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Negócios com fundo que investe em cemitérios crescem 31% na pandemia

Fundo de investimento Care11 tem participação no Terra Santa Cemitério Parque, em Belo Horizonte (MG) - reprodução
Fundo de investimento Care11 tem participação no Terra Santa Cemitério Parque, em Belo Horizonte (MG) Imagem: reprodução
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João José Oliveira

Do UOL, em São Paulo

30/06/2021 04h00

O que acha de investir em cemitérios e crematórios? No mercado de fundos de investimento imobiliário (FIIs), há um segmento menos conhecido, que é o da assistência à morte. São carteiras que aplicam o dinheiro dos cotistas em empresas e atividades de cemitérios, crematórios, serviços e planos funerários.

A média diária do volume de negócios com cotas do único FII brasileiro do setor cresceu 31% desde a pandemia em relação à média dos dois anos anteriores. Confira a seguir detalhes do desempenho desse fundo e o que dizem analistas sobre esse tipo de investimento.

Segundo o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, essa atividade econômica movimenta no Brasil cerca de R$ 7 bilhões por ano. Nos EUA, os serviços funerários giram anualmente US$ 28,7 bilhões (R$ 145 bilhões), segundo o estudo Death Care Services - Global Market Trajectory & Analytics. Por lá, há dezenas de opções para os aplicadores.

No Brasil, essa categoria é representada por apenas uma carteira, o Brazilian Graveyard and Death Care Services FII, negociado na Bolsa com o código CARE11.

Qual a lógica do negócio?

Segundo analistas, os fundos imobiliários que investem em propriedades e serviços funerários são caracterizados por apresentarem uma baixa correlação com a atividade econômica e elevada correlação maior com o envelhecimento da população.

Isso quer dizer que independentemente de uma economia estar crescendo ou em recessão, a demanda por serviços funerários varia pouco. Por outro lado, quando a população de um país envelhece, aumenta a procura das famílias por esses serviços de forma mais organizada e planejada.

Negócios do fundo de cemitérios no Brasil

Segundo o sócio-gestor de fundos da Zion Invest, João Eduardo Santiago, responsável pelo Care11, a estratégia desse investimento é exatamente participar de uma atividade considerada essencial.

Historicamente, a população brasileira enxerga os serviços funerários como uma oferta que deve vir do setor público. Por isso, as famílias não se preocupavam com esses custos, até o momento em que eles aparecem e se mostram elevados. Ao longo dos últimos anos, entretanto, as famílias têm percebido a necessidade de planejar essa despesa, o que estimula empresas do setor.
João Eduardo Santiago, sócio-gestor da Zion Invest

Segundo dados da Abredif (Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário), o número de óbitos no Brasil em 2020 cresceu 15% em relação a 2019, atingindo 1,45 milhão de vítimas.

O que tem no fundo de cemitérios

Lançado na Bolsa em 2016, o Brazilian Graveyard and Death Care Services FII é um fundo que tem participação atualmente em cinco negócios.

  • Grupo Cortel: detém 18,09% do Grupo Cortel, holding de oito cemitérios, cinco crematórios, funerária e plano funeral que atua nos estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo e Amazonas.
  • Terra Santa: possui 52,77% do empreendimento Terra Santa Cemitério Parque, cemitério localizado na cidade de Sabará, região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais.
  • Parque das Allamandas: controla 11,83% do Cemitério Parque das Allamandas, na cidade de Londrina, interior do estado do Paraná.
  • Jazigos do Terra Santa: possui 2.887 jazigos adquiridos da VHR Empreendimentos e Participações no Terra Santa Cemitério Parque.
  • Jazigos do Cemitério do Morumby: propriedade de 2.873 jazigos no Cemitério do Morumby, no Morumbi, bairro da zona Sul da capital paulista.

Como funciona o fundo

O Care11 é um fundo imobiliário que se torna sócio de empresas que têm propriedades ou prestam serviços relacionados ao setor funerário, como cemitérios, jazigos, planos funeral e cremação. Ao comprar uma cota desse fundo, o aplicador se torna sócio desses negócios, recebendo dividendos conforme essas operações apuram receitas.

