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Brasileiro abre corretora em Miami e quer classe média investindo nos EUA

Divulgação/Nasdaq
Executivos da corretora Avenue participam da cerimônia de encerramento do pregão da Nasdaq Imagem: Divulgação/Nasdaq

Ana Paula Ragazzi

Colaboração para o UOL, em Nova York (EUA)

24/11/2018 04h00

Mais uma empresa brasileira tocou a campainha no pregão da Bolsa americana Nasdaq neste ano. Só que ela não vendeu ações --quer é fazer com que o brasileiro comece a comprar papéis diretamente em Wall Street. Uma cerimônia na quarta-feira (21) marcou o início das operações da corretora Avenue, criada por brasileiros, mas com sede em Miami, que tem o objetivo de facilitar investimentos nos Estados Unidos.

Não é preciso ser um investidor qualificado ou um milionário. O foco principal da Avenue é o varejo de classe média. O perfil também não é necessariamente o do investidor agressivo. "Pelo contrário. É um investidor que busca proteção e segurança do seu poder de compra", disse William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

Até o momento, a Avenue tem 7.000 investidores cadastrados, que nas próximas semanas poderão começar a investir nos EUA --em ações da Apple, Amazon, Tesla ou das empresas brasileiras negociadas por lá.

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Como vai funcionar

Hoje, para investir no exterior, o brasileiro precisa acessar uma corretora no Brasil, que entra em contato com uma corretora americana. E tem de arcar com os custos e comissões das duas instituições. A proposta da Avenue é enxugar esses custos e facilitar o acesso dos brasileiros ao mercado global.

Inicialmente, a corretora trabalhará com produtos de maior liquidez nos EUA, ou seja, mais fáceis de serem comprados e vendidos. É o caso das ações e ETFs (fundos que replicam índices acionários). Enquanto hoje no Brasil há apenas um ETF, que reflete o Ibovespa, nos EUA há milhares de opções.

O brasileiro que quiser investir em produtos listados nas Bolsas americanas deve fazer um cadastro e, depois, transferir os recursos para a Avenue Brasil, que vai operar como um aplicativo de meios de pagamentos. Esse app, segundo a empresa, recebe o dinheiro e o transfere imediatamente para a Avenues Securities, a corretora sediada em Miami. A partir daí, o cliente já terá acesso aos produtos americanos.

A tecnologia usada para transferir os recursos do Brasil para os EUA é o blockchain, sistema que permite o registro de dados em blocos digitais de informação, à prova de violação de terceiros. Essa tecnologia vai certificar as movimentações de dinheiro. Segundo a Avenue, a corretora manterá nos EUA um "colchão" de recursos para garantir que a aplicação seja feita imediatamente, antes mesmo de o dinheiro aparecer lá fora.

A corretora afirma que vai cuidar de toda a burocracia e terá uma equipe de brasileiros para orientar os clientes sobre os produtos negociados nos Estados Unidos. O escritório fixo da empresa e sua sede são em Miami, e haverá uma equipe de atendimento em português por telefone, email e chat.

Mercado doméstico: shopping onde falta produto

À frente da Avenue está Roberto Lee, que tem pelo menos 20 anos dedicados aos negócios de corretagem. Ele foi da Ágora, da WinTrade, e criou a Clear, comprada pela XP Investimentos em 2012. Nos últimos anos, fez parte da XP, e deixou a empresa após o anúncio de venda para o Itaú Unibanco.

Ele diz que notou uma crescente procura do investidor brasileiro por novos produtos, ainda mais no cenário de taxa básica de juros (Selic) abaixo de dois dígitos. Desde março, a Selic está em 6,5% ao ano, menor nível desde 1996, o que afeta a rentabilidade dos investimentos no Brasil.

"Eu vi a velocidade de captação de novos recursos e clientes na XP. E acredito que, num curto prazo, com a migração dos investidores dos bancos para as casas independentes, vai faltar produto para o investidor brasileiro aplicar. A indústria doméstica ainda é muito pequena", disse Lee. "A gente trabalhava com o conceito de shopping financeiro, mas não adianta ter o shopping se falta produto."

