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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Revolução silenciosa' de Guedes na economia só se for em marcha à ré

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito ?Jornalista Econômico de 2015? pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

18/02/2022 15h28

Papel aceita tudo e microfone mais ainda. O ministro da Economia, Paulo Guedes, já ninguém tem dúvidas, é um compulsivo locutor de narrativas fora da realidade. Diante de um microfone, Guedes não considera qualquer compromisso com os fatos.

Em reunião do G-20, o fórum internacional que reúne as maiores economias do mundo, nesta quinta-feira (17), Guedes fez uma apresentação, gravada em vídeo, falando maravilhas da economia brasileira no governo Bolsonaro. Resumiu os "avanços" que ele mesmo teria propiciado aos brasileiros, no comanda da política econômica, como nada menos do que uma "revolução silenciosa".

Guedes voltou a encher o peito para dizer que os analistas erraram na projeção da queda da economia em 2020. Acrescentou que a recuperação de 2021 retomou o nível do PIB (Produto Interno Bruto) pré-pandemia, o que só oito países do G20 conseguiram.

Também comemorou a criação de três milhões de empregos com carteira assinada e o preenchimento de seis milhões de vagas informais, em 2021, fazendo com que a taxa de desemprego ficasse abaixo dos números pré-pandemia. O ministro não se esqueceu de destacar a redução do gasto público e dos déficits fiscais, no ano passado.

É certo que, como ensinou o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, já lá se vão 27 anos, é rotineiro autoridades "faturarem o que é bom e esconderem o que é ruim". Mas Guedes exagera.

A economia recuou menos do que o inicialmente previsto, em 2020, porque um auxílio emergencial de grandes proporções, decidido pelo Congresso à revelia do governo, evitou um mergulho maior da atividade. Ainda assim, a queda foi de 3,9%, e a recuperação cíclica ocorrida em 2021, quando o PIB, segundo projeções, deve ter avançado pouco acima de 4,5%, compensou o tombo do ano anterior, mas não com fôlego para segurar a volta à estagnação em 2022.

Isso sem mencionar a inflação, que voltou aos dois dígitos, chegando a 10,06%, pela primeira vez desde 2015, um dos anos do péssimo segundo mandato de Dilma Rousseff. Passou por cima do fato de que a inflação impulsionou a arrecadação e ajudou a melhorar as conta públicas. Nem muito menos se dignou a explicar como, com tantos "avanços", registrou-se aumento do número de pessoas em situação de fome e de brasileiros nos estratos de pobreza em 2021.

Nesse "mundo encantado" de Guedes, metade dos domicílios vive o cotidiano de algum tipo de insegurança alimentar, aumento de mais de 50% em relação à situação de 2018. Cerca de 20 milhões de cidadãos, no Brasil de hoje, esse da "revolução" de Guedes, passam fome.

Também aumentou, no governo Bolsonaro, o número de pessoas em extrema pobreza. Estes somavam 11% da população em 2019, mas, com com o auxílio emergencial, que beneficiou mais de 70 milhões de brasileiros com quase R$ 300 bilhões em 2020, recuaram para menos de 5%. Em 2021, porém, quando os auxílios minguaram, ajudando a reduzir o déficit público, a camada de brasileiros na miséria voltou a subir, para 13% da população, acima, portanto, da situação pré-pandemia.

No mercado de trabalho, o ministro comemora algo que, com boa vontade, pode-se classificar apenas como "menos pior" do que estava antes de Bolsonaro assumir e Guedes se tornar o super-ministro que já não é mais. As vagas formais criadas, por exemplo, estão longe de compensar um mercado de trabalho anêmico, principalmente em razão do prolongado baixo crescimento da economia.

É verdade que de 38,5 milhões de postos com carteira assinada em 2020, evoluiu-se para 41,2 milhões, em 2021. Mas o volume alcançado no ano passado ainda está muito longe dos perto de 50 milhões de empregos formais registrados em 2015 e mesmo dos 47,5 milhões de 2019.

Mesmo com a retomada do setor de serviços, o que mais emprega mão de obra menos qualificada, em razão do avanço da vacinação que o governo Bolsonaro sabota, a taxa de desemprego ainda esta na casa dos 12% da força de trabalho, acima dos 11% de 2019. Além dos números absolutos insuficientes, a situação qualitativa do mercado de trabalho é hoje bem pior do que há alguns anos.

É dramático constatar que um terço dos desempregados não encontra ocupação há mais de dois anos. Quase metade da mão de obra ocupa vaga informais, refletindo a precarização do mercado de trabalho. Não por coincidência, o rendimento médio habitual no conjunto do mercado de trabalho é o menor desde 2012.

Guedes menciona ainda programas de crescimento verde e a manutenção de compromissos de preservação ambiental assumidos no Acordo de Paris e na Cop-26. Mas o fato é que o desmatamento avança, principalmente na Amazônia, com o incentivo do governo Bolsonaro, que estimula a ação ilegal de madeireiros e garimpeiros, inclusive em territórios indígenas.

Há registros de que o desmatamento na Amazônia, em 2021, foi o maior dos últimos 10 anos, com a devastação de mais de 10 mil quilômetros de mata nativa. Trata-se de um aumento de quase 30% em relação à cobertura existente em 2020.

Tudo considerado, a "revolução silenciosa" pela qual o país está passando, segundo Guedes, só pode ser uma revolução silenciosa em marcha à ré batida.

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