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1,06 Abr.2022
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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Recorde de inflação e de dívida em atraso aumenta mal-estar dos brasileiros

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito ?Jornalista Econômico de 2015? pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

12/05/2022 09h36

A inflação voltou a bater recordes em abril, com o índice mensal mais alto para o mês em 26 anos. No acumulado em 12 meses, passou de 12%. Pelas projeções atualizadas mais confiáveis, a variação mensal do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) vai dar uma aliviada a partir de agora, rodando em torno de 0,5% ou um pouco mais até o fim do ano, mas chegará ao fim de 2022 ainda na altura de dois dígitos.

O problema da inflação não é só seu atual nível elevado. A alta de preços também está disseminada entre os bens e serviços como nunca esteve. Perto de 80% dos itens que compõem a cesta do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) sofreram aumentos, em abril. Quase todos os preços estão aumentando.

Pior ainda do que isso é que a pressão mais forte vem de dois itens — combustíveis e alimentos — que são bens essenciais. A possibilidade de substituí-los, se existe, é mínima. Isso significa que, quando os preços desses produtos aumentam, a demanda por eles não diminui. O resultado é que mais recursos do orçamento são consumidos por esses bens, sobrando menos para os restantes.

Até março, havia um terceiro elemento, a energia elétrica, no topo das pressões inflacionárias, que tornava a administração do orçamento doméstico ainda mais complicada. Mas, com a regularização das chuvas, e a substituição da bandeira de escassez hídrica pela bandeira verde, esse item também essencial dará uma folga no orçamento.

Esse alívio, assim como um pouco em combustíveis ao longo dos próximos meses, não será suficiente para tornar menos aguda a perda de poder aquisitivo e as restrições orçamentárias. A compressão da renda disponível para outros itens que não os essenciais tem provocado um crescente mal-estar nas famílias, mesmo naquelas em que a maior preocupação é se haverá amanhã um prato de comida na mesa.

Indicação concreta desse mal-estar pode ser encontrada nos atuais índices recordes de endividamento e de inadimplência. Quase 80% do total de famílias carregavam dívidas, em abril. No levantamento sistemático feito pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), este é o pico da série histórica iniciada em 2010. O mesmo levantamento aponta que 30% das famílias endividadas estão em atraso no pagamento da dívidas. Também é o nível máximo da série, em 12 anos de apuração desses dados.

Não há uma explicação única para esses recordes, mas uma boa hipótese é de que o endividamento reflete uma extensão natural do aperto orçamentário. Na luta para manter o padrão de vida, diante da perda de poder aquisitivo, as famílias recorrem a empréstimos, mas, como a situação continua crítica, o vazamento para a inadimplência se torna inevitável.

Para a população mais pobre, em que o acesso a bens e serviços já é precário, a inflação de alimentos pode ser o limiar da insegurança alimentar e, no extremo, da fome. Não é coincidência que o número de pessoas em situação de insegurança alimentar e fome esteja aumentando.

Para as famílias acima da linha da pobreza, hoje às voltas com mais duras batalhas cotidianas na defesa do orçamento doméstico, a situação pode não ser tão dramática. Mas a sensação de mal-estar, não sem razão, se amplia e domina o ambiente.