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Empreendedorismo

Ele saiu da periferia, ganhou 100 mil euros e agora encara crise na Europa

O empresário Edgard Marcondes é dono da agência de intercâmbio Let"s Go World, que faturou 100 mil euros em 2019 - Divulgação
O empresário Edgard Marcondes é dono da agência de intercâmbio Let's Go World, que faturou 100 mil euros em 2019 Imagem: Divulgação

Claudia Varella

Colaboração para o UOL, em São Paulo

13/02/2021 04h00

De família simples da periferia de São Paulo, Edgard Marcondes aos 14 anos tinha um sonho: fazer intercâmbio e conhecer o mundo. Aos 25 anos, em 2013, já casado com Geisa, juntou as economias e viajou para a Irlanda, com 4.500 euros (R$ 29,3 mil) no bolso. Em poucas semanas, ele abriu a Dublin Bike Shop, um negócio informal de venda e conserto de bicicletas, na capital irlandesa. Depois vendeu cursos de intercâmbio para uma escola, até montar a sua própria agência de intercâmbio, em 2015: a Let's Go World.

Desde 2018, Marcondes mora em Portugal, para onde transferiu a sede de sua empresa. O faturamento da Let's Go World foi de 100 mil euros (R$ 663 mil) em 2019. O lucro foi de 20 mil euros (R$ 132,6 mil).

No ano passado, por conta da pandemia, os negócios da Let's Go World praticamente caíram para zero. Marcondes, no entanto, aproveitou para abrir mais uma empresa —a Let's Go Study, escola de cursos online profissionalizantes. Em setembro de 2020, abriu a Associação Internacional Hub, para auxiliar outros empreendedores que queiram abrir negócios em Portugal.

Constatamos que Portugal é o país mais fácil e mais barato para empreendedores conseguirem o visto de residência na Europa.
Edgard Marcondes, dono da Let's Go World

Pai empreendedor vendia carteiras escolares

Sua infância não foi fácil. Sonhando em ser empreendedor, o seu pai, Edgard, largou um emprego de desenhista projetista em uma fabricante de trens para, com a rescisão, montar seu próprio negócio: uma fábrica de móveis tubulares (cadeiras, mesas e carteiras de escolas). A família morou em vários locais diferentes —entre capital e interior— onde o pai tentava firmar o negócio. Mas a trajetória foi complicada.

A família, que sempre morou de aluguel, chegou a receber ajuda de vizinhos para não passar fome. Esse período durou de 1990 a 1998, quando o pai desistiu de empreender e voltou a trabalhar na mesma fábrica de trens.

Meu pai deixou de ser empreendedor quando eu tinha 9 anos, por conta dos vários problemas, como calotes e tentativas frustradas. Aprendi o que são garra e determinação com o pai. Mas olhando como empreendedor, vejo hoje que não houve planejamento nem controle financeiro por parte dele.
Edgard Marcondes, dono da Let's Go World

Crise existencial no trânsito

Marcondes começou a trabalhar numa indústria e vendeu softwares de multinacionais até ter uma crise existencial em pleno trânsito de São Paulo: estava infeliz e queria retomar o sonho de morar fora do país. Decidiu fazer intercâmbio na Irlanda.

Ele e a mulher venderam tudo o que tinham, pegaram o dinheiro da rescisão de trabalho dela, fizeram empréstimo e, com o curso de inglês já quitado, embarcaram em 2013 para Dublin.

"Comecei a participar de encontros de empreendedorismo, inovação e startups em Dublin e via o quanto de incentivos havia, tanto públicos como privados. Mas, como meu visto era de estudante, não poderia ter um negócio legalizado nem solicitar esses incentivos", afirmou. Geisa trabalhava como babá.

Edgard Marcondes abriu a Dublin Bike Shop, um negócio informal de venda e conserto de bicicletas, em Dublin - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Edgard Marcondes abriu a Dublin Bike Shop, um negócio informal de venda e conserto de bicicletas, em Dublin
Imagem: Arquivo pessoal

Até que Marcondes conheceu um americano que tinha um galpão no centro da cidade repleto de bicicletas para vender. Logo, ele fez a proposta de vender as bikes via Facebook para os estudantes do curso e ainda fazer os reparos dos veículos. Assim nasceu a bicicletaria Dublin Bike Shop. O lucro era dividido meio a meio. O negócio durou um ano —ele montou outra bicicletaria, mas não deu certo.

Marcondes começou a trabalhar como vendedor comissionado de pacotes de intercâmbio (cursos de seis meses mais acomodação), com foco nos estudantes brasileiros e latinos. Ganhava de 20% a 30% de comissão.

No final de 2015, decidiu montar sua própria agência de intercâmbio: a Let´s Go World, uma empresa online constituída no Brasil e na Irlanda, em sociedade com um argentino que tinha passaporte italiano.

Marcondes, por não poder empreender como estudante na Irlanda, era responsável pela sede do Brasil. O outro sócio é André Martins, focado em marketing digital. O investimento inicial foi de 1.000 euros (R$ 6.500).

Ida para Portugal e quase falência

Em 2017, Marcondes e os sócios decidiram levar a sede da Let´s Go World para Portugal. Mas a Let's Go World quase faliu.

"Erramos em fixar os preços dos pacotes em reais. Quando um estudante comprava um pacote por R$ 12 mil, dava uma entrada de 20% e pagava o restante em até 10 vezes no boleto. No entanto, a grande variação cambial fez a empresa perder muito dinheiro. Muitos contratos foram fechados com o euro a R$ 3, R$ 3,50. Mas, um ano depois, quando o estudante iria embarcar, e nós tínhamos que fazer o pagamento do pacote para a escola e a acomodação, o euro estava em R$ 4,50. Gerou um grande prejuízo."

Para sair do buraco financeiro, a empresa fez um empréstimo em Portugal. Entre 2019 e 2020, Marcondes reestruturou a Let's Go World para ser uma plataforma de marketplace de cursos no exterior.

Mais uma empresa na pandemia

Com a pandemia, o negócio de intercâmbio foi bastante afetado. "Paramos todas as vendas, pois não sabemos quando o estudante poderá embarcar para o destino e realizar o intercâmbio", disse. No entanto, ele aproveitou o ano para abrir outra empresa: a Let's Go Study, focada em cursos online profissionalizantes, com certificado válido em Portugal. O investimento inicial foi de 16 mil euros (R$ 104 mil).

Também em 2020 Marcondes e mais oito empreendedores estruturaram a Associação Internacional Hub. É uma plataforma com conteúdo e cursos online criados para ajudar estrangeiros a montar um negócio em Portugal. "O objetivo é dar acesso a network e informações confiáveis em um só local. Que um empresário possa ajudar o outro por meio de mentoria e suporte", afirmou Marcondes.

Cada associado paga 100 euros (R$ 663) por ano. Segundo Marcondes, todo o valor recebido será investido em tecnologia, como a criação do aplicativo da plataforma.

Depois de três anos morando em Portugal e fazendo vários contatos, consegui me tornar um referencial para outros brasileiros. Na associação, somos nove diretores com expertise nas mais diversas áreas, como negócios, contabilidade, financeiro, marketing, RH e tecnologia.
Edgard Marcondes, dono da Let's Go World

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