Saída da Ford é só sintoma da "doença" que debilita a indústria há décadas
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O encerramento da produção de veículos no Brasil pela Ford, depois de cem anos de presença no país, causou forte comoção e deflagrou intenso debate. A busca dos erros que levaram à decisão radical da montadora viajou por razões variadas, em geral de acordo com a visão econômica de cada um dos que se dispuseram a fazer o diagnóstico. Ao mesmo tempo, as medidas de correção sugeridas se concentraram em dobrar apostas nas soluções já testadas - e fracassadas.
Basta, no entanto, olhar para a curva histórica da participação da indústria em geral no conjunto da economia para perceber que a saída da Ford é apenas uma manifestação de um problema estrutural, de uma "doença" causada por múltiplos problemas. Há pelo menos quatro décadas essa participação vem caindo.
Depois de chegar a quase 30% do total da produção brasileira em fins dos anos 80, despencou, consistentemente, até bater hoje em apenas 11% do PIB (Produto Interno Bruto), ainda que tenha dado um soluço, entre fins da década seguinte e meadas dos anos 2000, quando avançou de 15% para quase 20%. Por isso mesmo, não é culpa de um único governo ou de uma única política aplicada por este ou aquele governante.
A verdade é que a forma de produzir da indústria global sofreu profunda transformação, principalmente a partir dos anos 2000, com a formação das cadeias integradas globais de suprimento, apoiadas no desenvolvimento da internet e do transporte por contêineres. Mas o Brasil, iludido pelo tamanho aparente do seu mercado interno, ficou fora da nova onda.
No caso específico da indústria automobilística, o país também perdeu o pé tecnológico. Produz carros a combustão, movidos a gasolina ou etanol, enquanto lá fora carros híbridos e elétricos, mais eficientes e menos poluidores, avançam nas linhas de montagem. Em tempo curto, talvez não mais de 10 anos, os modelos produzidos no Brasil serão peças de museu.
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