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Indústria deixa de cair, e ajuda a projetar tombo menos pior da economia

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

02/07/2020 15h11

Os números do desempenho da economia, em junho, e os mais relevantes de maio, começam agora a sair do forno. Eles estão confirmando que o fundo do poço da grande crise econômica causada pelo colapso da produção e das vendas com a Covid-19 ficou para trás, com as quedas mais acentuadas de abril.

Mas parâmetros de medição foram tão alterados que a os esforços para projetar o que pode vir pela frente exige cautelas e cuidados redobrados. A expansão de 7%, observada no conjunto da indústria, entre abril e maio, conta uma história de "recuperação" que ainda precisa vir entre aspas. Em linha com as projeções, a alta é a maior desde junho de 2018, mas ficou longe de eliminar o recuo de 26%, acumulado em março e abril, consequência da paralisação das atividades do setor com a pandemia.

Um exemplo capaz de resumir a situação pode ser encontrado na trajetória da produção de veículos, o carro chefe (sem trocadilho) do setor industrial, cujos números de maio foram divulgados nesta quinta-feira (2), pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O volume produzido em maio foi quase 245% maior do que em abril, mas representa uma queda forte, de 74,5%, na comparação com o que foi expedido pelas fábricas em maio de 2019.

O caso dos veículos é bem típico dos impactos iniciais na atividade econômica do inédito e violento choque simultâneo de oferta e de demanda. A produção praticamente parou e quase nada saiu das linhas de montagem entre a segunda quinzena de março e o mês de abril. No acumulado de 2020, até maio, a produção recuou 50%, quando comparada com os números acumulados dos primeiros cinco meses de 2019.

Com os novos números da indústria, analistas estão projetando uma nova e mais acentuada expansão em junho, em torno de 10% sobre maio. Se a previsão se confirmar, o volume produzido ainda estará cerca de 10% abaixo do volume de produção registrado em junho de 2019.

É trajetória semelhante à encontrada na pesquisa mensal PMI, sobre a indústria brasileira, realizada pela consultoria global IHS Markit, conhecida mundialmente como "Índice Gerentes de Compras", que afere os níveis de novos pedidos e produção setoriais. Pela primeira desde fevereiro, o índice superou 50 pontos, considerado o ponto neutro, em que o setor não se encontra nem em retração, nem em expansão. Expressou recuperação da atividade, em relação ao índice de 38,3 pontos, registrado em maio, refletindo, basicamente, o retorno das fábricas à produção que havia sido paralisada.

De todo modo e de uma maneira geral, as tendências mais recentes convergem para previsões um pouco menos negativas do que as anteriores. O horizonte ainda aponta para quedas importantes, mas já agora em grau ligeiramente menor do que antes era vislumbrado.

Para o segundo trimestre, por exemplo, uma contração de 10% sobre o período janeiro-março, antes avaliado como piso da queda, agora já está sendo visto como teto. Apesar das incertezas com relação a uma reabertura mais consistente da economia, no segundo semestre, e depois de uma piora forte nas projeções de organismos multilaterais como FMI e Banco Mundial, acima de 8%, a retração prevista para 2020 tem sido revista para números menos piores do que esse.

José Paulo Kupfer