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Fundos de investimento em cannabis acumulam perda de mais de 50% em 1 ano

Indústria da cannabis entrou nos últimos anos no radar dos investidores - Fernando Moraes
Indústria da cannabis entrou nos últimos anos no radar dos investidores Imagem: Fernando Moraes
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Paula Pacheco

Colaboração para o UOL, de São Paulo

16/03/2022 04h00

Uma das indústrias que entrou nos últimos anos no radar dos investidores é a da cannabis, usada para produção de substâncias de uso medicinal e produtos têxteis.

Os fundos de cannabis acumulam perdas de mais de 50% em um ano. Vale a pena investir no setor? Confira abaixo a opinião de analistas.

Como investir em cannabis

O brasileiro tem a opção de investir em cannabis com a compra de ações (por meio da abertura de conta no exterior) ou de fundos referenciados em índices estrangeiros atrelados à planta (ETFs, a sigla para Exchange Traded Funds).

A forma mais tradicional, segundo Guilherme Zanin, estrategista da Avenue Securities, é com investimento em ETFs negociados nos EUA. Para o especialista, esse modo é mais seguro, porque contempla a diversificação da carteira, evitando o excesso de exposição.

"É algo importante a se levar em consideração, já que é difícil prever quais empresas vão se dar bem nesse mercado, que é muito singular. Agora, eu diria que este é um setor arriscado, mas que deve se manter ao longo do tempo", diz.

No Brasil, ainda há poucos ETFs atrelados à indústria da cannabis. O Vitreo Canabidiol, por exemplo, aceita aporte mínimo de R$ 100. Sua rentabilidade caiu 19,66% desde a data de lançamento, em 24 de maio de 2021. Na comparação com o índice S&P 500 (índice composto por 500 ativos cotados nas Bolsas de Nyse ou Nasdaq), a desvalorização é de 105,59%. No ano, o fundo tem até agora um retorno de -29,05%.

O fundo Trend Cannabis FIM, gerido pela XP Asset Management, oferece o mesmo valor de aplicação mínima, e a queda acumulada em 12 meses é de 59,19%. Procurada pela reportagem, a XP não quis comentar a performance do produto.

Por que o setor caiu tanto?

Nos últimos 12 meses, houve um declínio no valor dos investimentos em cannabis negociados no mercado financeiro da América do Norte —uma das principais regiões consumidoras de maconha, tanto quanto ao uso recreativo quanto medicinal. O Nammar —abreviação de North American Marijuana Index, índice que acompanha o desempenho de uma cesta de empresas de capital aberto dos EUA e do Canadá com atividades comerciais significativas no setor de maconha— caiu 57,34% de 7 de março de 2021 a 7 de março de 2022.

"A performance recente do setor de cannabis tem sido muito ruim. Contudo, quando olhamos nos últimos anos, a volatilidade [oscilação] tem sido algo bem presente na vida dos investidores", diz George Wachsmann, sócio-fundador e CIO na Vitreo.

A queda recente, segundo ele, está ligada a três eventos: eleição de Joe Biden para presidente, a vitória dos Democratas no estado da Geórgia (EUA) e o episódio "ações meme".

"Ações meme" foi o nome dado ao movimento de usuários de fóruns na internet que se uniram na compra de ações e opções de empresas que estavam entre as mais "shorteadas", ou seja, com os investidores apostando mais na queda do que na alta.

Enquanto os dois primeiros eventos podiam ser considerados fatores positivos para os fundamentos do setor, já que os Democratas seriam mais propensos a colocar em votação projetos positivos para a indústria, de acordo com Wachsmann, o caso das "ações meme" atingiu os negócios atrelados à cannabis.

"Diversas empresas do setor também eram alvos naquele momento de investidores com táticas de apostar na venda e na consequente desvalorização das ações para recomprá-las mais a frente por preços menores —auferindo ganhos, provocando o 'short squeeze' [em que há um esforço para que os investidores recomprem a ação a qualquer preço para evitar grandes prejuízos] em algumas dessas companhias de cannabis", declara o sócio-fundador da Vitreo.

Ou seja, segundo o especialista, o último movimento não estava ligado aos fundamentos do setor que, para ele, continuam positivos. Era natural, naquele contexto, que os investidores vendessem suas participações em empresas da indústria de cannabis para obter ganhos.

Rodrigo Lima, analista de investimentos e editor de conteúdo da Stake, também avalia questões externas como as principais causas para a perda de valor das empresas que fazem negócios com cannabis.

