PUBLICIDADE
IPCA
0,64 Set.2020
Topo

Desemprego cresce, deve aumentar ainda mais, e aponta economia lenta

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

23/09/2020 15h56

O número de trabalhadores desempregados, que vem subindo mês a mês desde maio, chegou a 12,9 milhões de pessoas, na média de agosto, conforme divulgou o IBGE nesta quarta-feira (23). São mais 2,8 milhões de desocupados, em relação ao total de pessoas que, em maio, não encontravam trabalho, em total então de 10,1 milhões.

Essa tendência de aumento da taxa de desemprego deve se acentuar nos próximos meses. A volta gradual das atividades econômicas e a redução, no valor e na abrangência, do auxílio emergencial, levarão mais pessoas a procurar trabalho. De acordo com o método de cálculo da taxa de desemprego adotado pelo IBGE, que segue padrão internacional, são consideradas desempregadas apenas as pessoas em idade de trabalhar que, ao longo do mês da pesquisa, declaram ter procurado ocupação sem sucesso. Quem não está procurando trabalho, mesmo sem ocupação, não é considerado desempregado.

A trajetória da taxa de desemprego tem retratado com exatidão essa situação. Em maio, 10,7% da força de trabalho estava desempregada. O índice subiu para 12,4%, em junho, avançando em julho para 13,1%. Ficou em 13,6%, na média de agosto, mas já fechou a última semana do mês passado com taxa de desemprego de 14,3%.

À proporção que a taxa de desemprego aumente, também deve aumentar o número de pessoas ocupadas, na medida em que um certo número de trabalhadores que irá procurar por trabalho será contratada ou conseguirá se estabelecer por conta própria. Pode-se prever também que o segmento informal do mercado de trabalho, do qual é mais fácil sair e retornar, responderá pela maior parte da absorção de trabalhadores em busca de ocupação.

Também a informalidade caiu no período de ápice da pandemia e do isolamento social. O setor informal do mercado de trabalho respondia, em janeiro, por mais de 40% das ocupações. Em julho, esse número estava em 33,6% do mercado, chegando, em agosto, a 33,9%.

As taxas oficiais até aqui registradas resultam do fato de que grande número dos que perderam empregos ou ficaram impossibilitados de trabalhar não voltou a procurar ocupação. Em junho, por exemplo, dos que ficaram desocupados, apenas 5% voltou a procurar por trabalho. Indicador dessa situação, em agosto, enquanto o total da força de trabalho (pessoas ocupadas mais as desocupadas) aumentou 1,4% sobre julho, a população ocupada cresceu 0,8%.

Esse aumento na população ocupada reverteu em parte o decréscimo observado desde maio. A queda de maio a agosto chegou a 2,4% do total de ocupados, reduzindo o total a 84,4 milhões de pessoas, o mais baixo da série da PNAD Contínua, iniciada em 2012.

Pela primeira vez desde o início da pesquisa, menos da metade das pessoas em idade de trabalhar está trabalhando. Considerando a existência de uma forte correlação inversa entre a taxa de desemprego e os índices de distanciamento social - na medida em que a taxa de distanciamento cai, a de desemprego tende a aumentar -, é praticamente inevitável uma alta contínua da taxa de desemprego, nos próximos meses.

Com a gradual reabertura das atividades econômicas, notadamente as ligadas ao comércio, a taxa de desemprego pode avançar até perto de 20% da força de trabalho. Um recorde que embute indicação segura de que a recuperação da economia como um todo tende a ser lenta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.