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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como ideologia evangélica alimenta ideia de empreendedorismo bolsonarista

Bolsonaro, Silas Malafaia e Michelle durante a marcha para Jesus, no Rio  - Reprodução/Facebook
Bolsonaro, Silas Malafaia e Michelle durante a marcha para Jesus, no Rio Imagem: Reprodução/Facebook

30/08/2022 04h00

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No começo de 2013, poucos meses antes de explodirem os protestos que transformariam radicalmente os rumos políticos do país, entrevistei o pastor Silas Malafaia para uma reportagem publicada na revista GQ.

Hoje, Malafaia é um dos mais notórios e barulhentos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Mas, naquela época, apesar de bastante popular entre os evangélicos, sua importância como influenciador político ainda era pouco conhecida fora desse segmento.

Para engrossar a pauta, combinei com os editores de participar de uma formação de lideranças religiosas em Águas de Lindoia, estância turística no interior de São Paulo, organizada pela igreja de Malafaia.

Ao longo daquela imersão de três dias no mundo neopentecostal, o que mais chamou minha atenção não foram os insistentes pedidos de "oferta" (como são chamadas as doações em dinheiro) feitos por Malafaia. Tampouco me espantei com as pregações condenando a homossexualidade proferidas por ele e por pastores convidados.

Tudo isso era, de certa forma, esperado. Em 2013, o aliado do presidente já era famoso pelo "poder de persuasão de seus fiéis", para usar um eufemismo, e pela língua ferina na defesa do conservadorismo.

Certamente, o grande aprendizado daquele evento foi entender como opera a Teologia da Prosperidade. Passada quase uma década, é possível perceber que esse conjunto de ideias bastante influente nas igrejas neopentecostais brasileiras funciona como uma das principais molduras da visão de mundo bolsonarista, mesmo para os não evangélicos.

A Teologia da Prosperidade é especialmente forte em sua relação com o trabalho. Grosso modo, ela pode ser resumida no ditado "Deus ajuda a quem cedo madruga". Por essa lógica, trabalhar duro e ficar rico, desde que se retribua à igreja e à comunidade, é uma forma legítima de glorificar a Deus.

Por sinal, essa é uma tese que está longe de ser novidade. Um dos maiores clássicos da sociologia mundial, "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", do alemão Max Weber, já investigava essa mesma hipótese no começo do século 20.

Mas voltemos ao congresso de Malafaia. Ao longo do evento, os oradores convidados — principalmente, os pastores trazidos dos Estados Unidos — apresentavam Jesus Cristo como um empreendedor, um visionário incansável disposto a vender uma ideia disruptiva. Não por acaso, a maioria deles também fazia propagandas de seus livros, que oscilavam entre a religião e a autoajuda.

Estrela do evento, o norte-americano T. D. Jakes aconselhava os ouvintes: "escolha os seus 12", assim como Jesus havia feito com os apóstolos. Só um círculo de seguidores incondicionalmente fiéis seria capaz de fazer uma igreja ou um negócio ir para frente. Afinal, para que as pessoas se sintam especiais, elas precisam fazer parte de um grupo seleto e ter a sensação de realizar um trabalho nobre, ensinava Jakes.

E onde entra o bolsonarismo nessa história? A Teologia da Prosperidade até pode ter como habitat natural as igrejas neopentecostais. Mas é notável como esse culto ao trabalho duro e nobre, a ser recompensado por Deus, vem se espraiando para outros segmentos também identificados com o presidente, mesmo os não necessariamente evangélicos.

Isso é bastante evidente na militância digital bolsonarista. Para além dos robôs, que existem sim em grande quantidade, há muita gente pegando pesado no batente das redes sociais em nome de uma suposta cruzada do bem contra o mal.

Outro caso exemplar é o do agronegócio. Tanto o ódio destilado aos sem-terra, tachados de "vagabundos", quanto a construção do mito do fazendeiro bandeirante, que desbravou a floresta e trabalha incansavelmente para produzir alimentos para o mundo, mostram como Bolsonaro trouxe para seu lado o eleitorado que se define como "cristão" e "batalhador".

Goste-se ou não, é preciso reconhecer que, para além de radicalizar nas pautas morais e de costume, Bolsonaro foi hábil ao propor uma releitura da Teologia da Prosperidade e projetá-la para além dos muros das igrejas evangélicas.

Aproveitando a ressaca da Lava Jato e a insatisfação com os serviços públicos, seu governo acenou com uma tolerância para irregularidades ambientais e trabalhistas e fomentou um empreendedorismo "fé em Deus e pé na tábua".

Por ora, é impossível dizer se Bolsonaro conseguirá ou não arrebanhar mais seguidores para seu credo particular, a ponto de vencer as eleições. Mas, mesmo derrotado nas urnas, o "cada um por si e Deus por todos" do presidente permanecerá como força política por muitos e muitos anos.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL