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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

China desacelerando é risco maior para o mundo do que quebra da Evergrande

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

28/09/2021 11h47

Mercados de ações, moedas, juros e outros ativos financeiros, ao redor do mundo, reagiram com quedas fortes à informação de que a gigante do mercado imobiliário chinês Evergrande está em dificuldades para honrar compromissos e saldar dívidas. O temor de que estivesse começando na China um terremoto econômico como o que abalou os mercados globais na sequência da quebra do banco de investimentos americanos Lehman Brothers, em 2008, percorreu as mesas de operação e piscou na tela dos computadores dos investidores.

Isso foi há oito dias e, de lá para cá, mesmo com olhos voltados para a empresa e o mercado chinês, escassearam as notícias sobre o desenrolar dos problemas com a empresa. Na quinta-feira (23), estava previsto o vencimento de uma parcela alentada de dívidas da Evergrande, mas não ficou claro se o passivo foi honrado ou não. De todo modo, os mercados se recompuseram, embora tenha se instalado, a partir da chacoalhada chinesa, um clima de instabilidades e volatilidades que ainda não se dissipou.

Há, entre os especialistas, uma profusão de hipóteses sobre como o governo da China vai procurar administrar a crise de uma das líderes do imenso mercado imobiliário chinês - na verdade, uma crise de dívida de todo um poderoso setor, que responde por quase um terço da produção da segunda maior economia mundial. Mas há consenso de que não se repetirá a contaminação econômica global registrada na crise da dívida, na economia americana, que tem como ponto simbólico a quebra do Lehman Brothers, justamente no mês de setembro, há 13 anos.

O que faz a diferença não é o modo de funcionamento do sistema capitalista vigente nos Estados Unidos, Europa e boa parte do resto do mundo, em relação ao sistema comunista que vigora na China. O comunismo chinês é, hoje em dia, bastante permeado por modos de produção capitalistas, mas com forte e ampla presença estatal na economia. Não residindo exatamente no sistema econômico, a diferença entre o capitalismo ocidental e o comunismo chinês se localiza no regime político. A China é uma ditadura de partido único, na qual o PCC (Partido Comunista Chinês) exerce controle rígido sobre a sociedade e os negócios em geral.

O desmonte de crises empresariais em grandes conglomerados obedece a um padrão de intervenção do Estado. Um desses casos foi o do conglomerado da área de seguros e serviços financeiros Anbang. Com mais de 30 mil funcionários, o grupo empresarial passou por uma investigação que resultou na prisão de seu fundador, em 2017. A empresa foi estatizada no ano seguinte.

Outros impérios empresariais chineses, como o HNA, conglomerado do setor de aviação, turismo e logística, e a Dalia Wanda, multinacional com negócios nos setores da construção, entretenimento, saúde, mídia e esportes, também sofreram intervenções em anos recentes. Atolados em dívidas, reflexo de expansões aceleradas na China e no exterior, foram desmembrados pelo governo e forçados a reduzir de tamanho.

As atribulações da Evergrande, segundo o economista Lívio Ribeiro, pesquisador do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas) têm origem num processo semelhante de desalavancagem financeira. Desde o terceiro trimestre de 2020, o governo chinês tem comandado sucessivas rodadas de aperto na regulação das companhias muito endividadas.

No caso da crise dos "subprimes", títulos de dívida sem lastro e de risco, que levou ao colapso do Lehman Brothers e de outras instituições financeiras ao redor do mundo, o esquema envenenado se baseava numa ciranda, quase uma pirâmide, em que camadas de hipotecas, de imóveis não quitados, lastreavam sucessivos financiamentos imobiliários. Era uma como uma bicicleta que não podia deixar de rodar, para não cair.

Também a Evergrande, assim como outras empresas muito endividadas na China, sobretudo no setor imobiliário, pôs uma bicicleta para rodar, como no caso do problema de origem da crise global de 2008. A operação das companhias se ampara em giro financeiro alto e alavancagem elevada. A venda de um novo empreendimento gera os recursos para pagar o financiamento de anteriores. É atividade arriscada, que depende do funcionamento sem falhas de uma engrenagem complexa.

Semelhanças do caso Evergrande com o do Lehman Brothers terminam aí. Na crise 2008, o forte aquecimento registrado no mercado imobiliário teve como origem não a compra de residências para moradia, mas como veículo de especulação financeira. Na China, o mercado imobiliário se caracteriza por elevado nível de pré-pagamentos e baixa exposição das famílias a financiamentos e hipotecas, com interesse concentrado nos imóveis moradia, não em ganhos financeiros.

Além de intervir para estancar a bola de neve do endividamento das empresas no setor imobiliário, as autoridades chinesas também estão atuando em outras pontas do problema. Por exemplo, cerca de 800 unidades inacabadas da Evergrande deverão ser concluídas por outras construtoras, evitando com isso instabilidades sociais. Além disso, se protestos de compradores lesados ocorrerem, como em outras ocasiões, serão reprimidos, inclusive com ameaça de prisão dos manifestantes e com censura de notícias dos conflitos na imprensa.

Medidas de contenção da crise podem ser efetivas, evitando contágios para bancos locais e investidores internacionais. Mas não têm o condão de evitar um abalo da confiança no mercado imobiliário e daí para o restante da economia chinesa. Na sexta-feira (24), em sua coluna no jornal "The New York Times", o economista e Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman relacionou a atual crise de endividamento na China com o estouro da bolha de dívidas no Japão, há mais de três décadas.

Krugman chama a atenção para o longo período de baixo crescimento do Japão desde então. No "Blog do Ibre", Livio Ribeiro estima que a economia chinesa crescerá 8,3%, em 2021, e 5,2%, em 2022, com viés de baixa para o ano que vem. Para o economista, além das dificuldades para dinamizar o consumo doméstico, o "avanço da agenda regulatória" conspira na direção de frear a expansão econômica como um todo.

A China, tudo indica, conseguirá evitar o contágio financeiro da sua crise de endividamento, puxada pelo colapso da Evergrande. Mas pode estar deixando para trás o longo período de "crescimento chinês" em sua economia. Para o resto do mundo, em especial para o Brasil, que tem na China seu grande mercado exportador de commodities alimentícias e metálicas, esse é o grande - e real - risco.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL