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José Paulo Kupfer

Achar que há descontrole da inflação é mais perigoso que a própria inflação

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

19/11/2020 04h00

A atividade econômica ainda está longe de voltar ao nível do seu último pico, ocorrido há seis anos, no segundo trimestre de 2014, e o desemprego, recorde, seria ainda maior se as condições pré-pandemia prevalecessem. Mesmo assim, economistas andam agitados, enxergando o espectro da inflação, adormecida ao longo desses tantos anos de retração, bater às portas da economia brasileira.

Incapaz de controlar seu discurso geralmente exacerbado, o ministro Paulo Guedes, recentemente, chegou a prever a volta - e rápido - da hiperinflação, se as contas públicas não se comportassem. Por seu excessos verbais, Guedes é sempre um ponto fora curva, mas considerar a inflação problemática, na atual conjuntura, não é exclusividade do ministro.

A pressão de alguns produtos específicos, mas com peso elevado no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE, caso de alimentos, deflagrou uma série de prognósticos sombrios. Há realmente produtos com preços em alta e, contaminada por eles, a inflação acelerou depois de agosto. Há três meses, a projeção para a variação do IPCA em 2020 era de 1,6%, passando a 3,2%, em novembro.

Porém, mesmo com esse salto, a inflação, terminaria o ano abaixo do centro da meta, fixado em 4%. Os núcleos de inflação, medidas que retiram do cálculo preços mais voláteis, também subiram, mas continuam longe do centro da meta. Estavam próximos a 2% ao ano, em agosto, e avançaram para pouco acima de 2,5%, em novembro. Para 2021, as projeções apontam variação do IPCA de 3,17%, para um centro da meta de 3,75%.

Além disso, há dúvidas se o que está determinando essa aceleração é uma economia aquecida, necessitada, portanto, de freios, ou se são erros de política de abastecimento da parte do governo. A segunda possibilidade é real, visto que entre os itens com preços mais pressionados - óleo soja, carnes bovinas, arroz - estão alguns dos quais o Brasil é um dos principais exportadores mundiais. É caro raro, se não único, da ocorrência de inflação doméstica em produtos vendidos em larga escala ao mercado externo.

Também a inflação, medida pela IPCA, não escapou da pandemia. Além do impacto direto do auxílio emergencial no comportamento do consumidor beneficiado, que se dirigiu para alimentos, artigos de residência e material de construção, os "lockdowns" e as regras de distanciamento social, afetaram itens da cesta de produtos e serviços que compõem o índice - alguns, principalmente em serviços, deixaram simplesmente de ser consumidos. Nos dois casos, porém, as alterações no consumo parecem indicar efeitos temporários, propensos a se dissiparem, como já vem acontecendo, com a redução dos auxílios.

A moral dessa história é que a hipótese de uma inflação em aceleração contínua, rumo a um descontrole, caso não se apliquem medidas corretivas, configura uma narrativa com objetivo de frear a economia sem base nos fatos. Esse freio cairia como uma luva nas recomendações para que seja imposto um ajuste fiscal mais radical, mas traria riscos à recuperação econômica e à reversão do elevado desemprego vigente.

Há, notadamente no mercado financeiro, quem esteja temendo pressões inflacionárias com origem no desajuste fiscal. Dificuldades em rolar uma dívida pública já pesada, e agora ainda mais engordada pelos gastos com a pandemia, estariam afetando a política de juros e, em consequência, a política cambial. As pressões fiscais sobre a taxa de câmbio seriam a antessala de altas na inflação.

Como em 2013 e 2015, volta-se a falar em necessidade de subir juros e também no limitador dessa política, a hipotética situação de "dominância fiscal" A expressão designa uma situação em que um descontrole fiscal, acelerador da dívida pública, anula os efeitos da política monetária, visando a conter a inflação.

Ao aumentar juros, para esfriar a economia e limitar a alta de preços, sob a presença da "dominância fiscal", o Banco Central acabaria elevando o custo da dívida pública, provocando aumento da inflação. No momento atual, desconfianças de que os juros terão de subir, para conter a inflação, combinadas com elevações na cotação do dólar, acabariam desaguando em mais inflação.

Trata-se, contudo, de narrativa ainda distante da realidade. Assim como preço alto, por si só, não configura inflação, altas temporárias de inflação, causadas por desequilíbrios momentâneos entre oferta e procura de produtos ou serviços, não devem servir de argumento para a adoção de políticas contracionistas da atividade econômica. Na realidade, até aqui, as razões que tornariam necessário elevar juros ainda não se apresentaram.

É nesse sentido que o risco de considerar estar a inflação caminhando para o descontrole se torna maior do que o risco da própria inflação. Primeiro, pela simples razão de que, pelo menos por enquanto, inexiste risco de descontrole da inflação. Depois porque para repor nos eixos essa hipotética inflação descontrolada, teriam de ser adotadas medidas restritivas não recomendadas para uma economia que ainda nem chegou a se recuperar dos impactos da pandemia. São, ao contrário, cada vez mais claros os sinais de que uma segunda onda, que já começa a exigir novos "lockdowns" e restrições de atividades, começa a de espraiar pelo país, tornando ainda mais incerta a perspectiva de recuperação econômica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.