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José Paulo Kupfer

Reunião ministerial também revela descoordenação na área econômica

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

23/05/2020 17h21

No já famoso vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, o presidente Jair Bolsonaro não podia ter deixado mais claro que, com ele, ministro que não estiver alinhado tem de sair. Mas o vídeo também permite concluir que, na área econômica, não está claro o que o governo pretende que seus ministros executem. A impressão que transmite é de descoordenação e falta de alinhamento.

A reunião foi convocada, originalmente, para que os ministros tomassem conhecimento oficial e falassem das contribuições que poderiam trazer ao Plano Pró-Brasil, patrocinado pelo ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, a quem coube abrir o encontro com uma apresentação do plano. Trata-se de um programa de investimentos públicos em infraestrutura, com ênfase na conclusão de obras já iniciadas, e, com isso, impulsionar a economia.

Como disse Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, é "o ministro mais importante nessa missão aí", sendo "essa missão aí" o Pró-Brasil. Ocorre que Guedes é, visceralmente, contrário ao programa, apesar dos panos quentes com os quais saudou o programa, concedendo que, pelo menos no nome, o Pró-Brasil "é dez, é mil".

Guedes reiterou de forma peremptória que se opõe à ideia de destinar recursos públicos para obras públicas. "Voltar uma agenda de trinta anos atrás, a dos investimentos públicos financiados pelo governo, isso foi o que a Dilma fez", retrucou ele, na análise do programa patrocinado pelo ministro da Casa Civil.

Para Guedes, não pode haver ilusão diante do fato de que "o governo quebrou", e a retomada do crescimento virá pelos "investimentos privados, pelo turismo, pela reabertura da economia, pelas reformas". Acusando o colega Rogério Marinho, ministro do Desenvolvimento Regional, cujas "digitais" estariam impressas no Pró-Brasil, pela ideia do plano, Guedes ironizou o programa abraçado por Braga Netto.

"Todo o discurso é conhecido, acabar com as desigualdades regionais, é bonito isso, mas é isso que o Lula, o que a Dilma estão fazendo há 30 anos", disse Guedes. E jogou uma pá de cal no Pró-Brasil: Se a gente quiser acabar igual a Dilma, a gente segue esse caminho."

A moral dessa história parece muito clara: se Bolsonaro quiser levar a "missão" de botar de pé o Pró-Brasil, terá de dobrar Guedes ou se livrar dele. Como gritou o presidente na reunião, ele tem "o poder", pode "interferir em todos os ministérios sem exceção" e "já trocou cinco ministros".

A outra hipótese é deixar a "missão" de tocar o Pró-Brasil se esvaziar. Se for assim, Bolsonaro deixará não só Braga Netto, mas outros ministros ao relento. Marinho, o dito "autor intelectual" do plano, e Tarcísio de Freitas, o festejado ex-capitão, da Infraestrutura, para quem seria possível mobilizar R$ 250 bilhões com as obras, claramente alinhados com a Casa Civil e o Pró-Brasil, não deixaram dúvidas desse alinhamento em suas falas na reunião ministerial

O resumo desse capítulo da ópera encenada em 22 de abril, no Palácio do Planalto, aponta riscos para a coordenação e a sintonia ministerial na condução da política econômica. Indica também que muita energia política poderá ser desperdiçada até que o time de Bolsonaro entre em acordo sobre o que fazer com a economia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.