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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pandemia leva economia a uma situação temporária de estagflação

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

11/05/2021 16h56

Tempos de pandemia, ninguém discorda, são tempos muito anormais. Choques simultâneos de demanda e oferta causam paralisações de atividades e afetam preços. A economia afunda, mas os preços nem sempre. O nome do fenômeno anormal, mas não tão infrequente, é estagflação.

Preços podem cair porque a demanda refluiu, na esteira da limitação, compulsória ou voluntária, da movimentação de pessoas. A necessidade de desova de estoques pode levar a liquidações, com derrubada de preços.

Mas preços também podem subir porque custos de matérias-primas estão em alta nos mercados internacionais, com a recuperação mais rápida da economia em outras regiões do planeta. Ou porque ocorrem interrupções nas cadeias de suprimento, cortando a oferta. Sondagens da FGV (Fundação Getúlio Vargas) indicam que 25% das indústrias estão sofrendo dificuldades com matérias-primas, assim como 18% do comércio enfrenta problemas com fornecedores.

Pandemia, portanto, é um evento com capacidade para reduzir a atividade e provocar inflação. É, resumindo, algo capaz de criar um ambiente onde se instalem períodos de estagflação, aquela situação adversa em que, mesmo com a economia em temperatura baixa, os preços sobem. Tempos de pandemia são mesmo de anormalidades.

A inflação em abril, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o marcador de alta de preços, calculado pelo IBGE, que baliza o sistema de metas de inflação, recuou em relação a março, mas avançou em 12 meses. A variação no mês foi de 0,31%, bem abaixo dos 0,93% de março, mas mesmo assim subiu de 6,1% para 6,76%, em 12 meses.

O centro da meta em 2021 é de 3,75%, logo, em abril, a inflação estourou o teto, que é de 5,25%. Mas esses quase 7% de alta de preços é mais consequência da baixíssima base de comparação. Em 2020, no bimestre abril-maio, os efeitos deflacionários da pandemia, na economia e nos preços, estiveram no auge. O IPCA, em abril do ano passado, variou 0,31% negativos. Em maio, mais 0,38% para baixo. Nos dois meses, os preços recuaram, na ponderação do IPCA, 0,7%.

De acordo com as projeções de analistas de conjuntura que respondem ao boletim Focus, organizado semanalmente pelo Banco Central, no momento, inflação terminará 2021 com alta de 5,06%. Ficaria, assim, dentro do intervalo do sistema de metas, mas a uma pequena distância do teto.

Não é a demanda que está promovendo esta alta. Categorias do IPCA mais afetadas pela demanda - vestuário e serviços como cuidados pessoais e despesas pessoais, por exemplo - seguem com preços variando abaixo da meta. Transportes, onde combustíveis e, por conseguinte, petróleo são centrais, juntamente com preços administrados, como energia elétrica, estão dando o ritmo da inflação.

As tarifas de energia são influenciadas pelo regime de chuvas, afetando tanto os custos de produção quanto o consumo das famílias. Preços de combustíveis variam na razão direta da oscilação das cotações do petróleo no mercado internacional, pressionando preços de vastas cadeias de produção. Não é a demanda, que o BC pode tentar conter com a política monetária que maneja a taxa básica de juros, o vilão do momento. Mas o índice de difusão, que indica a percentagem de itens com variações de preços no mês, está em alta, assim como os núcleos de inflação - aquelas medidas que excluem as variações de preços excepcionais.

Para os próximos meses, a inflação mensal promete um novo pinote em maio, mas um ciclo de altas mais moderadas, abaixo de 0,3%, até o fim do ano. Em 12 meses, porém, deve ficar em torno de 7% até o último trimestre do ano. Nas previsões do economista Fabio Romão, experiente observador da movimentação de preços da LCA Consultores, o IPCA baterá nas beiradas de 8% em junho, permanecendo acima de 7% até outubro.

No resumo da história toda, a inflação ficará em alta, pelo menos por um tempo, enquanto a economia - e a demanda -, na melhor das hipóteses, tende a andar de lado. Não se trata de fenômeno estrutural, mas, mesmo que ocorra só temporariamente, derivado da pandemia, tem nome específico. O nome é estagflação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL