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Dólar leva um tombo, e Bolsa acumula altas em série. O que explica?

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

02/06/2020 19h17

Ninguém pode se queixar da falta de emoções fortes na economia, nestes tempos de pandemia. A mais recente ocorreu nesta terça-feira (2), no mercado cambial, com a cotação do dólar registrando o maior recuo num único dia em dois anos. A moeda americana recuou 3,25% ante o real e fechou a R$ 5,21,

Projetar a trajetória da taxa de câmbio é mesmo um exercício inglório para economistas. A forte queda na cotação do dólar ocorre no dia seguinte ao avanço do valor da moeda americana nas previsões dos analistas para o fim do ano.

Pela primeira vez em muito tempo, a previsão do Boletim Focus para a cotação do dólar no fim do ano superou o valor de momento da taxa de câmbio. Enquanto a previsão para fins de 2020 chegou a R$ 5,40, o dólar fechava a R$ 5,33, na sexta-feira (29), descendo ainda mais neste início de semana.

Experientes operadores do mercado cambial apontam razões políticas e econômicas para essa recente trajetória de queda do dólar ante o real. Mas não se sentem confortáveis para assegurar que a tendência seja duradoura. Lembram que a volatilidade no mercado continua muito elevada.

Com relação à derrubada da taxa nesta terça-feira, chamam a atenção, em primeiro lugar, para o fato de que o recuo registrado na cotação do dólar também ocorreu com outras moedas de economias emergentes. Acham também que as perdas do real ante o dólar podem ter sido excessivas, favorecendo agora um movimento de ajuste.

Motivos mais relevantes para explicar o corte na cotação do dólar teriam origem nos efeitos esperados das novas rodadas de injeção de recursos promovidas pelos bancos centrais dos países de economia madura, tendo à frente o Fed (Federal Reserve, banco central americano) e o BCE (Banco Central Europeu). Essa nova rodada de estímulos monetários, na visão de operadores, coincide com a retomada de atividade, depois das quarentenas, em diversos países.

Além de colaborar para a volta de um clima de maior confiança, o aumento da liquidez pode já estar em parte sinalizando um transbordamento de recursos para os mercados emergentes. Não se pode esquecer que, com o dólar alto, ativos brasileiros estão mais baratos na moeda americana. A recente virada da Bolsa brasileira, que, já acumulando sucessivas altas, nesta terça-feira, retornou aos 90 mil pontos, também teria a ver com esse movimento.

Na visão de especialistas, o quadro relativamente mais otimista se completaria, na esfera doméstica, com sinais de distensão no ambiente político, depois da elevação da temperatura no fim de semana. O início da reabertura de atividades econômicas, ainda que as curvas de contágio continuem em alta, também estaria contribuindo para melhorar o ambiente, nos mercados financeiros.


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José Paulo Kupfer