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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tirando fenômeno estatístico, PIB deve manter padrão baixo dos últimos anos

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

12/07/2021 17h54

Com o avanço da vacinação e o afrouxamento das restrições à mobilidade, na lei ou sem ela, dois elementos cruciais que afetam a atividade econômica, as consultorias financeiras e os departamentos de pesquisa dos bancos estão vivendo uma segunda onda de revisões dos cenários da economia. As revisões apontam crescimento mais forte do PIB (Produto Interno Bruto) e da inflação ao fim de 2021.

Será um movimento sustentável ou mais uma ilusão estatística, combinada com camuflagem inflacionária? A resposta depende do comportamento de uma variedade de fatores, a começar da possibilidade da quebra da tendência de volta à normalidade, com a disseminação, num futuro próximo, de variantes do coronavírus mais resistentes às vacinas, que exigem reforço nos esquemas de distanciamento social.

Depende também de como a projetada melhora da atividade se traduza em redução do desemprego. A absorção de mão de obra trabalhadora é fundamental para impulsionar o consumo, e este para alavancar perspectivas de investimento. Isso porque, para assegurar uma retomada mais robusta, não basta reocupar parte de uma capacidade instalada tornada fortemente ociosa pela pandemia. Projeções, em linha com as revisões de alta para a atividade, mantêm, nos casos mais otimistas, a taxa de desemprego, no ano, acima de 12%.

A marcha das previsões organizadas pelo Banco Central no Boletim Focus, para o qual são coletadas, semanalmente, estimativas de uma centena de analistas de conjuntura econômica, é uma bússola do que se pode esperar da economia, em futuro próximo. Os retratos frequentes e regulares que o Focus fornece compõem um filme em câmara lenta da evolução da economia.

PIB em alta, em torno de 6% em 2021, e inflação, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), o indicador do IBGE que baliza o sistema de metas de inflação, acima de 6%, furando o teto do intervalo em torno da meta, são as medianas das projeções publicadas na edição do Focus nesta segunda-feira (12). Destaque também para a inflação apurada pelo IGP-M, índice calculado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), mantida, no fim do ano, de acordo com as previsões, em pouco mais de 18%.

Vai na mesma direção a revisão de cenário dos economistas do Banco Itaú. Seus modelos de projeção apontam atividade econômica avançando para 6%, em 2021, com base na aceleração prevista para o terceiro trimestre, quando a vacinação estaria mais disseminada e o setor de serviços, o mais importante da economia e o mais afetado pelos bloqueios impostos pela pandemia, engataria recuperação mais acentuada.

É prudente manter no radar suspeitas de que a recuperação em curso represente mais uma volta aos baixos níveis de produção e vendas anteriores à pandemia do que uma retomada consistente e sustentável. Primeira e importante pista de falta de tração na expansão da atividade vem das projeções de crescimento para 2022.

No Focus e na maioria dos exercícios de avaliação de conjuntura, a cada alta nas previsões de crescimento em 2021 corresponde uma redução nas estimativas de expansão em 2022. Há quatro semanas, enquanto em 2021, o crescimento previsto era de 5,8%, em 2022 a evolução seria de 2,2%. No boletim mais recente do BC, a evolução projetada do PIB, no ano que vem, é de 2,09%. Ou seja, quanto a base cresce em 2020, menos a economia avança em 2022. Indicação de que o crescimento tem pouca impulsão própria.

Um levantamento da agência de informações econômicas Bloomberg, publicado no começo de julho, relacionou previsões de crescimento de economias emergentes em 2021, separando o que seria o rebote cíclico de 2020 e expansão "autônoma" de 2021. Entre 17 economias, o crescimento brasileiro, de 6%, seria menor do que em 11 outros países. Desses 6%, porém, a expansão própria em 2021 seria de 1,5%.

A ausência de um impulso de crescimento com base em investimentos, ampliando a capacidade de produção, e incorporação de mão de obra ociosa, reforçando o consumo, explicaria as projeções mais moderadas para 2022. Esse mais baixo ritmo de crescimento, em torno de 1,5% ao ano, em termos reais, reproduziria, não por coincidência, o padrão vigente depois da recessão de 2014-2016.

Ao lado de uma explosão nas cotações das commodities alimentícias e metálicas exportadas em larga escala pelo Brasil, a inflação mais alta também ajuda a camuflar um crescimento abaixo dos valores nominais, aparentemente mais animadores. A mola inflacionária engorda os níveis de vendas, elevando receitas, inclusive as dos impostos cobrados pelo governo, e alivia as restrições fiscais.

Aumento da demanda, pela liberação de atividades, em combinação com altas nas tarifas de energia e nos preços dos combustíveis, de acordo com as projeções, levariam a inflação a furar o teto da meta, em 2021, e ficar acima do centro da meta, em 2022.

O ritmo de 1,5% de crescimento real que a economia tem conseguido manter é sabidamente insuficiente para garantir um mínimo de bem-estar à população. E o fato é que, segundo todas as indicações, crescer além de 1,5% ao ano ainda é um desafio para a economia brasileira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL