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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desemprego sobe e só não é maior porque muitos desistiram de buscar vaga

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

30/04/2021 15h17

A situação da economia, pela lente sensível do mercado de trabalho, continua preocupante. A taxa de desemprego, medida pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, subiu mais um pouco no trimestre encerrado em fevereiro, em relação ao trimestre anterior. Os números atualizados do mercado de trabalho foram divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (30).

Ao atingir 14,4% da força de trabalho, expressando a existência de 14,4 milhões de trabalhadores sem ocupação, a PNAD indicou a maior taxa de desemprego para o período, desde o início da série em 2012. Em relação ao trimestre encerrado em fevereiro de 2020, o último antes da pandemia de covid-19, a situação do mercado de trabalho ainda é de deterioração.

Há estagnação na população ocupada, ao mesmo tempo em que se observa redução da força de trabalho, com pessoas que ficaram desempregadas ainda sem ânimo para buscar ocupação. São agora 6 milhões de trabalhadores desalentados, recorde da série, um aumento de quase 30% em relação ao mesmo grupo na pré-pandemia. Esse quadro de mercado difícil, que se reflete na queda do rendimento médio, faz com que, num aparente paradoxo, o desemprego suba em ritmo mais lento.

Chamou a atenção do economista Bruno Ottoni, pesquisador da consultoria iDados, o fato de muitos trabalhadores continuarem fora da força de trabalho. "A esta altura, já era de se esperar que a força de trabalho estivesse se recuperando mais rapidamente", diz ele. "Se o ritmo de recomposição da força de trabalho estivesse mais acelerado, a taxa de desocupação estaria mais alta.

O movimento de volta das pessoas ao mercado de trabalho segue tímido. A força de trabalho alcançou 100,3 milhões de trabalhadores, com alta de 0,7% sobre o trimestre anterior, de setembro a novembro, mas revelando ainda recuo de 5,4%, que corresponde a 5,7 milhões de pessoas a menos, na comparação com o mesmo trimestre de 2020.

Se este contingente estivesse procurando ocupação, o desemprego seria mais alto. Considerando a taxa de participação de fevereiro de 2020, ou seja, a relação entre pessoas na força de trabalho e em idade de trabalhar, naquele momento, a taxa de desemprego seria de 21,2%.

Outro indicador de que a economia não está andando em ritmo rápido o suficiente para absorver a população em idade ativa é a taxa de subutilização de mão de obra. Ela indica o percentual de trabalhadores que encontra ocupação, mas em jornadas menores do que poderiam e gostariam de trabalhar. No trimestre findo em fevereiro, quase 30% da força de trabalho se encontrava nesta situação.

O contingente de trabalhadores informais também permanece elevado, com quase 40% da força de trabalho ocupada sem vínculo de emprego. Só não aumentou, no período, porque a perda de empregos com carteira assinada foi compensada pelo aumento de trabalhadores por conta própria, mas cadastrados como pessoa jurídica.

A expectativa dos especialistas é de que a taxa de desemprego, assim como a fuga de trabalhadores da força de trabalho, aumente nos próximos meses. A previsão se apoia nas restrições de mobilidade adotadas em consequência da trajetória ainda ascendente dos casos de covid-19.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL