tequila em pleno expediente.

Na realidade, transformar o escritório em playground ou colônia de férias está mais para sintoma do que para causa. O xis da questão é uma certa infantilização do trabalho - mentalidade que Neumann elevou à última potência, mas que está longe de ser exclusividade do WeWork.

Por infantilização, entenda-se a incapacidade de ouvir "não" e de lidar com frustrações, bem como a necessidade de encarar o batente do dia a dia como uma gincana viciante, ao final da qual se espera não um salário pelo seu trabalho, mas um prêmio por sua performance. Não à toa o conceito de "gamificação" é hoje um dos mais influentes nos departamentos de RH.

A infantilização é duplamente cruel. Primeiro, por seduzir trabalhadores - sobretudo jovens, em início de carreira - com o canto da sereia do "vista a camisa e faça algo com propósito", mesmo que isso sirva apenas para dar um ar de sofisticação a tarefas tão burocráticas ou mal remuneradas como as realizadas em outras empresas não tão hypes.

Segundo, por não preparar as pessoas para a realidade nua e crua: a esmagadora maioria jamais poderá ser enquadrada nas categorias de "musa, mágica ou rebelde", como define um coach de imagem na série. Num tempo indiscutivelmente narcisista, esse gozo inalcançável e irrealizável, que se expressa também no trabalho, pode virar fonte de profundo sofrimento psíquico. A esposa de Neumann que o diga.

Nesse ponto, é impossível não recordar outro sucesso recente do streaming, o longa-metragem "Não olhe para cima", disponível no Netflix. Depois de reiteradas participações em programas de televisão para alertar - de forma "leve" e "descontraída" - sobre o iminente fim do mundo, o cientista vivido por Leonardo DiCaprio desabafa: "por que tudo tem de ser sempre tão divertido?"

Trabalho não pode e nem deve ser fonte de sofrimento, claro. Mas também não é lugar de festa. Saber separar o joio do trigo é o que torna as pessoas maduras - assim como aprender a lidar com altos e baixos. Adam Neumann era apenas uma criança mimada gastando sem dó o dinheiro dos pais, até que os adultos resolveram contar o dinheiro da carteira.