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Observadores de avião passam fome, sede e risco de prisão para fazer fotos

Spotters durante ação no aeroporto de Guarulhos: Prática de observar aeronaves existe em vários locais do mundo - Alexandre Saconi
Spotters durante ação no aeroporto de Guarulhos: Prática de observar aeronaves existe em vários locais do mundo
Imagem: Alexandre Saconi

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

09/04/2023 04h00

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Fanáticos por aviões rodam pelo mundo todo atrás de fotos. Passam fome, sede e até risco de prisão para conseguir as imagens. Eles também são chamados de "plane spotters" (observadores de aviões).

Como é o hobby de fotografar aviões?

A busca de fotos de avões é chamada de "spotting". Consiste em observar aeronaves e fazer o registro fotográfico delas. Algumas pessoas chamam esses fotógrafos de "paparazzi de avião".

Existem vários interesses dos "spotters". Alguns preferem aviões civis, outros, aeronaves militares, e ainda há quem goste de helicópteros, por exemplo.

A prática pode lembrar uma coleção de figurinhas. Há "spotters" que têm como meta fotografar todos os aviões de um mesmo modelo ou de uma mesma empresa, por exemplo.

Atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos dificultaram a prática. Por motivos de segurança, o acesso as áreas dos aeroportos ficou mais difícil.

Fotografia digital popularizou o "spotting". Com câmeras mais baratas, mais pessoas começaram a registrar aeronaves.

Como começou a mania?

Alguns relatos remetem à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mas não há certeza. Cidadãos observavam os céus em busca de aviões como medida de segurança e se proteger de ataques.

A prática se modernizou com o passar dos anos. Nas décadas seguintes, com a popularização de câmeras fotográficas, os "spotters" passaram a ter acervos cada vez maiores.

Famoso "spotter" quase foi preso várias vezes

panda - Acervo pessoal/Gianfranco 'Panda' Beting - Acervo pessoal/Gianfranco 'Panda' Beting
Gianfranco 'Panda' Beting tem um dos maiores acervos fotográficos de aviões de vários locais mundo afora
Imagem: Acervo pessoal/Gianfranco 'Panda' Beting

Gianfranco "Panda" Beting, 59, é um dos spotters mais notórios do Brasil. Consultor de aviação e Publisher da revista Flap Internacional, dedicada à aviação, ele começou a fotografar aviões em 1975 com uma câmera Olympus Pen.

Seu acervo chega a 870 mil fotos. Cada uma é catalogada de uma maneira especial.

Analógicas: São separadas por região, empresa e tipo de aeronave, todas armazenadas em um local escuro com controle de umidade e temperatura.

Digitais: São 14 terabytes em diversos HDs externos, com cinco cópias cada um em dois endereços físicos distintos, para proteger o material em caso de incêndio ou roubo.

Fotos com mais qualidade começaram a ser feitas a partir de 1981. O motivo foi a compra de uma câmera Canon AV-1. Hoje usa uma câmera Nikon Z-9.

O consultor quase foi preso várias vezes para conseguir um bom clique. Isso aconteceu em aeroportos no México, Saint Louis (Missouri, EUA) e Roma (Itália).

Passei sede, fome, frio, medo, insolação e congelamento. Fotografei em escada de incêndio, pântanos, pastos, cemitérios, linhas de trem, galerias de águas pluviais, passarelas de pedestre, escorregador de parque infantil, escada de emergência, aluguei lancha somente para fazer spotting, de helicópteros e outros aviões. Foram os melhores momentos da minha vida!"
Gianfranco "Panda" Beting

Aeroportos incentivam

spotter - Divulgação/Rede Voa - Divulgação/Rede Voa
Espaço na cerca do aeroporto de Jundiaí preparado pela Rede Voa para uso de spotters
Imagem: Divulgação/Rede Voa

Diversos aeroportos mundo afora incentivam a prática. Um deles é o aeroporto de Zurique, na Suíça.

O local oferece apoio para os amantes da aviação. São vários espaços dedicados para observar e fotografar as aeronaves, além de guias online que orientam como fazer isso.

O aeroporto de Guarulhos (SP) também incentiva os "spotters". A administração do local realiza eventos esporadicamente nos quais é possível fotografar aviões, inclusive de dentro de áreas restritas.

Quem quiser participar deve se cadastrar no mailing de "spotters" do GRU Airport. A partir dessa lista, os interessados poderão se inscrever nos sorteios para participarem dos próximos eventos.

A rede Voa também conta com locais dedicados a "spotters". A administradora de vários aeroportos no estado de São Paulo tem estruturas dedicadas à prática, com buracos nas grades de proteção para os fotógrafos encaixarem as lentes.

O aeroporto de Viracopos (Campinas) também tem local para o hobby. Ele fica ao lado do hangar da companhia aérea Azul.

Como começar no "spotting"?

Equipamento fotográfico: Não é necessário ser o mais caro, mas lentes que captam à longa distância podem ajudar bastante.

Comunidade: Siga comunidades e outros "spotters" nas redes sociais para estar por dentro do assunto.

Informe-se: Busque informações sobre os melhores locais e eventos para "spotters". Muitos se reúnem em grupos para participar de eventos, por exemplo.

Mochila recheada: Como a prática ocorre muitas vezes ao ar livre, é importante se preparar. Leve água, uma refeição leve e protetor solar.

Divirta-se: Mais importante do que seguir um manual, é sentir prazer com a atividade, seja para divulgar as fotos ou ter um acervo particular.