De maneira geral, a desvalorização vem acontecendo com a maior parte dos ativos no mundo. O momento leva os investidores a sair dos ativos de maior volatilidade [oscilação] e buscar opções mais seguras, como os títulos do Tesouro americano e o ouro.
Rodrigo Lima, analista de investimentos e editor de conteúdo da Stake

Cultivo fácil hoje é um problema

A maconha pode ser cultivada facilmente, em qualquer época do ano, e não depende do clima —pode crescer tanto no frio quanto em altas temperaturas. Se por um lado a forma de cultivo traz vantagens, por outro a euforia do mercado financeiro fez com que houvesse uma oferta excedente, sobrecarregando os estoques —o que não acompanhou a demanda, de acordo com Zanin, da Avenue Securities.

Junto a isso, há um ritmo mais lento do que o esperado nas liberações por parte das autoridades. A combinação fez com que muitas empresas do setor não conseguissem atingir o crescimento esperado.

Houve casos, de acordo com o especialista, de companhias com taxa de expansão de 50% ao ano, mas que mesmo assim não conseguiram atender as expectativas do mercado de ações. Afinal, o mercado esperava por taxas ainda maiores. Com a queda no valor das ações, o que se vê agora não negócios sendo incorporados a preços baixos ou simplesmente fechados, segundo o especialista.

Vale apostar em fundos de cannabis?

Apesar de o consumo de maconha ser antigo, este é um mercado ainda em fase de regulamentação. Países como Estados Unidos e Canadá estão mais avançados nesse quesito, mas a falta de autorização do uso da planta na maioria das nações faz com que muitas empresas do setor ainda não sejam rentáveis, de acordo com Nelson Muscari, coordenador de fundos e investimentos da Guide Investimentos.

Hoje é muito difícil prometer retorno ou dizer que é um mercado muito seguro. A vantagem, por outro lado, é que o potencial de retorno é muito mais alto, porque há diversas aplicabilidades da cannabis que ainda não foram lançadas no mercado. Como é uma demanda que está começando agora, acho que o potencial é relativamente bom. Mas em um tipo de mercado como esse não tem como olhar no curto prazo, porque não dá para ter previsibilidade.
Nelson Muscari, coordenador de fundos e investimentos da Guide Investimentos

O especialista da Guide declara ainda que, no atual cenário global —com acontecimentos recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia—, o foco dos negócios para o lazer (ou consumo recreativo da maconha) deve perder relevância, o que pode fazer com que a recuperação do valor das ações leve mais tempo.

Por acreditar nos fundamentos, Wachsmann diz que ainda vale entrar em fundos do setor de cannabis como uma das alternativas para o longo prazo. Mas ele recomenda cautela: investir somente até 10% do capital na parcela no exterior. Ainda, para ele, ainda não é possível determinar um prazo para que os resultados ocorram.

Enzo Pacheco, analista da Empiricus, avalia que essa participação deva ficar, na média, entre 3% e 5% da carteira exposta ao exterior.

"É importante lembrar que esse é alto risco. Se normalmente falamos que uma tese de investimento em uma ação de um setor 'normal' leva de um a três anos para maturar, esse intervalo no setor de cannabis passa para três a cinco anos", afirma.

Lima, da Stake, faz um alerta sobre os investimentos em fundos de cannabis.

Mesmo para quem tem perfil arrojado a exposição não deve ser grande. Sendo pragmático, acho que não deveria passar de 5% da carteira. Sempre importante lembrar que renda variável tem de ser para longo prazo. Se tiver cabeça de curto prazo, é melhor optar por renda fixa.
Rodrigo Lima, analista de investimentos e editor de conteúdo da Stake

Tanto Pacheco quanto Wachsmann acreditam em uma perspectiva otimista. Os especialistas declaram que há uma série de estados americanos que iniciarão a venda de maconha, seja para o uso recreativo ou medicinal, "o que mantém o setor entre as principais histórias de crescimento para os próximos anos".

Para o especialista da Stake, o investidor deve ficar de olho nas companhias mais maduras, que tenham maior participação de mercado e já estejam na fase de crescimento da receita. Mas é importante lembrar, segundo ele, que esse ainda é um setor especulativo, que depende de regulamentação e da aceitação da sociedade.

"Ele [o mercado de cannabis] pode passar por grande volatilidade [oscilação] enquanto não houver clareza regulatória", diz.

Este material é exclusivamente informativo, e não recomendação de investimento. Aplicações de risco estão sujeitas a perdas. Rentabilidade do passado não garante rentabilidade futura.