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Novos influenciadores ensinam negros e jovens a investir de um jeito fácil

Amanda Dias, do Grana Preta: uma das novas influenciadores que decidiram focar em público específico - Débora Monteiro/Divulgação
Amanda Dias, do Grana Preta: uma das novas influenciadores que decidiram focar em público específico Imagem: Débora Monteiro/Divulgação
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Camila Mendonça

Do UOL, em São Paulo

10/04/2021 04h00

Não é novidade que o mercado de influenciadores de finanças e investimentos cresceu nos últimos anos. Não importa a rede social, existe alguém falando sobre dinheiro na internet. Levantamento da B3, feito no final do ano passado pelo instituto de pesquisa Talk, mostrou que 73% dos entrevistados afirmaram aprender sobre investimentos com influenciadores.

Esse crescimento chamou a atenção da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que passou a criar regras para quem produz conteúdo sobre investimentos.

Para quem olha de longe, parece que já não existe mais espaço nesse mercado. De perto, a realidade é bem diferente. Novos influenciadores de investimentos surgem, aproveitando brechas que os maiores não conseguem enxergar e focam em atender a determinados grupos, faixa etária e de renda.

"Ser um influenciador de finanças e investimentos envolve confiança. Você precisa construir uma relação de confiança com a pessoa que está te escutando. Quando você tem uma pessoa que se encaixa com o seu perfil de gênero, social, de idade, de renda, essa construção de laços é mais fácil", diz Henrique Castro, professor de finanças da Escola de Economia de São Paulo da FGV.

Conheça a seguir os novos influenciadores de finanças e investimentos que cresceram na pandemia olhando para um ponto do mercado.

Pandemia ajudou a descentralizar a influência

O professor Castro acredita que os novos influenciadores fazem parte de um movimento de descentralização da influência —em que os grandes influenciadores de hoje podem crescer menos do que há alguns anos, dando espaço para quem fala com públicos específicos.

A pandemia também ajudou a intensificar esse movimento, segundo a educadora financeira Dina Prates.

Existe uma massificação de conteúdos -muitas pessoas falando sobre as mesmas coisas e trabalhando os mesmos conteúdos. Mas os influenciadores tradicionais não conseguem dialogar com o grande público. A realidade de grande parte das pessoas é sobreviver com um salário mínimo para uma família inteira. Para essas pessoas, não tem como economizar 30% do que ganha, como muitos dizem.
Dina Prates

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que a renda média do brasileiro em 2020 foi de R$ 1.380.

Não conseguiu seguir dicas de grande influenciadora

Amanda Dias acredita que grandes influenciadores não representam a realidade  - Débora Monteiro/Divulgação - Débora Monteiro/Divulgação
Amanda Dias acredita que grandes influenciadores não representam a realidade
Imagem: Débora Monteiro/Divulgação

A jornalista Amanda Dias, 27, sempre gostou de aprender sobre investimentos e seguia grandes influenciadores da área. Apesar do esforço, porém, ela não conseguia colocar em prática as dicas dadas, como ter a conta essencial gratuita em um banco. "Como mulher negra, tive uma série de dificuldades. Só consegui ligando [por telefone], porque assim não viam a minha cor", conta.

A questão do desconto é a mesma coisa: quando você entra em um shopping, você já está ali como uma pessoa indesejada e piora quando você pede desconto, porque as lojas já partem do pressuposto de que você não tem dinheiro. Os conteúdos que existiam não me abraçavam como mulher negra, não dialogavam com a minha realidade.
Amanda Dias

Dias acredita que, assim como ela, existem muitas mulheres e homens negros que não conseguem se enxergar em muitos conteúdos. Por isso, ela criou o Grana Preta. Com menos de dois anos, o perfil no instagram tem quase 40 mil seguidores.

O maior crescimento, segundo Amanda, aconteceu ano passado, e o conteúdo é focado na realidade de pessoas negras e de baixa renda. Mesmo com pouco dinheiro, o público dela quer aprender mais sobre investimentos.

