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ANÁLISE

Água e esgoto são indispensáveis: vale a pena investir nessas empresas?

14/09/2022 11h00

Você já deve ter ouvido falar que um dos setores mais previsíveis e perenes da Bolsa é o de saneamento. Esse segmento cuida da distribuição de água potável, tratamento de esgoto e pode operar com a destinação de resíduos.

Entenda a importância deste setor para a economia brasileira e conheça as vantagens e desvantagens de investir nas ações das empresas de saneamento listadas na Bolsa.

A análise foi feita pelo Rafael Bevilacqua, estrategista-chefe e sócio-fundador da Levante Ideias de Investimentos.

O setor de saneamento

Como a energia elétrica, o saneamento é um serviço essencial de utilidade pública, categoria também conhecida como utilities. Portanto, trata-se de um mercado que, geralmente, não experimenta variações bruscas em seus resultados financeiros e nem em seu desempenho operacional, uma vez que a demanda pelos serviços dessas companhias tende a se manter relativamente constante.

Podemos, então, considerá-lo mais estável do que a média dos setores. Entretanto, você deve saber que o Brasil possui uma infraestrutura anêmica no setor de saneamento, com pouca abrangência de regiões e uma lacuna de investimentos. Segundo o Instituto Trata Brasil, cerca de 35 milhões de brasileiros não possuem acesso à água tratada. Além disso, 100 milhões de brasileiros, que representam 45% da população, não têm acesso à coleta de esgoto.

Você também deve ter ouvido falar do Marco Legal do Saneamento Básico, sancionado em 2020. Trata-se de uma medida que visa estender para a maior parte da população o acesso à água tratada e à rede de esgotos, e potencializar investimentos no saneamento básico, o que também abre portas para possíveis privatizações de empresas estatais.

O modelo de negócios das empresas de saneamento

A água que você utiliza no seu dia a dia em casa muito provavelmente vem de uma empresa de saneamento. Essas companhias captam, tratam, armazenam e distribuem água para uma determinada região. Só assim a população obtém o que chamamos de água potável, com qualidade suficiente para consumo humano, evitando assim a disseminação de doenças.

Além disso, as empresas de saneamento também oferecem a rede de esgoto. Essa mesma água potável, depois de utilizada, não está mais apta para consumo humano, como a água utilizada em um banho ou na descarga de um banheiro.

Portanto, a companhia fará toda a logística para que esse esgoto seja transportado, tratado e, caso seja possível, reaproveitado. Em um cenário em que esse esgoto não é reutilizável, será feito o descarte seguro do resíduo no meio ambiente.

Empresas de saneamento também podem fazer a gestão de resíduos, que é o lixo doméstico ou industrial. Esse trabalho inclui coleta dos resíduos, transporte, tratamento, reciclagem, armazenamento ou descarte do lixo.

Em suma, empresas de saneamento são algumas das principais responsáveis pela saúde pública e prevenção de doenças. Saneamento é sinônimo de qualidade de vida.

Marco Legal do Saneamento Básico

Sancionado em julho de 2020, o novo Marco Legal do Saneamento Básico foi criado com o seguinte intuito: até 2033, 99% da população brasileira deverá ter acesso à água potável e 90% ao tratamento e coleta de esgoto. Para isso, diversas ações foram tomadas para que o setor receba mais investimentos privados.

Foi criada a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que será responsável por editar normas de referência para a regulação dos serviços públicos de saneamento básico. Essas normas devem assegurar a livre concorrência e competitividade de empresas de saneamento, delinear a regulação tarifária, reduzir o desperdício de água, entre outros pontos.

Além disso, talvez uma das mudanças mais importantes para o setor seja a obrigatoriedade de abertura de licitações nas regiões, nas quais poderão concorrer prestadores de serviço públicos ou privados. Assim, governos estaduais e municipais podem firmar contratos diretamente com as empresas.

Licitações são prévias de contratações de serviços. Essa norma deve estimular a concorrência e os investimentos no setor, e pode viabilizar a privatização de empresas estaduais. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), o novo Marco Legal já gerou cerca de R$ 72,2 bilhões em investimentos para o setor de saneamento.

A medida também abriu portas para a prestação regionalizada de serviço, na qual municípios poderão formar blocos para a prestação associada de serviços.

Atraindo capital público e privado, o setor deverá receber mais competitividade e investimentos com as licitações. Já a população será beneficiada pela universalização do serviço público e melhora da qualidade de vida.

Vantagens e riscos de investir nesse setor

Como mencionado anteriormente, uma das grandes vantagens - e muito provavelmente a principal - do setor de saneamento é a previsibilidade de suas receitas. Em razão dessas receitas recorrentes, as empresas acabam pagando dividendos frequentemente. Esses dois aspectos tornam as empresas de saneamento investimentos atrativos visando o longo prazo.

Entretanto, há alguns riscos que precisam ser mencionados.

Empresas de saneamento são, em grande parte, estatais. Isso significa que o acionista principal e controlador dessas empresas é o respectivo governo estadual. Mesmo com o novo Marco do Saneamento aprovado, não há nenhum processo oficial de privatização em andamento para as principais empresas de saneamento estaduais.

