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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Escalada da inflação leva a onda de revisões mais pessimistas para economia

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

10/11/2021 18h01

Uma onda de revisões mais pessimistas para os principais indicadores da economia foi deflagrada depois dos resultados da alta de preços no mês passado. O gatilho para essas revisões é o reforço da convicção de que o Banco Central acelerará o passo dos reajustes na taxa básica de juros (taxa Selic), na tentativa de conter a escalada inflacionária.

A inflação, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), em outubro, subiu outra vez mais forte do que as previsões. O índice apresentou a maior variação no mês desde 2002, subiu 1,25%, contra previsões de 1,06%, e foi a 10,67%, em 12 meses. A inflação em 2021 deverá fechar acima de 10%, ficando muito acima do teto do intervalo fixado para a meta de inflação no ano, de 5,25%. Para 2022, as projeções também apontam inflação acima do teto da meta de 3,5%, fechando entre 5% e 6%.

Ganhou espaço entre as projeções dos analistas a expectativa de que o BC decida por duas elevações consecutivas de 2 pontos percentuais, em dezembro e fevereiro, encerrando o ciclo de altas em março. Se a expectativa se confirmar, a Selic terminaria 2021 em 9,75% nominais ao ano e fecharia o ciclo acima de 13%, voltando aos níveis registrados nos primeiros anos do atual ciclo de baixo crescimento, entre 2015 e 2017.

Com a taxa básica mais elevada, as projeções para o crescimento da economia também foram negativamente afetadas. Para 2021, a alta do PIB (Produto Interno Bruto) está convergindo para 4,5%, o que significa prever que atividade vai se arrastar, se não retroceder, no terceiro e no quarto trimestres do ano. A recuperação cíclica, em resumo, indica que terá fôlego curto.

A perda de tração prevista para a virada do calendário também empurra para baixo as estimativas para a expansão econômica em 2022. No Boletim Focus, que mostra em câmara lenta e em conta-gotas a evolução das projeções, a variação do PIB no ano que vem estava em 1% antes da inflação salgada de outubro. A tendência é de que recuem para 0,5%, mas projeções que formam opinião no mercado financeiro, como as do Banco Itaú, já apontam recessão de 0,5% no ano eleitoral.

Tem chamado a atenção a sucessão de erros dos analistas nas projeções das variações do IPCA. São erros de razoável magnitude e sempre subestimando o resultado divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Para economistas fora do mercado financeiro, a explicação poderia ser localizada na deficiência dos modelos de previsão que estão sendo utilizados.

"Há, entre os analistas de mercado, uma percepção de que a causa das altas da inflação se deve, principalmente, a questões fiscais", diz a economista Julia Braga, professora da UFF (Universidade Federal Fluminense) e especialista em análise de conjuntura. Apesar dos desarranjos na área fiscal, com destaque para os dribles no teto de gastos, aplicados pelo governo, em associação com a liderança da Câmara dos Deputados, Julia Braga lembra que pressões inflacionárias começaram a se acumular bem antes, a partir de 2019.

"A taxa de câmbio, antes de ser afetada pelo chamado risco fiscal, já vinha sendo pressionada pela aversão a investimentos na economia brasileira, o que só tem se acentuado", avalia a economista. Segundo ela, a inflação atual é resultado do câmbio, ma não só.

Cotações em alta das commodities, principalmente as energéticas, combinadas com a política de preços da Petrobras, que acompanha estritamente a evolução do mercado internacional, ocupam a primeira linha das pressões inflacionárias. Tarifas mais pesadas de energia, em resposta à crise crise hídrica, também entram na receita, enquanto problemas de suprimento das linhas de produção industrial, restringindo a oferta, completam o quadro.

A narrativa de que furos no teto de gastos, para acomodar o programa Auxílio Brasil, ou a concessão de nova rodada de auxílio emergencial, como plano alternativo, aquecerão a demanda, abrirão maiores rombos fiscais e impulsionarão a inflação, na visão de Julia Braga, precisaria ser mais convincente. "Na primeira rodada do auxílio, aquele de R$ 600 mensais, a atividade aqueceu, mas a inflação continuou bem comportada", lembra a economista. Além disso, a situação fiscal concreta, pelo menos no curto prazo, é de aumento da arrecadação e queda nas despesas públicas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL