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Quando a Bolsa desaba, desemprego pode subir e comida pode ficar mais cara

Ricardo Marchesan

Do UOL, em São Paulo

13/03/2020 13h16

O derretimento do Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, é uma péssima notícia para quem investiu seu dinheiro lá. Mas o tombo histórico dos últimos dias não prejudica só quem tem ações.

A Bolsa está diretamente ligada à economia do país e do mundo. Quando ela desaba, isso pode ter consequências negativas até no dia a dia de quem nem sabe como a Bolsa funciona. Por exemplo, o desemprego pode aumentar e a inflação, acelerar, tornando os produtos no supermercado mais caros.

Aumento do desemprego

O mercado de ações nada mais é do que um mercado de empresas, explica Estevão Alexandre, coordenador de pós-graduação da Fipecafi. Quem entra na Bolsa investe dinheiro nessas empresas. No Ibovespa, a principal empresa é a Petrobras.

O tombo da Bolsa reflete a piora das expectativas de grandes investidores, que passam a esperar um crescimento menor da economia brasileira neste ano, disse o economista Alexandre Cabral.

De uma forma geral, as empresas que estão listadas na Bolsa têm um desaquecimento, vendem menos e tendem a investir menos. Com menos vendas, a produção também cai, e as empresas podem passar a demitir, aumentando o desemprego.

"Acaba afetando gente que não tem nada a ver com a Bolsa", afirmou Cabral.

Preços mais altos no supermercado

O professor da Fipecafi também afirma que o desaquecimento da economia brasileira faz os investidores procurarem opções mais seguras, como títulos públicos do governo dos Estados Unidos.

"Está saindo muito dinheiro do Brasil, o que aumenta a cotação do dólar", disse. "Isso impacta diretamente vários setores, como consumo, por exemplo."

Uma disparada do dólar, como a que tem sido vista nas últimas semanas, tem efeitos positivos para exportadores, por exemplo. Mas no mercado interno, ela pode acelerar a inflação, um antigo fantasma dos brasileiros.

A maioria dos produtos industrializados vendidos no Brasil é importada, diz Alexandre Estevão. Mesmo os que são feitos em fábricas brasileiras, como aparelhos eletrônicos ou carros, por exemplo, usam muitos componentes importados.

Até alimentos podem subir. O Brasil importa muito trigo, usado na produção do pão francês, das massas etc. Como o trigo é considerado uma commodity (matéria-prima), sua cotação é definida no mercado internacional, em dólar. Se o dólar sobe, o preço do trigo também sobe, o que encarece a sua importação.

Café, soja, suco de laranja e algumas frutas são outros alimentos que também têm cotação no mercado internacional podem subir no Brasil devido à alta do dólar.

Há alimentos que não são cotados em dólar, mas que também podem ficar mais caros. Muitas matérias-primas usadas em produtos necessários à agricultura brasileira são importadas —é o caso dos fertilizantes.

Em meio a uma crise de saúde pública, com o coronavírus, os remédios também podem subir, visto que muitos deles são importados ou produzidos aqui com componentes vindos de fora.

Petrobras afetada

Uma das causas do tombo da Bolsa nesta semana foi a queda nos preços do petróleo por causa de uma disputa entre Arábia Saudita e Rússia. A disputa, por sua vez, tem a ver com o novo coronavírus, que reduziu o consumo de combustíveis.

Quando o preço do petróleo cai, a lucratividade da Petrobras sofre o impacto. "Os investidores, então, saem dessas ações e vão para outros mercados", afirma Estevão Alexandre.

Com menos dinheiro, a Petrobras, maior empresa brasileira, fica também com menos capacidade de investimento. Menos investimento significa menos dinheiro na economia.

Bancos emprestam menos

Quatro dos cinco maiores bancos do Brasil estão na Bolsa: Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.

Em um cenário de crise e queda das ações, bancos tendem a segurar o crédito oferecido ao mercado. "Já há bancos que fecharam a torneira em relação a crédito", afirmou o coordenador da pós-graduação da Fipecafi.

Com menos crédito, as empresas investem menos. É menos dinheiro circulando, menos consumo e menos emprego no país.

Além disso, segundo o professor, em momentos de crise, bancos tendem a aumentar o spread bancário —a diferença entre os juros que os bancos pagam quando você investe seu dinheiro e os juros que cobram quando você faz um empréstimo. O aumento do spread pode levar ao encarecimento do crédito.

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