Os dividendos pagos aos investidores do Care11 são gerados pelas vendas feitas pelas empresas nas quais o fundo tem participação. As principais fontes de receitas são:

  • Vendas de jazigos
  • Vendas de planos funerários
  • Vendas de serviços funerários
  • Vendas de planos cremação

O modelo de negócio das empresas que atuam no setor não é explorar o luto, mas oferecer um serviço com dignidade às famílias enlutadas, porque no momento mais difícil para as famílias, esses serviços representam preocupações a menos.
João Eduardo Santiago, sócio-gestor da Zion Invest

Distribuição de dividendos: o fundo paga dividendos mensais, conforme o desempenho dos ativos que tem sob controle. Na última rodada de distribuição de rendimentos, em 7 de junho de 2021, foram distribuídos em torno de R$ 0,0017 por cota.

Considerando o último exercício anual, em 2020 o fundo teve lucro líquido de R$ 42,4 milhões e fez uma distribuição de rendimento aos cotistas no valor de R$ 2,1 milhões. O rendimento em relação ao patrimônio do fundo, o chamado yield, foi da ordem de 2,31% em 12 meses.

Taxas: o aplicador paga taxas de administração, de controladoria e de custódia que somam cerca de 1,5% ao ano em relação ao valor do patrimônio.

Investindo: no caso do brasileiro Care11, como a oferta inicial foi feita há bastante tempo, a pessoa interessada em investir nesse fundo precisa comprar as cotas do Care11 que são negociadas na Bolsa, pelo menos enquanto não houver uma nova oferta de cotas.

O processo é o mesmo que comprar ações ou cotas de outros fundos: abrir uma conta em corretora e dar a ordem de compra.

Desempenho do fundo na Bolsa

Apesar de a média de negócios do FII ter aumentado 31% na pandemia, o valor da cota do fundo caiu no período. Lançada em Bolsa a R$ 1,00, a cota do fundo Care11 bateu o valor máximo em 23 de março de 2018, quando fechou cotado a R$ 2,57.

No fim de fevereiro de 2019, antes da pandemia, o Care11 estava sendo negociado a R$ 1,60. A cota entrou em tendência predominante de queda, até a mínima histórica, de R$ 0,55, em 26 de março deste ano.

Desde então, entretanto, o Care11 vem se recuperando, cotado agora na Bolsa por volta de R$ 0,73, abaixo do valor patrimonial do fundo, que fechou maio a R$ 1,61.

Ou seja, as cotas do fundo estão sendo negociadas abaixo do valor do patrimônio que o fundo detém na carteira, com desconto da ordem de 45%.

A queda de valor das cotas lá atrás estava relacionada à expectativa dos investidores que entraram no fundo e que tinham mais foco no curto prazo. O modelo desse fundo é gerar renda, e não ganhos de capital. Com a pandemia, está havendo uma maior demanda pelos serviços funerários por parte de famílias que viram a necessidade de fazer planejamento para isso. Então, na Bolsa a procura pelas cotas do fundo voltou a crescer.
João Eduardo Santiago, sócio-gestor da Zion Invest

Atenção antes de investir

Como todo fundo imobiliário, os fundos que investem em negócios relacionados ao setor funerário exigem do aplicador cuidados com os ativos que estão na carteira e com o modelo de negócio, para checar se as operações são rentáveis e seguras mesmo no longo prazo.

O especialista em fundos imobiliários e CEO da plataforma dedicada a fundos imobiliários Clube FII, Rodrigo Cardoso de Castro, aponta que o fundo death care brasileiro tem características semelhantes ao de fundos imobiliários de desenvolvimento. Ou seja, carteiras que faturam principalmente com as operações de compra e venda de ativos ao longo do tempo - no caso, com jazigos, por exemplo.

Não é porque um setor é perene que o fundo é necessariamente bom. Precisa ter boa gestão, modelo de negócio e transparência.
Rodrigo Cardoso de Castro, CEO do Clube FII

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.

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