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Mariana Londres

REPORTAGEM

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Governo não desistiu de mudar meta de inflação, mas isso baixa juro mesmo?

 Ministro da Economia, Fernando Haddad, preside o CMN - 9.jan.2023 - Adriano Machado/Reuters
Ministro da Economia, Fernando Haddad, preside o CMN Imagem: 9.jan.2023 - Adriano Machado/Reuters

Do UOL, em Brasília

16/02/2023 04h00

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Apesar de o ministro Fernando Haddad ter afirmado que a discussão de elevar a meta de inflação não está na pauta do CMN (Conselho Monetário Nacional) desta quinta-feira (16), isso não significa que o governo tenha desistido de elevar a meta.

O cenário que se desenha, de acordo com o que apurei com fontes do governo e do mercado, é que a discussão do tema seja pautada para uma das próximas reuniões do colegiado, mas apenas após Haddad ter apresentado o desenho da nova regra para o controle das contas públicas, o chamado arcabouço fiscal, que agora ele promete para março.

Depois de uma semana bélica de ataques de Lula aos juros e ao Banco Central, passando pela defesa de elevar a meta de inflação, o presidente Lula transferiu aos seus aliados mais próximos no Congresso a tarefa de atacar a taxa de juros de 13,75% ano ano. O presidente partiu para uma agenda positiva de relançamento do Minha Casa Minha Vida, anúncio da elevação do salário mínimo e uma discreta correção da tabela do Imposto de Renda, deixando, portanto, o ringue de luta em ele havia entrado por vontade própria. Mas o debate sobre a elevação da meta de inflação e a redução dos juros continua.

Para o economista Leonardo Costa, da Asa Investments, o governo ainda deve tentar elevar a meta nas próximas reuniões do CMN.

Em evento do BTG Pactual, outros três economistas do mercado, Rogério Xavier, da SPX Capital, Luis Stulhberger, do Verde, e André Jakuski, da JGP Capital, não apenas disseram que a discussão da elevação da meta é cabível, como defenderam uma meta mais realista (ou seja, mais elevada).

Na terça-feira (14), depois de reuniões de Haddad com Lula sobre a questão da meta, os operadores do mercado financeiro receberam a informação em seus terminais de que Lula defendia a elevação da meta de inflação em 2023 em um ponto, para 4,25%. Com isso os juros futuros subiram, e Haddad chamou a imprensa para dizer que a elevação da meta não entraria na discussão do CNM desta quinta.

Mas elevar a meta de inflação vai derrubar os juros?

Economistas com quem conversei dizem que não necessariamente. Elevar a meta ajudará o Banco Central a cumprir a meta, mas não há relação de causa e efeito em relação aos juros. Outros países, que como o Brasil sofrem com os choques inflacionários pós-pandemia e guerra, promoveram discretas alterações na meta de inflação. A discussão sobre elevar a meta, portanto, é normal.

O que poderia ajudar a baixar os juros?

Para Leonardo Costa, da Asa Investments, a primeira coisa que ajudaria a reduzir os juros pela parte do governo (além da avaliação técnica de inflação e outros indicadores feita pelo BC) será a apresentação da nova regra fiscal, e claro, que o desenho desse marco seja considerado eficaz para manter a dívida pública em patamar aceitável.

Haddad já se comprometeu a antecipar a apresentação do novo marco fiscal. Outros pontos que ajudariam a reduzir juros são: avaliar o ambiente externo e conhecer o impacto do fim das desonerações na inflação. Então nessa ordem: 1) fiscal 2) internacional 3) inflação doméstica.

Por que é melhor discutir a meta de inflação depois da nova regra fiscal?

O mercado quer saber como que o governo, que já mostrou que irá elevar gastos, fará para evitar uma explosão da dívida.

Se a discussão sobre as metas de inflação não for antecipada, em junho o Conselho Monetário Nacional (CMN, formado pelos ministros da Fazenda, Planejamento e presidente do Banco Central) irá estabelecer a meta de 2026.

Mas nada impede que o presidente do CMN, ministro Fernando Haddad, paute a discussão antecipadamente. Também nada impede que se alterem as metas vigentes, de 2023, 2024 e 2025.

Quando os juros podem ser alterados e quem define os juros?

A próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) para definir a taxa de juros será nos dias 21 e 22 de março. Depois disso, os encontros acontecem em maio, junho, agosto, setembro, final de outubro e dezembro.

Os juros podem ser mantidos ou alterados, de acordo com a avaliação técnica do comitê a partir de dados de inflação, câmbio, atividade econômica e etc. A expectativa dos agentes do mercado expressas no Boletim Focus é que os juros terminem 2023 em 12,75%, em 2024 em 10%, em 2025 em 9% e caiam para 8,5% apenas em 2026.