Nem todo mundo quer o 1º milhão antes dos 30 anos

Alan Soares, criador do Boletinhos: jovens querem pagar os boletos em dia - Divulgação - Divulgação
Alan Soares, criador do Boletinhos: jovens querem pagar os boletos em dia
Imagem: Divulgação

O publicitário Alan Rodrigues Soares, 25, criou o perfil Boletinhos no Instagram em abril de 2019 como parte de um projeto da faculdade e hoje tem quase 100 mil seguidores. No exercício, ele uniu duas paixões: o desenho e o tema finanças. "Sou organizado desde pequeno, porque minha mãe sempre trabalhou e dava muito valor para o dinheiro. Cresci nesse ambiente", conta.

Esse gosto o fez se tornar o cara da turma que entende de dinheiro. Por insistência dos amigos, Soares seguiu com o projeto para além do exercício de aula.

Eu acompanhava várias pessoas no YouTube, mas percebi que eles tratam de muitas coisas complexas, parece que estão falando para aquele adulto focado, mais estabelecido. Não enxergava nada para a minha idade. Nem todo mundo quer ganhar o primeiro milhão antes dos 30 anos. As pessoas querem pagar as contas.
Alan Soares

O público de Soares está na faixa entre 16 e 30 anos, e que está fazendo as primeiras coisas em relação ao dinheiro, como o primeiro aluguel, o primeiro emprego, o primeiro carro.

Perrengues da juventude

Michel Silva criou o Graninhas focado em jovens adultos com perrengues financeiros - Divulgação - Divulgação
Michel Silva criou o Graninhas focado em jovens adultos com perrengues financeiros
Imagem: Divulgação

Há pouco mais de um ano, o publicitário Michel Marques Gomes da Silva criou o Graninhas, perfil que já reúne quase 150 mil pessoas. Ele também une desenho e finanças, mas adicionou ainda elementos de humor e cultura pop. Tudo isso para chamar a atenção de jovens que, como ele, estão começando agora a lidar com produtos financeiros.

Silva tomou gosto por finanças e investimentos depois de uma dívida de R$ 25 mil em cartões de crédito. Depois de estudar para entender como sanar o débito, ele começou a se organizar melhor e criou o Graninhas de forma planejada.

Meus amigos pediram para criar um perfil para colocar esse conhecimento no mundo, mas antes fui estudar esse mercado e vi que é tudo muito chato. Não me sentia representado. Queria unir algo criativo e divertido, para que as pessoas jovens consigam aprender de uma forma nova.
Michel Silva

Silva também aposta na comunidade, chamada de "graninhers" (os seguidores do perfil). Parte do conteúdo é criada com base no que a comunidade pede ou debate nas redes.

Mais influenciadores para você acompanhar

NoFront Educação Financeira: o perfil da economista e colunista do UOL, Gabriela Chaves, é focado no público negro e usa referências do rap para ensinar finanças e investimentos.

Favelado Investidor: criado pelo contador Murilo Duarte, o perfil e canal do YouTube ensina investimentos para o público de baixa renda. Ele mostra que, mesmo quem vive na periferia consegue investir.

Papo com Bolsa: a analista e educadora financeira Bea Aguillar tem perfil no Instagram com seu nome e também comanda o canal Papo Com Bolsa, no YouTube. Ela é uma das poucas mulheres com certificação para falar sobre ações na internet.

Cuidados precisam ser redobrados

Henrique Castro, da FGV, avalia que ainda que o crescimento do mercado de influenciadores de finanças seja positivo, é preciso redobrar os cuidados.

Você precisa entender como eles ganham dinheiro. O que esse influenciador está falando é algo para o seu benefício ou para o benefício dele? O que ele fala é para te ensinar alguma coisa ou para vender alguma coisa?
Henrique Castro

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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