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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Inflação, temor sobre gastos e Bolsonaro pioram ambiente de negócios e PIB

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

02/12/2021 11h19

O ambiente de negócios não é tudo, mas é quase tudo para a atividade econômica. Em 2021, o ambiente de negócios brasileiro mostra claros sinais de deterioração desde meados do primeiro semestre. Essa a explicação mais geral e completa para o recuo de 0,1% no PIB (Produto Interno Bruto), entre julho e setembro, na comparação com segundo trimestre, conforme divulgou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), nesta quinta-feira (2).

A retração no terceiro trimestre aprofunda o recuo da atividade em 2021, depois de um impulso nos primeiros três meses do ano. Ao divulgar o PIB do terceiro trimestre, o IBGE também revisou números anteriores, apontando que a queda no segundo trimestre foi de 0,4% - e não de 0,1% como divulgado em setembro.

Assim, do avanço de 1,3% no primeiro trimestre (revisado de 1% na divulgação à época), os dois trimestres seguintes já comeram perto de um terço dos ganhos no ano. O novo quadro revelado pelo IBGE, que soma dois trimestres consecutivos de recuo, e, portanto, pode ser classificado como de "recessão técnica", levará a alterações para baixo nas projeções para o crescimento em 2021 e 2022, convergindo para expansão inferior de 4,5%, neste ano, e para o entorno de zero, no ano que vem.

As estimativas, de fato, indicam que as perspectivas não são animadoras para o último quarto do ano. As previsões são de mais um período de estagnação, com reduzido impulso para 2022, até aqui estimado nas vizinhanças de 0,5%. De 2020 para 2021, esse impulso foi de 4,9%, já em parte desperdiçado pelos recuos registrados a partir do segundo trimestre. Vale lembrar que nas revisões efetuadas pelo IBGE, a contração da economia no conjunto de 2020 foi de 3,9% - inferior aos 4,1% até aqui divulgados.

Depois dos resultados do terceiro trimestre, as projeções de contração para o PIB de 2022 devem ganhar corpo. A reversão dessa tendência ficará na dependência do volume de recursos públicos que serão injetados pelo governo na economia, em ano eleitoral.

A piora no ambiente de negócios tem relação com a escalada inflacionária que fez o Banco Central reagir, justamente a partir do segundo trimestre, com longo, forte e ainda não concluído ciclo de alta nas taxas básicas de juros. O aperto nas condições financeiras completou o cenário de elevação de riscos, alimentado também por temores de descontroles fiscais. Nesse quadro de deterioração do ambiente de negócios é preciso considerar ainda as instabilidades políticas, das quais derivam incertezas sobre o horizonte econômico, frequentemente produzidas pelo próprio presidente Bolsonaro.

Apesar dos problemas na aferição do comportamento dos investimentos na economia brasileira - valores somente contábeis na importação de plataformas de petróleo, por exemplo, têm afetado os números -, essa piora no ambiente de negócios é determinante no retardamento das decisões de investir recursos na ampliação de negócios ou mesmo na renovação dos bens existentes e na revisão de processos de produção para torná-los mais produtivos. Não é coincidência que os investimentos tenham recuado nos dois últimos trimestres do ano.

Com ambiente de negócios menos favorável, era natural que ocorresse uma freada no impulso de recuperação que vinha dos últimos meses de 2020. Os números do terceiro trimestre retratam bem esse quadro de perda de tração da retomada que se esboçou depois do mergulho causado pelo primeiro choque da pandemia, projetando um cenário de baixo crescimento, influenciado por uma economia na retranca.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL