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Números da atividade confirmam que economia sofreu colapso em abril

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

18/06/2020 17h32

A marcha da economia brasileira, na primeira onda da pandemia, vai pouco a pouco confirmando o mergulho histórico sofrido a partir da segunda quinzena de março. A publicação dos números de abril, o primeiro mês cheio de impactos da Covid-19, completados nesta quinta-feira (18) com os resultados do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica/Banco Central), não deixa dúvida de que ocorreu um choque potente e simultâneo de oferta e demanda.

Não seria exagero falar em colapso. Em relação a março, o IBC-Br recuou 9,7%. Na comparação com o período pré-pandemia, a queda acumulada da atividade já alcança 16%. No comparativo com o mesmo mês de 2019, a contração é inédita, chegando em abril a 15,1%. Em relação a abril do ano passado, o tombo também é de 16%.

Exceto a agropecuária, que se recuperou em abril de pequeno recuo em março, indústria, varejo e serviços, como previsto, despencaram. No primeiro mês completo de propagação da Covid-19 e de restrições à circulação de pessoas, varejo e serviços registraram recuos acentuados, e a indústria, na qual o segmento de veículos tem peso relevante, quase parou por completo.

A contração da produção industrial, em abril, na comparação com março, foi de 18,8%. Produção de bens de consumo recuou quase 80%, enquanto a de máquinas e equipamentos sofreu retração superior a 40%. Esses números são os menores da série histórica, iniciada há 18 anos, em 2002.

Menores, mas nem por isso baixos foram os recuos no varejo e nos serviços. O primeiro a queda em abril, na comparação com março, foi de 17,5%, no chamado varejo ampliado, que inclui venda de veículos e de material de construção. Detalhe é que as vendas de medicamentos e supermercados, depois da corrida às compras no mês anterior, logo que ficou claro que seriam adotadas medidas de restrição à circulação de pessoas, observaram quedas em abril.

Já os serviços renovaram, em abril, pelo segundo mês consecutivo, mínimas históricas, na série do IBC-Br. O recuo foi de 11,7% sobre março, puxado pela retração em turismo, lazer, transporte aéreo e transporte em geral, este refletindo, entre outros efeitos, a paradeira do setor industrial.

As perspectivas para maio são de quedas um pouco menores, na comparação com abril, mas essa recuperação está longe de poder ser considerada sem ressalvas. As projeções ainda são de recuos de dois dígitos, na comparação anual. Estima-se que o IBC-Br apresentará uma alta de cerca de 3%, em maio sobre abril, mas contrairá acima de 12%, em relação a maio de 2019.

Com os resultados do IBC-Br de abril, as projeções para o PIB do segundo trimestre continuaram nas vizinhanças dos dois dígitos. As previsões de que a retração da economia no conjunto de 2020 fique em torno de 8%, indicam expectativa de que os dois trimestres restantes do ano registrem resultados positivos, na comparação com os trimestres anteriores, ainda que insuficientes para caracterizar uma retomada.

Existem, porém, grandes incertezas em relação a uma segunda onda de contágios de Covid-19, a partir da estabilização dos casos de infecção. A essas incertezas se adicionam dúvidas quanto à capacidade do governo em oferecer suporte a trabalhadores e empresas, para que a reabertura dos negócios seja mais rápida e robusta.

Levantamentos da IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão de acompanhamento de contas públicas, vinculado ao Senado Federal, mostram que nem metade dos recursos destinados ao enfrentamento da pandemia já foram aplicados. No que se refere, especificamente, à emergência sanitária, nem um terço dos recursos tornados disponíveis foram usados. Os temores são de que, somadas às recorrentes crises políticas em andamento, essas dificuldades atrasem a recuperação da atividade e aprofundem o tamanho da crise econômica.

José Paulo Kupfer