São elas: Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) e Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) - as três companhias estão listadas em Bolsa.

O controle por parte do estado pode ser considerado um risco, pois sujeita as empresas a interferências políticas ou legais, que podem comprometer seu desempenho financeiro e operacional, e assim, prejudicar o interesse dos acionistas minoritários. O governo estadual pode decidir, por exemplo, impedir reajustes tarifários altos para viabilizar o serviço para a população em cenários desafiadores, isso pode acarretar prejuízo para aquela determinada empresa.

O que nos leva ao segundo risco: a crise econômica. Em cenários desafiadores, com desemprego elevado, altas taxas de juros e inflação, é possível que a população tenha dificuldade em pagar suas contas. Essa inadimplência tende a prejudicar as empresas tanto de saneamento como as elétricas e, consequentemente, os acionistas.

Não obstante, um risco que também é intrínseco ao setor de saneamento é o climático.

As empresas de saneamento possuem reservas de água, que são diretamente impactadas pelo volume de chuva da determinada região. Na eventualidade daquela região entrar em estiagem, com pouco volume de chuvas, a companhia terá dificuldades de suprir água para as regiões que atende.

Empresas com ações na Bolsa

Sabesp (SBSP3)

Fundada em 1973, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) é uma das maiores empresas de saneamento básico do mundo em população atendida. A Sabesp atende, aproximadamente, 28,4 milhões de pessoas com água e 25,2 milhões com coleta de esgotos, em 375 municípios do Estado de São Paulo.

Segundo a Sabesp, a companhia é responsável por cerca de 30% dos investimentos em saneamento básico feitos no Brasil. Ela planeja investir cerca de R$ 23,8 bilhões entre 2022 e 2026. Embora seja a operadora de água e esgoto do país, não há uma perspectiva de a empresa crescer muito no longo prazo, justamente por já ser uma das mais consolidadas de seu setor e atender o estado mais rico e populoso do país.

O reajuste tarifário da empresa em maio de 2022 foi de 12,8%.

Sanepar (SAPR11)

A Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) também está muito bem consolidada, atendendo 345 municípios dos 399 do Estado do Paraná. A companhia possui 168 Estações de Tratamento de Água (ETAs) e 258 Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs). Anteriormente, em 2020 e 2021, a Sanepar sofreu com o abastecimento de água com a crise hídrica que se deu na região, o que é um ponto de atenção, entretanto a empresa já aparenta ter se recuperado. Em 2021, a Sanepar investiu R$ 1,3 bilhão e projeta investir R$ 9,07 bilhões até 2026.

Antes do anúncio do reajuste tarifário anual, em maio deste ano, os investidores estavam cautelosos em relação à ação, temendo um reajuste muito abaixo do anunciado no ano anterior. Contudo, o reajuste veio em 4,96%, pouco abaixo da revisão tarifária anterior de 5,77%, o que trouxe um pouco de alívio ao mercado. Após uma breve reação positiva no curto prazo, os papéis acompanharam a queda generalizada da Bolsa em junho.

Copasa (CSMG3)

A Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) foi fundada em 1963, e está presente em 640 municípios do Estado de Minas Gerais, através de 631 concessões de água e 267 concessões de esgoto. A companhia pretende investir cerca de R$ 7,4 bilhões até o final de 2026, e atende aproximadamente 13 milhões de pessoas.

A empresa é a menor das três analisadas neste relatório, e adiou o seu reajuste tarifário em 2022.

E agora, o que faço?

O setor de saneamento no Brasil encontra-se, em geral, atrativo para aquele investidor que valoriza o pagamento de proventos e o investimento de longo prazo, com potencial de crescimento advindo da possível maior capitalização privada e pública. É de extrema importância que você, como investidor, avalie todos os setores disponíveis na Bolsa brasileira para definir o mais alinhado aos seus objetivos e perfil de investidor.

Veja aqui o relatório completo sobre o setor de saneamento para decidir se vale a pena investir.

Carteiras conforme o perfil

Para quem ainda não pegou as recomendações de investimentos, elas estão a seguir:

- Carteira para quem não aceita risco algum

- Carteira para quem tem perfil mais conservador, mas aceita um pouquinho de risco

- Carteira para quem é mais moderado

- Carteira para quem aceita mais risco

- Carteira para quem aceita alto risco

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Este material foi elaborado exclusivamente pela Levante Ideias e pelo analista Felipe Bevilacqua (sem qualquer participação do Grupo UOL) e tem como objetivo fornecer informações que possam auxiliar o investidor a tomar decisão de investimento, não constituindo qualquer tipo de oferta de valor mobiliário ou promessa de retorno financeiro e/ou isenção de risco . Os valores mobiliários discutidos neste material podem não ser adequados para todos os perfis de investidores que, antes de qualquer decisão, deverão realizar o processo de suitability para a identificação dos produtos adequados ao seu perfil de risco. Os investidores que desejem adquirir ou negociar os valores mobiliários cobertos por este material devem obter informações pertinentes para formar a sua própria decisão de investimento. A rentabilidade de produtos financeiros pode apresentar variações e seu preço pode aumentar ou diminuir, podendo resultar em significativas perdas patrimoniais. Os desempenhos anteriores não são indicativos de resultados futuros.