A recomendação de Lee para investidores é manter 30% de suas aplicações no exterior. "A economia, a vida do brasileiro está cada vez mais dolarizada. Basta ver como a puxada recente do dólar neste ano afetou a vida de cada um. Por essa razão, as aplicações no exterior passam a ser cada vez mais relevantes."

Vantagens e riscos envolvidos

A possibilidade de investir lá fora é muito positiva para o brasileiro, na avaliação do professor de Finanças do Insper Ricardo José de Almeida. Primeiro, pela diversidade muito maior de produtos, mas também para afastar o risco cambial (da variação do dólar em relação ao real). Se o dólar subir no Brasil, o investimento nos EUA também vai passar a valer mais se convertido em reais.

"Será uma maneira simplificada de o brasileiro se proteger da variação do câmbio que possa ocorrer no futuro", afirmou. Segundo ele, hoje o brasileiro de classe média compra dólar em espécie. Agora, vai poder ter um ativo (ação, ETF) cotado em dólar, que paga dividendos (rendimentos) em dólares.

E se a Bolsa dos EUA cair? Almeida diz que, nesse caso, é muito provável que no Brasil a Bolsa caia e o dólar suba em relação ao real. "Ou seja, existe essa proteção natural em reais. O brasileiro vai poder estabilizar o patrimônio em reais."

Os riscos, portanto, são de variação dos produtos escolhidos, de variação do câmbio, e de atividade econômica --uma crise nos EUA, por exemplo. Além do risco operacional, ou seja, de existir algum problema na Avenue, aponta o professor.

Para a proteção do investidor, nos EUA existe o SIPC (Securities Investor Protection Corporation), semelhante ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito) brasileiro. Ele garante ao investidor o valor investido, com o limite de até US$ 500 mil, no caso de quebra de corretora.

Limite mínimo e prazos

A Avenue afirma que não tem um valor mínimo inicial para investimentos, uma vez que o objetivo é democratizar o acesso a esse novo mercado. A corretora diz que será preciso avaliar, caso a caso, qual o valor mínimo a ser destinado a cada ativo para que o investimento faça sentido.

Também não há uma regra em relação ao prazo mínimo recomendado para manter a aplicação. "Como qualquer investimento e, especialmente, para construção de patrimônio de longo prazo, o objetivo é que a pessoa deixe o seu dinheiro por bastante tempo, para que o investimento possa maturar", afirmou William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue.

Segundo ele, considerando o índice S&P, um dos principais da Bolsa dos EUA, é baixa a probabilidade de alguém ganhar dinheiro investindo em ações por apenas um ano. "No longo prazo (10, 15 ou 20 anos), a probabilidade de você ganhar dinheiro investindo em ações é muito alta. É o poder do longo prazo de uma economia forte e sólida", disse.

Ainda assim, se o investidor quiser resgatar o dinheiro num prazo mais curto, em menos de uma semana o dinheiro estará de volta no Brasil, segundo a corretora, que promete pagar resgates no mesmo intervalo de tempo de uma TED. "O investidor de varejo precisa ter liquidez imediata", diz Alves.

O investidor também terá um benefício na hora de definir o valor de conversão de reais para dólares. A taxa de câmbio não será fechada apenas com base em seu aporte individual, mas, sim, a partir de volumes maiores, de vários clientes.

Regras dos EUA, e tudo declarado à Receita

O brasileiro será tratado como um investidor não residente nos EUA e deverá declarar todo o investimento à Receita Federal no Brasil. A Avenue informa que terá uma ferramenta para ajudar a fazer essa declaração.

Como se trata de uma empresa americana, qualquer relação com a corretora será feita a partir das regras e canais dos EUA. A Avenue, portanto, tem todas as licenças e passou por todo o escrutínio das autoridades americanas.

O principal investidor da Avenue é a Vectis Partners, que tem entre os sócios Patrick O' Grade (ex-XP), Paulo Lemann (filho de Jorge Paulo Lemann, da 3G) e Alexandre Aoude (ex-Deutsche Bank). Os investimentos no negócio são de cerca de R$ 25 milhões.

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